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Busca no site http://ciencialivre.pro.br/htdig/common/spanish/search.html

Envie seu artigo para mairesse@terra.com.br, para ser publicado aqui, total ou parcialmente.

Seu texto ficará disponibilizado para, livremente, quem quer que seja, utilize-o, parcial ou totalmente, pelos meios que preferir


CONTAMINAÇÃO DO URUGUAI COMEÇA A FAZER VÍTIMAS EM SÃO BORJA

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 07 de maio de 2012

Aquilo que se esperava acontecer porque não tinha como não acontecer, aconteceu.

Já apareceram pessoas doentes em São Borja, devido ao contato com as águas contaminadas do Rio Uruguai, conforme a mídia local já começou a noticiar, inclusive com a confirmação de profissionais da saúde.

Ora, se não bastasse a constatação de que esgotos fétidos descarregam todas as espécies de imundícies no Rio Uruguai, trabalho de pesquisa realizado pelo Dr. Luiz Carlos Porto e sua equipe, demonstraram os graves riscos que se corre ao entrar em contato com as águas desse rio, que morre aos poucos, por culpa exclusivamente de nossas autoridades que deveriam ser responsáveis, mas que cegam diante da luz das evidências.

O referido trabalho de pesquisa vai mais além: não bastassem os perigos da contaminação das águas com microorganismos e metais pesados, até mesmo se corre risco ao consumir os peixes do nosso Uruguai.

Com base no trabalho do médico pesquisador, referido acima; e nas evidências a olho nu, registradas através de diversas fotos, em abril de 2009 levamos denúncia ao Ministério Público Estadual de São Borja.

E o que fez o nosso MP? Praticamente nada, a não ser enviar aos denunciantes fotos de placas nas entradas para o Rio Uruguai, alertando os possíveis usuários sobre o risco das águas contaminadas; placas estas que só apareceram nas fotos e não se confirmaram na prática, a não ser apenas uma, na entrada do antigo porto. Intrigante isto: placas fantasmas?!

Mas nós não nos damos por vencidos: reforçamos as denúncias; avisamos da inexistência das placas (que não foram arrancadas) e chegamos ao ponto de elaborar duas cartas abertas à população de São Borja, salientando o descaso do MP e provavelmente de outras instituições para com a saúde pública.

O único resultado que obtivemos foi algo surrealista: a indiferença das autoridades (in)competentes para com esta grave situação gerou na população um sentimento de que as águas do Rio Uruguai estavam ótimas. Se nada tinha sido feito, deveria ser porque nada precisaria ser feito, deduziram certamente. E nunca se viu tanta gente tomando banho na “Praia da Latrina”, como muitos denominam aquela sopa de contaminantes em que o povo órfão de autoridades expõe a si e a seus filhos a riscos de doenças graves, que podem levar inclusive à morte. E para tornar mais surrealista a situação, era tanta gente na “praia” no último verão que as autoridades resolveram passar uma patrola nas margens do rio (cadê a licença ambiental?), para facilitar o acesso dos “banhistas”.

E agora há que se perguntar? Quem vai se responsabilizar pelo que já aconteceu com algumas pessoas? Quem vai se responsabilizar pelo que ainda está por acontecer, inclusive de muito mais gravidade?

A população que costuma entrar em contato com essas águas poluídas, que fique atenta a quaisquer sintomas que possam sugerir infecções resultantes como conseqüências deste descalabro que ameaça a todos.

E se mesmo apelando ao MP não se consegue alcançar nossos direitos de cidadãos, vamos adiante. Quem entrou em contato com as águas do Uruguai e contaminou-se, que procure um advogado e busque na Justiça a indenização do Estado, que mesmo tendo conhecimento das possíveis conseqüências pelo Ministério Público e/ou FEPAM ou até mesmo das secretarias de saúde, nada fez senão, pela inércia, sugerir à população que as águas poluídas do Rio Uruguai estavam próprias para banho e outras atividades náuticas.

De nossa parte, estamos à disposição para fornecer material e testemunhar em favor das vítimas do descaso das autoridades responsáveis. Basta enviar e-mail para mairesse@terra.com.br, que entraremos em contato.


AGRICULTURA SEM AGROTÓXICOS E SEM PRODUTOS QUÍMICOS!

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 31 de março de 2012

Chama a atenção a oferta de um curso (Curso de Agroecologia integrada e sustentável na Uergsnos dias 10, 23 e 30 de abril, que se propõe a fornecer informações para a produção “sem agrotóxicos e insumos químicos” (http://www.uergs.edu.br/index.php?action=noticias&cod=1497). )

Ora, este é um verdadeiro milagre, pelo qual a Ciência atual luta, utilizando como instrumento principal a biotecnologia, lançando variedades transgênicas de plantas, que utilizam para a sua defesa contra pragas os metabólitos secundários produzidos por elas mesmas. Ou seja, são produtos orgânicos, oriundos da resistência genética, determinados por genes. Esta é então a estratégia utilizada pela Ciência atual, visando eliminar ou, pelo menos, diminuir gradativamente o uso de agrotóxicos. Só o uso do gene Bt de resistência já significou a economia de milhões de toneladas de agrotóxicos e combustíveis no Brasil e no mundo (consulte o site www.cib.org.br). As plantas transgênicas são consideradas com sendo um dos fatores atuais mais importantes na luta contra o aquecimento global e por uma agricultura mais sustentável.

A proposta do referido curso é ensinar a produzir sem uso de agrotóxicos e produtos químicos, algo que para o que se conhece atualmente, parece impossível. Daí a importância do curso, que infelizmente muitos não poderão participar, pela distância e outros fatores. Seria interessante que se gravasse o curso em DVD, para que os demais interessados pudessem ter acesso aos conhecimentos inéditos que serão disponibilizados durante o curso.

É importante ressaltar que partimos do princípio de que estamos numa universidade séria e tratando com gente igualmente séria; e que não estaremos sendo mais uma vez enganados, como soe acontecer em cursos semelhantes, quando os participantes são tratados como leigos, que não sabem o significado de “produto químico” e muito menos de “agrotóxico”.

Pois várias vezes temos sido surpreendidos por propostas semelhantes de produzir sem o uso de agrotóxicos e produtos químicos. Entretanto, logo em seguida aparecem com os chamados “defensivos alternativos”, com formulações à base de sais de cobre, manganês, zinco, cobalto e outros metais pesados. Tratam-nos como idiotas, que acreditam que tudo isto não é agrotóxico, nem tampouco produto químico (sic).

Pois tais sais de metais pesados não só são produtos químicos agrotóxicos, como são de alta periculosidade aos seres humanos e demais animais, além de causarem sérios riscos ao ambiente. Só para exemplificar, o problema nos EUA tornou-se tão sério que a agência ambiental deles (a EPA – Environmental Protection Agency) classificou o sulfato de cobre (o mais utilizado na dita agricultura orgânica) como classe toxicológica I, a mais alta.

O sulfato de cobre tem sido por excelência o produto carro-chefe da agricultura orgânica. O chamado “Supermagro”, considerado como “defensivo natural” e “biofertilizante” contém, dentre outros materiais, diversos sais de metais pesados, que são aplicados sobre as plantas, contaminando-as diretamente e que quando chegam ao solo (e sempre acabam por chegar ao solo) podem ser adsorvidos pelas substâncias húmicas do mesmo. Como se pode ver não há qualquer segurança para o consumidor, pois mais do que falta de informações, existe o problema agravante da desinformação.

Segundo seus inventores, o Supermagro trata-se de uma mistura de micronutrientes (sais de zinco, manganês, cobre, ferro, cobalto e outros) “fermentados” em um meio orgânico (esterco de gado, fígado, soro, leite, sangue, melado de cana e restos de peixe), na tentativa de “quelatizá-los” para aplicação nas plantas como adubo foliar. Fossem estes produtos químicos utilizados nas quantidades recomendadas como micronutrientes o problema seria mínimo; mas quando são utilizadas doses centenas de vezes às necessidades das plantas, a situação torna-se bastante preocupante.

Que este referido curso na UERGS nos forneça pelo menos um caminho para ajudar a nos livrar do uso de agrotóxicos e que não seja mais um engodo, como tem acontecido que, ao invés de ajudar, tem sido empecilho, pela desinformação, do desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável.


DILMA E TARSO QUEREM PRIVATIZAR ÁREAS PÚBLICAS NO RS

Luiz Alberto Silveira Mairesse

Engº Agrº, Mestre e Doutor em Agronomia

Pesquisador Aposentado da Fepagro; Professor Universitário; Conselheiro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia-CIB-SP; Presidente do Movimento pela Ciência Livre (www.ciencialivre.pro.br)   - São Borja, 02 de fevereiro de 2012.

 

Para não se dizer que não se falou de carnaval, numa época em que a maioria dos brasileiros só pensa na folia, estamos diante de um verdadeiro “Samba do Crioulo Doido”, composição do jornalista Sérgio Porto, sob pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta (1968), que ridicularizava os sambas-enredo das escolas de samba. A expressão do titulo logo serviu para caracterizar o Brasil da incoerência, das coisas sem nexo, das condições absurdas e do surrealismo. Nos dias de hoje, em que desde a suposta extrema esquerda até a dita extrema direita se unem para governar o País, com a indisfarçáveis interesses que não os nossos, como esperar soluções por quem não se preocupa realmente com os problemas brasileiros e por isto desconhece os mesmos? Como entender este enredo doido?

Mas como estamos tratando de Rio Grande do Sul, ao invés do Samba do Crioulo Doido, se compõe o Vanerão do Gaúcho Bunda-mole, uma parceria do Governo do Estado com o Governo Federal. Numa clara demonstração de desconhecimento total de nossas reais necessidades, Tarso e Dilma se unem para privatizar (“O que é isto, companheiro! ’) uma área pública no município de São Borja, que envolve interesses de uma população de centenas de milhares de pessoas, além de dezenas de milhares de produtores rurais; abrangendo uma extensa região, onde praticamente não há pesquisa agrícola, fator negativo mais crucial, que emperra o desenvolvimento desta parte mais pobre do RS.

Pasmem! O isolado centro de pesquisas da Fepagro em São Borja, atualmente com apenas um pesquisador, que também é o diretor do mesmo, está completamente defasado e sucateado, com somente 8 funcionários, destes, 5 com aposentadoria imediata. Hoje a atividade principal é cuidar dos experimentos planejados e montados pela Embrapa de Passo Fundo. Esta que já foi uma das mais importantes estações experimentais do Estado, com mais de 30 funcionários, quando certamente não era por coincidência que São Borja detinha o título de Capital da Produção, hoje está penando em praça pública, como penando está toda essa vasta região já referida acima. E obedecendo a política (tema) do vanerão do gaúcho acovardado, continuamos sucateando nossas instituições estaduais, para depois dizer que não servem para nada e por isto é preciso entregar. (Desafia-se quem conseguir encontrar uma só instituição estadual que não esteja defasada ou sucateada) Pois em lugar de recuperar o Centro da Fepagro em São Borja, de interesse vital para o RS, o Governo do Estado e o Governo Federal resolvem tornar proprietários de mais de 80% da estação experimental (430 ha) 20 agricultores ligados ao MST, inviabilizando definitivamente a pesquisa agrícola e um projeto recente da comunidade da Região, envolvendo a UERGS, UNIPAMPA, Instituto Farroupilha e FEPAGRO. O projeto, além de criar na área campus destas duas universidades e recuperar a FEPAGRO, já iniciou tratativas com universidades argentinas para parcerias em ensino, pesquisa e extensão, integrando efetivamente nossa região ao MERCOSUL. Como então realizar tudo isto, se os pouco mais de 100 ha de terras, que ficariam com a FEPAGRO, estarão ainda mais reduzidos em função do Código Florestal? Um centro de pesquisas necessita dispor no mínimo de 300 ha; e até muito mais, dependendo das necessidades, tipos de pesquisa e características regionais. Assim, nem mesmo a recuperação da FEPAGRO será possível, até porque para isto é também indispensável a integração proposta pela comunidade da Região. Cai então por terra as parcerias com universidades estrangeiras do Mercosul (Pasmem: prioridade do Governo-Tarso, para enlouquecer de vez!), quando nada teremos a oferecer no MERCOSUL senão o exemplo da decadência dos gaúchos do RS, cujas façanhas hoje envergonham nossos ancestrais;  e convidar nossos “hermanos gauchos” para as efemérides dos farrapos, quando então cantaremos na Semana Farroupilha uma outra canção, em substituição a este hino que não estamos sabendo honrar. E quem minimizar a questão, achando que o problema de São Borja é um fato isolado, saiba que o que está por acontecer nesta região, de uma forma ou de outra, é parte de um conjunto de fatos negativos, que estão destruindo nosso Estado desde há mais de 40 anos, por conta de governos que trocaram o pioneirismo e a capacidade empreendedora do gaúcho de outrora, pelo paternalismo e dependência do Governo Federal. Nosso receio é que depois de consumado o absurdo em São Borja, o precedente faça com que o Governo do Estado ressuscite a Lei, ainda em vigor, do tempo do Governo Collares, que destinou 70% da área de cada estação experimental do Estado para “fins de reforma agrária”. Posto inicialmente em prática na época, o projeto demonstrou ser catastrófico e foi paralisado por Collares, para evitar o fim do Departamento de Pesquisa da Secretaria da Agricultura do RS, hoje FEPAGRO. Mas o “ovo da serpente” ainda está lá, a espera de uma chocadeira gaúcha, que se entregou “pros home” de qualquer maneira.

De uns tempos para cá nossas “façanhas” têm servido apenas como péssimo exemplo para os demais estados, quando saímos da condição de Celeiro do Brasil para a categoria de “estado mendigo”, que nada mais anseia do que pedir ajuda do Governo Federal, que na verdade representa os interesses dos estados mais industrializados do País. Como a agropecuária e agroindústria do RS competem no MERCOSUL, interessa ao Governo “Federal” importar dos países vizinhos o que se produz no RS, em troca dos produtos industrializados, principalmente de São Paulo. Por isto há que desestimular nossa pesquisa estadual, para que não atrapalhe o interesse da indústria dos estados politicamente líderes.

E para compor o nosso vanerão colocamos como fundo o “canto-da-sereia” do Governo “Federal”, que ao nos dar o que costumávamos conquistar, nos leva cada vez mais à condição de Corredor do MERCOSUL. Ao enfraquecer e sucatear cada vez mais nossas instituições estaduais, em troca do apoio das instituições federais, cujos interesses não são os nossos, perdemos ano a ano nossa capacidade competitiva.

 A proposta de entregar mais de 80% de um centro de pesquisa, cuja área pertence ao Governo Federal, UFSM (outros quase 20% são do Estado), além de inviabilizar o Plano de Desenvolvimento Regional, liderado pelo projeto Rumos de São Borja, nem mesmo resolve o problema das duas dezenas de trabalhadores sem-terra. Como já se conhecem os resultados de uma reforma agrária que pouco vai além da simples divisão de terras, certamente esses 20 agricultores teriam muito mais chances de crescer, com a implantação do projeto de desenvolvimento econômico e social discutido e elaborado pela comunidade da Região de São Borja.

Infelizmente, mesmo em época de Carnaval, não temos como evitar dizer que nem Samba do Crioulo Doido, nem tampouco o Vanerão do Gaúcho Bunda-mole descrevem esta incrível situação que se delineia com esse projeto Tarso-Dilma, se não conseguirmos reverter esta surrealista proposta de enterrar definitivamente os anseios de uma imensa população. Tudo em troca de uma pseudo-salvação de duas dezenas de agricultores, que além de enfrentar a falta de recursos, não disporão de tecnologia gerada pela pesquisa da Região, para sobreviverem no campo. 

Mas, apesar de tudo, temos que ser otimistas, acreditando que nossos deputados gaúchos ainda não tomaram conhecimento dos fatos relatados, pois, independentemente de posição partidária, o Rio Grande do Sul precisa de nossos representantes, para abortar de vez esta proposta absurda, para que possamos dar andamento aos projetos de recuperação e desenvolvimento de nossa região, abrindo as portas do MERCOSUL, com evidente repercussão para todo o Estado. Afinal, não queremos o nosso Estado partido, mas inteiro, unido.


ESTIAGEM: UM PROBLEMA SECULAR COM SOLUÇÃO SIMPLES.

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
São Borja, 16 de janeiro de 2012


É sempre assim: depois de bilhões de perdas na agropecuária, devido à seca; depois de quase três meses de sofrimento sob sol escaldante, o Sul do Brasil, em especial o Rio Grande do Sul, volta sempre a ter esperanças com a chegada das águas de março, como canta Antônio Carlos Jobim: “É o projeto da casa, é o corpo na cama; É o carro enguiçado, é a lama, é a lama; É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã; É um resto de mato, na luz da manhã; São as águas de março fechando o verão; É a promessa de vida no teu coração.”


E vêm as águas de março, de abril, de maio... Até outubro e novembro o Sul do Brasil vira mar. São nove meses de chuvas incessantes, que levam tudo por diante: casas, pontes, estradas, vidas... São vários períodos de cheias nesses noves meses e as populações ribeirinhas chegam a ser socorridas duas, três, quatro e até mais vezes por ano.


Para exemplificar, são aproximadamente 500 bilhões de m3 de água que caem sobre o Rio Grande do Sul e que escorrem pelos mais de 28 milhões de ha de terras e se infiltram até os lençóis freáticos, alimentando as sangas, os córregos, os rios; e essa água toda acaba chegando ao oceano, na mesma quantidade que chegou às terras do Rio Grande. E se considerarmos a Região Sul, chega-se à casa dos trilhões de m3 de água, que poderiam fazer de nosso verão o período de maior produtividade, com aproveitamento do potencial dos maiores índices de radiação solar do Brasil. E aquilo que era para ser um paraíso, se transforma num verdadeiro inferno, tamanha incapacidade nossa.


Em dezembro o céu fica azul e o sol parece que não vai mais se por; e segue assim quase sempre até fevereiro. E quem estava antes morrendo afogado, agora morre de sede. E os caminhões-pipa das prefeituras vão de casa em casa salvar esta gente, a mesma que foi salva do excesso de chuvas. E até mesmo produtores rurais, que viram suas terras inundadas, recebem com humildade e satisfação a salvação do caminhão-pipa.


Este talvez seja o maior exemplo de ineficiência humana, ao sempre deixar ir embora aquilo que certamente vai precisar noutra volta. Sofrimento por excesso d’água e depois por falta, quando se poderia represar a água que cai, resolvendo os dois problemas ao mesmo tempo. Como diriam os mais antigos, “matando dois coelhos com uma cajadada só”. Neste caso seriam três coelhos: diminuição dos efeitos das inundações; o fim dos efeitos das secas; e a obtenção de recordes de produtividade agrícola.


E não culpemos nossos agricultores. Cheios de dividas e tendo que entregar seus produtos, muitas vezes abaixo do custo, não têm condições de enfrentar financiamentos para adquirir sistemas de irrigação num país com os maiores juros do mundo. Para exemplificar a situação dos nossos produtores rurais, vejamos só um dos muitos absurdos: eles recebem apenas 24 reais por saco de trigo de 60 Kg. Com este saco de trigo se extrai farinha para mais de 1.000 “cacetinhos”, o que dá um valor aproximado de 300 reais. O Governo ainda leva 48 reais em impostos... Este é só um exemplo do que já é uma regra: os agricultores não têm como botar preço nos seus produtos, tornando-se reféns de toda a sociedade. Depois que as cooperativas agrícolas perderam a força ou faliram, a situação piorou bastante para o homem do campo.


Para completar, os produtores ainda enfrentam os problemas burocráticos para construir açudes, criados pelos falsos ambientalistas, que acreditam que o Homem deve ser refém do ambiente, quando, na verdade, o ser humano precisa avançar para controlar o ambiente, de forma responsável, no caminho do desenvolvimento sustentável.


O problema secular das estiagens não é apenas dos produtores rurais, mas de toda a sociedade. Pelo que pagam aos produtores rurais, certamente seriam os outros setores da economia os maiores beneficiários da irrigação das lavouras de verão. Enquanto um espera pelo outro um problema tão simples de resolver continua secularmente trazendo conseqüências sérias e complexas.



ENERGIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 07 de janeiro de 2012

Quando alguém constrói uma casa solicita instalação elétrica à empresa responsável, que antes de realizar a operação pergunta quais os equipamentos elétricos a serem utilizados. De acordo com o que se lista será a carga fornecida, de tal forma que se for ligado à rede doméstica aparelhos além dos relatados, haverá quedas que poderão provocar desligamento geral na residência. Evidentemente que a casa vai ser construída de acordo com as posses do proprietário. Este pode ou não ter pretensões de crescimento, podendo ou não planejar a construção de modo a que possa mais tarde ser ampliada. E por ocasião de qualquer ampliação, o proprietário, se não listou equipamentos a mais do que utilizava, vai ter que ir novamente à fornecedora de energia para solicitar um aumento de carga. Melhor seria ter feito isto na primeira vez, para evitar qualquer transtorno.

Com um país, como o Brasil, a antecedência de disponibilidade de energia é fundamental. Não pode ser da mesma forma que uma residência, quando o novo ajuste pode ser feito conforme as necessidades vão aumentando. No caso do Brasil (e qualquer outro país) esta forma equivocada de produzir energia de acordo com as necessidades do momento, limita a nação a um nível de crescimento baixo e nenhum governo poderá apresentar soluções sustentáveis, que não tenham como base o crescimento máximo possível, em função da energia disponível.

Os brasilianistas de todo o mundo são unânimes em fixar o nosso crescimento máximo possível em torno de 4% ou menos. E isto em função da energia disponível. Esta falta de energia para crescer mais do que 4% ao ano é que determina o valor do salário mínimo, dos demais salários e até mesmo dos níveis de desemprego. Uma diminuição do nível de desemprego acima de um determinado valor pode gerar um colapso energético, comprometendo todo o sistema e, evidentemente, prejudicando ainda mais o próprio crescimento do país. Assim, não é possível melhorar o salário mínimo, nem mesmo os demais salários a níveis que venham a exigir crescimento acima de 4%. Não teríamos energia suficiente para bancar aumento de uso de eletrodomésticos, nem tampouco crescimento do comércio e indústria, além dos níveis limitados pela disponibilidade energética.

Não restam dúvidas que no Governo Lula houve melhorias significativas para categorias de trabalhadores menos favorecidas, mas com potencial insustentável. Para evitar o apagão devido à compra de aparelhos elétricos, houve estimulo, por exemplo, à aquisição de veículos que dependem da energia do petróleo, incrementando o consumo de recursos naturais não renováveis e gerando mais poluição ambiental. Em relação ao grande aumento no número de veículos automotores, houve, além de um maior gasto com combustíveis, um acréscimo de acidentes e conseqüentemente mais gastos em saúde. Aconteceu também um aumento muito grande da necessidade de reformas e conservação de estradas, além da construção de novas vias asfaltadas. Tudo isto à custa de energia não renovável e, portanto, no caminho inverso dos planos de desenvolvimento sustentável. Tudo isto terá um preço muito alto a todos os brasileiros, quando a “conta” começar a chegar e tivermos que pagar em inflação alta, derrubando todas as falsas conquistas obtidas pelas classes mais baixas. Erros sempre vêm à tona, mais cedo ou mais tarde, como os cadáveres dos que morrem afogados.

Há alguns meses atrás, um debate dos jornalistas com um brasilianista francês, numa determinada rede de televisão, esclareceu muito bem porque o Brasil não consegue (não pode) crescer mais do que 4% ao ano, enquanto países como a China e a até mesmo a Índia estão entre 8 e 10% de crescimento anual. Simplesmente porque estes países investiram em energia, construindo principalmente hidrelétricas para necessidades no mínimo para 30 anos à frente. E não pararam os investimentos em energia, agora com mais força para pesquisar e investir em outras energias alternativas como a eólica, a solar (os chineses já desenvolveram tecnologia que barateou os custos em 40%) e até mesmo em energia nuclear, a mais limpa de todas.

Este foi grande erro do Brasil da Nova República: abandonar o único mérito dos tempos da Ditadura Militar, que foi o de construir hidrelétricas, preparando o Brasil para o desenvolvimento. Ao invés disto, a Nova República só copiou os defeitos da Ditadura, acrescentando assistencialismo barato para se manter no poder. Se 30 anos atrás o Brasil estava no mesmo nível da Coréia do Sul, hoje este país figura entre os mais desenvolvidos, com 30 anos à nossa frente. E a explicação começa pela disponibilização de energia bem à frente das necessidades momentâneas.

Durante o debate foi perguntado ao especialista francês se o Brasil resolvesse investir o necessário em energia, quantos anos levaríamos para começar a saltar dos 4% para 8 ou 10% de crescimento anual. A resposta foi uma verdadeira paulada nos nossos sonhos de desenvolvimento: trinta anos, no mínimo!

A situação é mais decepcionante ainda quando se vê projetos dos tempos dos militares no poder ainda em discussão, como o da usina de Belo Monte, projetada em 1975. A verdade é que o Governo Lula lutou por investimentos em energia, seguido agora pelo Governo Dilma, que conhece melhor tais problemas e insiste na construção de usinas hidrelétricas. Entretanto Lula e Dilma até agora sempre foram vencidos pelas ONGs, que conseguem liminares, no mínimo suspeitas, diante de uma situação em que tal usina vem sendo estudada desde 1975 e ainda querem mais estudos, com a nítida intenção de atrasar mais a construção.

Se podemos criticar os últimos governos por não serem mais incisivos na defesa das hidrelétricas, devemos assumir também a culpa pelo desinteresse nos problemas brasileiros, deixando que o maus brasileiros, subsidiados pelo Primeiro Mundo, entravem nosso progresso, até mesmo através de ilicitudes, mentiras e outras formas de “convencimento”. O governo brasileiro necessita da pressão dos brasileiros conscientes de que o desenvolvimento só será possível com energia em sobra. Até agora as pressões são tão somente contra a construção de hidrelétricas, o que enfraquece o governo nesta luta.


Postado em 30 de dezembro de 2011 (artigo abaixo)

TRISTE JUDICIÁRIO

MARCO ANTONIO VILLAO GloboPublicado em 13/12/2011


O Superior Tribunal de Justiça (STJ) é formado por 33 ministros. Foi criado pela Constituição de 1988. Poucos conhecem ou acompanham sua atuação, pois as atenções nacionais estão concentradas no Supremo Tribunal Federal. No site oficial está escrito que é o tribunal da cidadania. Será?
Um simples passeio pelo site permite obter algumas informações preocupantes.
O tribunal tem 160 veículos, dos quais 112 são automóveis e os restantes 48 são vans, furgões e ônibus. É difícil entender as razões de tantos veículos para um simples tribunal. Mais estranho é o número de funcionários. São 2.741 efetivos.Muitos, é inegável. Mas o número total é maior ainda. Os terceirizados representam 1.018. Desta forma, um simples tribunal tem 3.759 funcionários, com a média aproximada de mais de uma centena de trabalhadores por ministro!! Mesmo assim, em um só contrato, sem licitação, foram destinados quase R$2 milhões para serviço de secretariado.
Não é por falta de recursos que os processos demoram tantos anos para serem julgados. Dinheiro sobra. Em 2010, a dotação orçamentária foi de R$940 milhões. O dinheiro foi mal gasto. Só para comunicação e divulgação institucional foram reservados R$11 milhões, para assistência médica a dotação foi de R$47 milhões e mais 45 milhões de auxílio-alimentação. Os funcionários devem viver com muita sede, pois foram destinados para compra de água mineral R$170 mil. E para reformar uma cozinha foram gastos R$114 mil. Em um acesso digno de Oswaldo Cruz, o STJ consumiu R$225 mil em vacinas. À conservação dos jardins — que, presumo, devem estar muito bem conservados — o tribunal reservou para um simples sistema de irrigação a módica quantia de R$286 mil.
Se o passeio pelos gastos do tribunal é aterrador, muito pior é o cenário quando analisamos a folha de pagamento. O STJ fala em transparência, porém não discrimina o nome dos ministros e funcionários e seus salários. Só é possível saber que um ministro ou um funcionário (sem o respectivo nome) recebeu em certo mês um determinado salário bruto. E só. Mesmo assim, vale muito a pena pesquisar as folhas de pagamento, mesmo que nem todas, deste ano, estejam disponibilizadas. A média salarial é muito alta. Entre centenas de funcionários efetivos é muito difícil encontrar algum que ganhe menos de 5 mil reais.Mas o que chama principalmente a atenção, além dos salários, são os ganhos eventuais, denominação que o tribunal dá para o abono, indenização e antecipação das férias, a antecipação e a gratificação natalinas, pagamentos retroativos e serviço extraordinário e substituição. Ganhos rendosos. Em março deste ano um ministro recebeu, neste item, 169 mil reais. Infelizmente há outros dois que receberam quase que o triplo: um, R$404 mil; e outro, R$435 mil. Este último, somando o salário e as vantagens pessoais, auferiu quase meio milhão de reais em apenas um mês! Os outros dois foram “menos aquinhoados”, um ficou com R$197 mil e o segundo, com 432 mil. A situação foi muito mais grave em setembro. Neste mês, seis ministros receberam salários astronômicos: variando de R$190 mil a R$228 mil.Os funcionários (assim como os ministros) acrescem ao salário (designado, estranhamente, como “remuneração paradigma”) também as “vantagens eventuais”, além das vantagens pessoais e outros auxílios (sem esquecer as diárias). Assim, não é incomum um funcionário receber R$21 mil, como foi o caso do assessor-chefe CJ-3, do ministro 19, os R$25,8 mil do assessor-chefe CJ-3 do ministro 22, ou, ainda, em setembro, o assessor chefe CJ-3 do do desembargador 1 recebeu R$39 mil (seria cômico se não fosse trágico: até parece identificação do seriado “Agente 86”).
Em meio a estes privilégios, o STJ deu outros péssimos exemplos. Em 2010, um ministro, Paulo Medina, foi acusado de vender sentenças judiciais. Foi condenado pelo CNJ. Imaginou-se que seria preso por ter violado a lei sob a proteção do Estado, o que é ignóbil. Não, nada disso. A pena foi a aposentadoria compulsória. Passou a receber R$25 mil. E que pode ser extensiva à viúva como pensão. Em outubro do mesmo ano, o presidente do STJ, Ari Pargendler, foi denunciado pelo estudante Marco Paulo dos Santos. O estudante, estagiário no STJ, estava numa fila de um caixa eletrônico da agência do Banco do Brasil existente naquele tribunal. Na frente dele estava o presidente do STJ. Pargendler, aos gritos, exigiu que o rapaz ficasse distante dele, quando já estava aguardando, como todos os outros clientes, na fila regulamentar. O presidente daquela Corte avançou em direção ao estudante, arrancou o seu crachá e gritou: “Sou presidente do STJ e você está demitido. Isso aqui acabou para você.” E cumpriu a ameaça. O estudante, que dependia do estágio — recebia R$750 —, foi sumariamente demitido.Certamente o STJ vai argumentar que todos os gastos e privilégios são legais. E devem ser. Mas são imorais, dignos de uma república bufa. Os ministros deveriam ter vergonha de receber 30, 50 ou até 480 mil reais por mês. Na verdade devem achar que é uma intromissão indevida examinar seus gastos. Muitos, inclusive, podem até usar o seu poder legal para coagir os críticos. Triste Judiciário. Depois de tanta luta para o estabelecimento do estado de direito, acabou confundindo independência com a gastança irresponsável de recursos públicos, e autonomia com prepotência. Deixou de lado a razão da sua existência: fazer justiça.MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos (SP).


A USINA BELOMONTE E A AUTONOMIA BRASILEIRA

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 20 de dezembro de 2012

 Em 1994, na Holanda, os principais países do Primeiro Mundo reuniram-se para refazer e atualizar acordo já existente de longa data:  impedir, de todas as formas, que o Terceiro Mundo desenvolva tecnologias, ditas estratégicas, que venham lhes dar capacidade competitiva. Podem usar, mas jamais desenvolver tecnologias. Este programa acabou por ser conhecido como a Política do Apartheid  Tecnológico.   

 No Brasil já tinham conseguido impedir o desenvolvimento de um programa nuclear consistente, de forma que nossos físicos, em sua imensa maioria, se dedicam hoje exclusivamente ao magistério. Com isto, pagamos rios de dinheiro pelos produtos gerados pela tecnologia do átomo, inclusive na área da saúde. E como sempre são os pobres que pagam a conta do entreguismo de traidores brasileiros.

 Com a informática conseguiram “convencer” os brasileiros de que esta tecnologia causaria um desemprego enorme. Atrasamos então nossas pesquisas e mais uma vez ficamos dependentes dos países ricos. Hoje sabemos dos milhões de empregos que a informática gera no Brasil. Imaginemos se fôssemos geradores de tecnologia nesta área!

 Mais recentemente veio a campanha contra a biotecnologia e os transgênicos. Mais organizados desde 1994, os países centrais financiaram campanhas através de ONGs ambientalistas internacionais como o Greenpeace, a WWF e a ActionAid, que repassam dinheiro para as similares nacionais, que se organizaram na “Campanha Por Um Brasil Livre dos Transgênicos”.  Foi neste ponto que finalmente o Brasil e outros países começaram a dar um basta ao neocolonialismo e ao entreguismo de traidores brasileiros. 

Podemos ter divergências em relação aos Governos Lula e Dilma, o que é normal, mas não seria justo deixar de creditar a ambos o “basta”, que realmente foi o marco para a tão sonhada luta pela autonomia brasileira. Ela, Dilma como ministra de Lula, certamente foi e agora como presidente está sendo, a grande timoneira deste barco que não aceita mais ser rebocado. 

 O próprio partido dos trabalhadores era contra a biotecnologia e os transgênicos, mas Lula, com sabedoria, soube ouvir os cientistas brasileiros e colocou nosso país na primeira linha de pesquisa no mundo, apesar recursos ainda insuficientes. As ONGs internacionais e nacionais ficaram então sem “missão” e passaram a servir de “marketing verde” para empresas poluidoras, inclusive petrolíferas. A WWF foi mais longe: passou a defender os transgênicos como importante instrumento do desenvolvimento sustentável. 

 Tão logo perderam a mamata, ambientalistas de diversas ONGs conseguiram outra “boca”: a luta contra as hidroelétricas brasileiras, tendo como modelo principal o ataque ao projeto da Usina de Belo Monte e, como sempre, na base da mentira e da fantasia. Mais uma vez o Governo Lula e agora o Governo Dilma não se deixaram levar pelo colonialismo e pelo entreguismo da ultra falsa esquerda ambientalista. O Primeiro Mundo está arrepiado de medo, quando soube que a Belo Monte é uma dentre muitas usinas que se quer construir, porque isto significará a posse definitiva da Região Amazônica pelos brasileiros e um perigo para o Projeto de Internacionalização da Amazônia, que é o principal objetivo no Brasil do Programa do Apartheid Tecnológico. 

 Então irrigam com dinheiro a imaginação fértil de fanáticos e entreguistas, os primeiros, leigos e ignorantes na questão e os últimos, os verdadeiros beneficiários do atraso do Brasil. Atores da Rede Globo tornam-se marionetes nas mãos de José Roberto Marinho, que além de dono desta rede é o presidente da ActionAid do Brasil, cujo patrono internacional é o Príncipe Charles, a serviço do Reino Unido, parceiro do programa do apartheid. E então os coitados, na verdadeira acepção da palavra, decoram textos mentirosos, com  cara-de-pau que um bom ator sempre consegue. Tentam assustar a população com comparações da área inundada do projeto da Belo Monte de 516 km2, como se isto fosse uma catástrofe, quando na verdade a área verdadeiramente inundada é a metade, já que o restante já está sob inundação natural (carga do próprio rio).  Por que não dizem também que um ano de queimada na Amazônia significa a perda de mais de 7.000 km2 de florestas;  ou seja a inundação devido à usina significa apenas 3,6% do que se queima de florestas na Amazônia somente num ano?! E que a área real inundada corresponde a apenas 0,0046% da Amazônia e que se construirmos as 20 usinas chegaremos ainda a apenas 0.092% desta área.

 Vejamos bem então: 20 usinas nos moldes da Belo Monte (terceira do Mundo) corresponderiam a apenas 0,092% de área realmente inundada da Amazônia, quando as queimadas (7.000 km/ano) correspondem à supressão de 0,130% de matas por ano (!!!). Ou seja, em apenas um ano se devasta com as queimadas 41% mais do que 20 usinas Belo Monte inundariam para gerar energia para o desenvolvimento sustentável da Amazônia pelos brasileiros.  A existência das usinas não só significaria a posse definitiva da Amazônia pelo Brasil, mas também o fim das queimadas e o desenvolvimento sustentável da região pelos brasileiros. Além de frear a biopirataria, o contrabando de ouro e pedras preciosas; e a corrupção orquestrada por ONGs nacionais e estrangeiras travestidas de ambientalistas.

 Brasileiros, pensemos: pior do que as queimadas na Amazônia tem sido a queimada da massa cinzenta cerebral de alguns brasileiros alienados, massas de manobra dos grandes grupos internacionais e dos maus brasileiros entreguistas, seus capangas.



JC e-mail 4380, de 08 de Novembro de 2011.

10. Quem ainda quer ser professor?

Artigo de João Valdir Alves de Souza publicado no Boletim UFMG.

Há fortes evidências, nos dias atuais, de que a profissão docente vive uma crise sem precedentes na história do nosso ensino. A despeito da grande diversidade de condições da oferta e demanda por escolarização, tanto no que se refere à condição docente quanto à condição discente, produto da diferenciação sociocultural e das desigualdades socioeconômicas, essa crise atravessa a estrutura da escola de alto a baixo.

Ela combina ingredientes de natureza muito diversa, mas o elemento-chave da sua explicação é o baixo valor do diploma de professor, sobretudo na educação básica, tanto no mercado de bens econômicos (salário) quanto no mercado de bens simbólicos (prestígio). Esse baixo valor do diploma expressa um terrível paradoxo: quanto mais expandimos a oferta do ensino, maior se revela nossa dificuldade de formar professores para atendê-la.

Estamos pagando o preço caro de uma conquista. Desde o século 18, na Europa, e pelo menos desde o final do século 19, no Brasil, reivindica-se educação como direito do cidadão e dever do Estado. Pois bem, todos - ou quase todos - vieram para a escola. Vieram os camponeses, os das periferias urbanas, os indígenas, os deficientes físicos e, inclusive, os que não querem saber de escola. Vieram por direito, resultado de lutas históricas pela sua inclusão nos sistemas de ensino. Mas, como não há milagres em matéria de educação e ensino, isso também exigiria formar em quantidade e qualidade os professores que dariam conta dessa tarefa em condições que obedecessem a patamares mínimos de decência.

O Brasil universalizou recentemente o ensino fundamental e trabalha arduamente para universalizar, até 2016, a educação infantil e o ensino médio, cujo atendimento está na casa de míseros 50%. Não bastasse a escassez de professores para a demanda atual, que o MEC já contabiliza na casa dos 250 mil, sobretudo para o ensino das ciências, universalizar a educação básica implica a necessidade de formar mais e bem os professores para realizar a tarefa. Essa legítima proposta do Plano Nacional de Educação esbarra, contudo, em problemas cuja gravidade nos deixa poucas expectativas para sua realização.

Um desses problemas é a baixa atratividade da carreira docente, com recrutamento dos estudantes dos cursos de licenciatura justamente entre aqueles de escolarização básica mais precária. Indicador preocupante dessa baixa atratividade está expresso na relação candidato/vaga dos últimos 13 vestibulares da UFMG (2000-2012), o que parece estar longe de ser uma situação exclusiva desta Universidade. Em 2000, dos 17 cursos mais concorridos, seis formavam professores. Para o vestibular 2012, não há um único curso de licenciatura entre os 15 mais concorridos.

Mantida a atual tendência, em três ou cinco anos não teremos candidatos aos cursos de licenciatura. Cursos como Ciências Biológicas, Educação Física, Geografia, História, Letras, Matemática e Pedagogia, que eram disputados numa correlação de 12 a 30 candidatos por vaga, há dez anos, para 2012 contarão, respectivamente, com 3,5; 2,1; 1,6; 4,8; 1,4; 2,9 e 3,0 candidatos para cada vaga. Mesmo considerando que houve aumento do número de vagas em alguns deles, redução da concorrência em outros cursos que não os de licenciatura e que caiu de 18 para 9 a média geral da relação candidato/vaga na universidade, a generalizada queda da concorrência nos cursos de licenciatura é forte evidência de que há pouco interesse pela docência atualmente.

Mas isso é apenas parte do problema. Um segundo elemento a ser considerado é o elevado índice de desistência da profissão. Grande número dos que se formam professores não terão as salas de aula como destino ocupacional. A universidade fez elevado investimento, nas duas últimas décadas, criando cursos exclusivamente de licenciatura, em que a escolha precede o vestibular. Grande parte dos alunos desses cursos diz explicitamente que a sala de aula não é a sua opção. E um dos motivos mais apontados é a informação sobre o elevado índice de abandono da profissão, isto é, professores experientes que se afastam por adoecimento ou por não suportarem mais ser vítimas de violência física e/ou simbólica no cotidiano da sala de aula.

Internamente, a Universidade tem enfrentado o problema com ações como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), que concede bolsas de estudos e um trabalho de formação diferenciada para alunos dos cursos de licenciatura. Contudo, se não forem modificadas as condições gerais da docência, para fazer dela uma carreira atraente, simplesmente não teremos professores para atuarem na universalização da educação básica.

João Valdir Alves de Souza é professor de Sociologia da Educação na FeE/UFMG, coordenador do Colegiado Especial de Licenciatura e do Grupo de Pesquisa sobre Formação de Professores e Condição Docente.


01/11/2011

‘À moda stalinista’, um artigo de Roberto Pompeu de Toledo

PUBLICADO NA VEJA 

 
A imagem do poeta Carlos Drummond de Andrade foi utilizada no programa de propaganda obrigatória do PCdoB

Roberto Pompeu de Toledo

Pouco antes de jogar a toalha, na semana passada, e entregar a cabeça do ministro do Esporte, Orlando Silva, o PCdoB tentou reinventar seu passado. No programa de propaganda obrigatória que foi ao ar no dia 20, apresentou como emblemas do partido Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Jorge Amado, Portinari, Patrícia Galvão (a Pagu), Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Era uma fraude similar às operações do programa Segundo Tempo. Dos sete, os seis primeiros pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o arquirrival do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O sétimo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não foi nem de um nem de outro. O partido tentava, num programa de TV em que jogava as últimas fichas para safar-se do escândalo no Ministério do Esporte, pegar carona num casal de ícones da história brasileira (Prestes e Olga) e em algumas das mais queridas figuras da cultura do país.

O caso menos grave é o de Oscar Niemeyer, o único vivo do grupo. Apesar de ter sido militante do PCB, já apareceu em programas anteriores do PCdoB, do qual aceita as homenagens. O mais grave é o de Prestes. O PCdoB surge, em 1962, do grupo que, no interior do PCB, discordou da denúncia do stalinismo promovida na União Soviética após a morte do ditador. O PCdoB, com um curioso “do” no meio da sigla, será daí em diante o guardião da pureza stalinista. Os outros são a “camarilha de renegados”. E o renegado-mor, claro, é Prestes, o líder do PCB. No verbete “PCdoB” da Wikipédia, escrito num tão característico comunistês que não deixa dúvida quanto à sua procedência oficial, Prestes é tratado de “revisionista” (insulto grave, em comunistês) e acusado de ter “usurpado a direção partidária”. Também se diz ali que “abandonado à própria sorte, em idade avançada”, Prestes “dependerá de amigos como Oscar Niemeyer para sobreviver”. Eis colocadas na mesma cloaca da história (o comunistês é contagiante) duas figuras que agora o PCdoB alça ao altar de seus santos.

Entre os outros casos de usurpação biográfica, a alemã Olga, primeira mulher de Prestes, foi fiel soldado das ordens de Moscou. Morreu muito antes de surgir o desafio do PCdoB, mas é de apostar que essa não seria a sua opção. Portinari e Pagu morreram, no mesmo 1962 do cisma comunista, ele fiel à linha de Moscou, ela convertida ao trotskismo, portanto inimiga do stalinismo. Jorge Amado na década de 60 já tinha o entusiasmo mais despertado pelo cheiro de cravo e pela cor de canela do que pela causa do proletariado. Em todo caso, sua turma era a de Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” que cantara num livro com esse título.

O caso mais estapafúrdio é o de Drummond. Nos anos 1930/1940 ele praticou uma poesia de cunho social e filocomunista. Chegou a colaborar com o jornal Tribuna Popular, do PCB. Mas nunca se filiou ao partido. Cultivou a virtude de nunca ser firme ideologicamente. O namoro com o comunismo, dividia-o com a fidelidade ao Estado Novo, ao qual serviu no Ministério da Educação. No pós-guerra, mitigava o comunismo com a sedução pela UDN do amigo e mentor Milton Campos. Em 1945 votou para senador em Luís Carlos Prestes, do PCB, e para presidente em Eduardo Gomes, da UDN. E, em 1964, apoiou o golpe militar. “A minha primeira impressão foi de alívio, de desafogo, porque reinava realmente, no Rio, um ambiente de desordem, de bagunça, greves gerais, insultos escritos nas paredes contra tudo. Havia uma indisciplina que afetava a segurança, a vida das pessoas”, explicou numa entrevista, transcrita em livro recente (Carlos Drummond de Andrade Coleção Encontros). Agora vem o PCdoB dizer que Drummond foi um dos seus!?

Desconcertante história, a desse partido. A defesa do stalinismo levou-o a festejar o grande timoneiro Mao Tsé-tung e, quando o timão do chinês emperrou, buscar inspiração na Albânia do “Supremo Camarada” Enver Hoxha. Arriscou uma aventura guerrilheira nos barrancos do Araguaia. E, em anos recentes, encantou-se pela UNE e pelo monopólio da carteirinha de estudante, declarou ao esporte um amor insuspeitado em quem associava o partido à figura franzina do patrono João Amazonas (1912-2002) e recrutou, para reforço de suas chapas, jogadores de futebol (Ademir da Guia, Muller) e cantores (Netinho de Paula, Martinho da Vila) em quem nunca se suporia inclinação pela causa da foice e do martelo. Se há uma coisa em que manteve a coerência, é no vezo stalinista. Stalin mandava cortar das fotos dirigentes do partido caídos em desgraça. O PCdoB inclui em suas fileiras gente que lhe foi alheia. Pelo avesso, chega ao mesmo fim de falsificar a história.


Envie seu artigo para ser publicado para mairesse@terra.com.br, até domingo à noite.
Mairesse

ENSINO BRASILEIRO: BOTANDO O DEDO NA FERIDA...
São Borja, 15 de outubro de 2011.
Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

Os brasileiros deveriam, no mínimo, se envergonhar do fato de que na América Latina estamos à frente apenas do Haiti e Honduras, em termos de qualidade de ensino. Se lembrarmos que a AL, onde o Brasil está em antepenúltimo lugar, só está à frente da África, não há como não classificar a situação brasileira como catastrófica.

Diversas proposições têm surgido, dentre elas o aumento da carga horária no ensino básico. Que realmente ela é muito baixa não resta dúvida, mas há um fato extremamente agravante, que parece que todos fazem questão em ignorar; e então surgem propostas que servem apenas para adiar as soluções, quando estas começam simplesmente por fazer cumprir a Lei.

Há alguns anos atrás levantamos na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) um problema: estaríamos formando profissionais com carga horária inferior a que consta nos projetos pedagógicos, simplesmente porque a hora/aula do professor é de 50 minutos, mas a do aluno é de 60 minutos. Foi feita então uma correção na UERGS e todas as disciplinas passaram a ter 20% a mais de horas/aula professor. E nas demais instituições, como é que fica?

No ensino básico a situação é bem pior. Se deveríamos ter 960 horas/aula professor para chegarmos às 800 horas/aula aluno, o problema se agrava quando se sabe que nem mesmo esta carga horária atual é cumprida. Em geral o professor não consegue começar a aula antes de 10 minutos após o toque da sineta. São 20% perdidos. Só até aqui são 40% (20 minutos) a menos. Quando os professores têm reuniões, os alunos não têm aulas, mas tais períodos são computados como efetivos (!) e isto é mais do que irregular: é ilegal! As faltas dos professores geralmente não são recuperadas e depois das greves, muito comuns no ensino brasileiro, se fazem as recuperações “frias”, como é do conhecimento de todos os brasileiros. “Aulas” aos sábados, com joguinhos e filmes, com 10% dos alunos, mas a presença no papel garantida para todos. Tudo isto serve para tentar compensar não só os baixos salários, como também a carga horária excessiva exigida dos professores, que no RS é de 32 horas/aula para um contrato de 40 horas semanais.

Como isto tudo é do conhecimento de todos os brasileiros, não deve ser segredo para o Ministério Público (MP) e Poder Judiciário (PJ). Então por que nada fazem a respeito?

Mas as irregularidades não param por aqui. Se os salários dos professores é uma das causas da falência do ensino brasileiro, são inúmeros os outros fatores, que nos levam a ser um dos piores países em Educação. A isonomia salarial, que consta no Constituição Federal, o PJ deu um jeito de interpretar ao seu bel prazer, retirando na prática este direito. Tão logo se estabeleceram leis de divisão dos orçamentos públicos, o Poder Legislativo (PL), PJ e MP exigiram e conseguiram as suas fatias legais, mas permitiram que até hoje os 35% destinados em Lei para a Educação não fossem cumpridos.

E vem novamente a pergunta que não quer calar: Se o PL, MP e PJ sabem disto tudo porque não tomam nenhuma atitude?

A resposta está escancarada, demonstrando o quanto o brasileiro é atrasado, quando não exige nem mesmo o direito à Educação. E qual é esta resposta?

Ora, o cumprimento das leis no sistema de educação brasileiro levaria os professores a se acordarem do “estado-zumbi” em que se encontram. Como a fonte de recursos é a mesma que paga os salários de marajás que cuidam da Lei, estes sofreriam fortes pressões da população, cuja maioria não sabe que enquanto professores, inclusive com maior escolaridade do que juízes com apenas graduação em Direito, recebem pouco mais de mil reais mensais, estes magistrados chegam a levar mais de 30 mil reais por mês. E não são apenas eles: deputados, promotores públicos, auditores fiscais, agentes dos tribunais de contas também ganham salários de Primeiro Mundo para nos fornecerem serviços de Quarto Mundo.

E resta apenas mais uma pergunta, que também não quer calar: Até quando?!


O feijão transgênico da Embrapa é seguro

AUTORIA

Francisco G. Nóbrega e Maria Lucia Zaidan Dagli
Professores da Universidade de São Paulo (USP)


http://www.agrosoft.org.br/agropag/219473.htm

Publicado em 06/10/2011 na seção artigos

Um dos temas importantes da oposição às plantas geneticamente modificadas (PGMs) é a questão da pureza genética. Genes de um organismo não poderiam atuar em outros, algo que não seria "natural". Desconhece-se ou ignora-se propositalmente a crescente literatura que mostra a transferência horizontal de genes entre bactérias, fungos, vermes, plantas e mesmo entre humanos e bactérias e até DNA de Trypanosoma passando para células do coração humano. Um gene de peixe transfere ao organismo receptor apenas sua função catalítica ou estrutural definida e não a característica "peixe".

A União Européia (UE) acabou de autorizar o uso de uma proteína de peixe de águas geladas, produzida em bactéria, para uso em sorvetes de baixo conteúdo calórico. A rápida aprovação causou estranheza aos opositores. A explicação foi a inexistência de produto análogo na UE, demonstrando como existe boa articulação entre  os ativistas e os interesses de empresas européias. Não há problema de segurança, como o próprio órgão europeu encarregado da liberação tem declarado repetidamente. Idem para as grandes academias científicas americanas e européias. Será que ativistas de ONGs ou cientistas de universidade a elas ligados, sabem mais sobre a segurança das PGMs?

Só hipóteses conspiratórias sustentam os argumentos dos opositores. Essas hipóteses continuam fascinando pessoas: a ida à Lua foi fabricada em Hollywood, o ataque de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova Iorque foi orquestrada pelo governo Bush, assim como outras teorias esdrúxulas que contam com sociedades ativas e se dedicam à extraterrestres, teoria da terra plana, fusão nuclear à frio, nazismo e teorias de supremacia racial.

Há um tipo de ambientalismo equivocado e romântico-regressivo que reforça o mito da agricultura "natural" (é fácil demonstrar que as plantas que nos alimentam foram geneticamente selecionadas e modificadas extensamente ao longo de milênios, incluindo o presente) e cria um tabu: é um crime contra a ordem natural do universo mover genes de um organismo para outro. Os tabus, como sabemos, são instrumentos de dominação sacerdotal comuns em sociedades primitivas. Creio que devemos ser tolerantes para com as crenças e tabus alheios. O que não podemos admitir é que esses tabus sejam impostos aos não crentes e venham causar danos e sofrimento aos demais.

No seio deste mito, o gene transferido não apenas leva uma característica "impura" ou "anormal" que "contamina" o puro genoma original (notem a semelhança com as noções de pureza racial do nazismo) como transfere alguma característica sobrenatural ("spooky") que degrada e torna "perigosa" a planta modificada. Uma metafísica que os "cientistas" opositores tentam materializar fazendo malabarismos com noções da biologia moderna que tiram do contexto ou corrompem, e que parecem convincentes ao leigo, incluindo grande número de jornalistas engajados no ambientalismo fundamentalista.

A quantidade de testes que a oposição exige para qualquer transgênico, por exemplo, o feijão resistente à vírus da Embrapa, revela essas raízes metafísicas: no campo onde cultiva-se este feijão devemos analisar as bactérias do solo, os fungos da micorriza, pequenos artrópodes e insetos, etc. Devemos alimentar múltiplas espécies de animais, por várias gerações, buscando efeitos adversos. Também devemos realizar esses testes com fêmeas em gestação, pois o nosso feijão "pode" ser teratogênico. A dúvida persistirá para os opositores quanto à alimentação humana, já que não somos exatamente idênticos a ratos, cães ou porcos. Talvez venham a sugerir um teste com humanos antes da liberação como fazemos na fase I da aprovação de medicamentos, usando voluntários sadios.

Vamos examinar objetivamente o que dispara essa imensa sequência de testes em nome do sagrado "princípio da precaução": este feijão não foi mutagenizado por cobalto radioativo ou etilmetanosulfonato, agentes que criariam dezenas ou centenas de mutações desconhecidas. Ele recebeu um pedaço de DNA preparado sinteticamente que dirige a expressão de um RNA que se dobra sobre si mesmo formando um "grampo de cabelo". Este RNA é, em parte, homólogo ao RNA viral que promove a tradução de uma proteína essencial para que o vírus do mosaico dourado infecte as células do feijoeiro. Um mecanismo elucidado nas últimas décadas, e que resultou em prêmio Nobel, denominado interferência de RNA, explica porque este RNA fita dupla funciona. Neste caso o feijão Embrapa não expressa uma nova proteína, apenas um RNA específico para desencadear o bloqueio da infecção viral. A modificação foi específica, cirúrgica e conhecida.

Também é uma solução biológica e orgânica, portanto "verde", para o problema da virose, em linha com os sonhos distantes de Rachel Carson, em sua cruzada contra os defensivos químicos. Ademais múltiplos testes foram realizados para certificar se a transformação genética, que sempre aumenta a taxa natural de mutações, não gerou alguma alteração que pudesse gerar preocupações. Não existindo proteínas expressas, portanto, argumentos como "alergenicidade", ou "toxicidade" caem por terra. Uma pessoa bem informada, e isenta, imediatamente constata a enorme futilidade e o imenso desperdício de tempo e dinheiro nos estudos recomendados. Logicamente, se o que foi feito no feijão realmente exigisse tais estudos, estaríamos condenando toda a agricultura mundial não-transgênica como completamente suspeita e deveríamos exigir imediatamente que esses testes sejam iniciados pelo menos nas muitas variedades de arroz, milho, trigo, cevada, café, etc. que consumimos de maneira particularmente abundante.

Parte da oposição é compreensível devido à desconfiança com as poderosas multinacionais que dominam o mercado atual. A Monsanto, como explica o pesquisador H. Miller, usou seus lobistas para convencer o governo a criar as conhecidas exigências excessivas e desnecessárias para tornar o processo de acreditação inacessível aos concorrentes. Universidades, instituições públicas e empreendedores menores ficam praticamente excluídos. As plantas transgênicas que podem beneficiar populações pobres, de pouco valor comercial, não serão prioridades para as gigantes da biotecnologia. O caminho é desregular fortemente como recomendou na Nature o professor Ingo Potrykus, que lidera o trabalho que gerou o arroz dourado, contendo provitamina A, que pode eliminar dezenas de milhares de casos de cegueira entre populações pobres que se alimentam principalmente de arroz.

Portanto podem crer: se não ficaram doentes com os alimentos convencionais até hoje consumidos, melhorados frequentemente por mutagênese pesada, e cultivados com pesticidas e fertilizantes, se, em média, estamos ganhando 5 a 6 horas de vida por dia devido à múltiplos fatores ligados à educação, ciência e tecnologia, consumam alegremente e com orgulho o feijão com "tesão" da Embrapa, o símbolo nazista-alimentar que transformaremos, espero, em motivo de satisfação nacional. Como benefício extra, saibam que este feijão receberá menos ou nenhum inseticida, o único recurso existente para reduzir a infestação com a mosca branca, que transmite o vírus. Bom apetite!



NE: Artigo de Francisco G. Nóbrega e Maria Lucia Zaidan Dagli enviado ao Jornal da Ciência pelos autores.

Links referenciados

Universidade de São Paulo
www.usp.br

Maria Lucia Zaidan Dagli
lattes.cnpq.br/4595099016205760

Francisco G. Nóbrega
lattes.cnpq.br/7037629618209327

Jornal da Ciência
www.jornaldaciencia.org.br

Embrapa
www.embrapa.br

Nature
www.nature.com



Brasil: O que fazer?

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

24 de setembro de 2011

 
Se os brasileiros se dessem conta do caos em que estamos vivendo e das perspectivas nada animadoras, certamente estouraria no país um grande conflito. Somente o que acontece nos corredores do SUS já seria motivo para tal, mas a população mais pobre se deixa levar pelos pouco mais de 100 reais do Bolsa-família, enquanto seus familiares morrem nos corredores de hospitais por falta de atendimento. E a culpa sempre toca para Deus.

No ensino a situação é também catastrófica, quando a escola não consegue mais ensinar o mínimo necessário, em prédios caindo aos pedaços, sem equipamentos e com professores com salários ridículos.

Mas há quem diga que o país está melhorando, baseados em comparações com o próprio Brasil. Ora, as melhorias que têm ocorrido em alguns setores e algumas áreas, não são mais do que resultados dos avanços científicos e tecnológicos no mundo, que nada têm a ver com as políticas dos últimos governos, onde a corrupção foi a única coisa que proporcionalmente aumentou. Há 30 anos o Brasil estava em nível de desenvolvimento similar ao da Coréia do Sul. Hoje a Coréia do Sul está 30 anos à nossa frente...

Se não bastasse nossa falta de competitividade e a corrupção, que consome a metade do que se produz, no serviço público a situação chega a ser surreal. Enquanto a educação e a saúde vivem uma situação vergonhosa, algumas categorias de funcionários públicos parecem viver em outro país.

Numa desproporcionalidade escandalosa como a desigualdade que existe neste País, o minúsculo Poder Judiciário (PJ), dezenas de vezes menor que o Executivo, a pretexto da autonomia entre poderes, paga aos seus funcionários salários de Primeiro Mundo. Para o mesmo nível de escolaridade funcionários do Poder Judiciário (PJ) chegam a receber quase 20 vezes mais que os servidores do Executivo! E uma descoberta: o pessoal do Poder Judiciário, além de auxílio moradia de mais de 3.000 reais mensais, tem até “Auxílio-creche”! Os servidores do executivo, tratados como trabalhadores de segunda classe, descobrem que também suas crianças são discriminadas e sem os mesmos direitos de outras, mesmo que o “patrão” de seus pais seja o mesmo. E o PJ se julga no direito de construir prédios desnecessários, diante da realidade atual, gastando, por exemplo, no RS, de janeiro a agosto de 2007, oito vezes mais (16 milhões) que o Executivo (dois milhões) em obras e 72 vezes mais (4 milhões!) que o Poder Executivo (55 mil!) em instalações e equipamentos. A única informação que se conseguiu foi do ano de 2007, do jornal “Estadão” (a RBS se calou). Dados mais recentes são quase impossíveis de se conseguir, pois “eles” escondem como podem. O que se sabe é que a gastança continua...

E quando os membros do PJ se sentem ameaçados em seus privilégios, entram na Justiça. A Justiça entra na Justiça! E sempre ganha, alegando que a lei deve ser cumprida. Mas quando um funcionário “de segunda classe” pede justiça, quando ganha, vai para a fila dos precatórios e nunca recebe. Sabem o que acontece quando a Justiça entra na Justiça? Neste caso a eficiência é de Primeiro Mundo. Nem precisa perguntar se recebem logo os valores que têm direito, quando ganham uma causa... Há também aquelas categorias estrategicamente privilegiadas do próprio Executivo, que se encarregam de retirar tudo que podem dos demais funcionários.

Mas o pior de tudo está para acontecer, quando as conseqüências do que ocorre atualmente com a Justiça neste país vierem à tona.

Hoje nossos magistrados, provavelmente, se dividem em três categorias: uma minoria, que dá para contar nos dedos, de juízes que condenam os chefes do crime organizado, mas que têm que dormir em colchonetes no Fórum, enquanto suas famílias têm que morar noutro estado ou mesmo noutro país para não ser trucidada pelos bandidos;; outro grupo, que não se pode contar nos dedos, estão ligados ao próprio crime. E o que sobra para a grande maioria honesta? Qualquer um de nós tem a família como prioridade e se fosse juiz certamente se obrigaria a fazer vistas grossas ou adiar processos, diante de ameaças à família pelo crime organizado.

E sobra então apenas uma pergunta: O que fazer?

INIQÜIDADES CADA VEZ TRIUNFAM MAIS

São Borja, 20 de julho de 2011

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

O Brasil sofre de um terrível mal, que o faz enveredar por caminhos cada vez mais perigosos. De um mal que tem origem num dos piores sistemas de ensino do mundo, que nos coloca na América Latina à frente apenas do Haiti e de Honduras. E onde a educação é esquecida, a saúde também se torna um caos, pela incapacidade do povo por lutar por seus direitos mais básicos. Um povo sem educação não é capaz de ser radical, de perceber as origens de seus males e acaba lutando por superficialidades.

Aos preconceitos contra as mulheres, os indígenas, os de pele mais escura, os homossexuais e outros, se fazem passeatas para exigir cotas e leis de proteção, sem buscar as origens dos problemas.

A Educação levaria conhecimentos científicos para entender as causas do homossexualismo; para mostrar quem são os indígenas; e que racismo é produto da ignorância, o que a ciência já demonstrou, decodificando o genoma humano e provando que não existe raças humanas.

Imaginemos se os milhões de participantes da última “parada gay” e pela descriminalização da maconha, ao invés de superficialidades, lutassem aos milhões por Educação, que é o verdadeiro caminho para combater preconceitos e para lutar por justiça social. Por que não há passeatas contra a corrupção? Contra o colapso na saúde? Contra a violência? Impunidade? E tantas outras coisas que nos colocam entre os piores países do mundo?

Os donos do poder se divertem ao ver o povo lutar contra conseqüências, esquecendo-se das causas. Ao invés de ir às raízes do problema, o povo briga por analgésicos que acabam sempre por evitar as dores de cabeça dos usurpadores do poder. Naquele seu famoso discurso, em 1914, Rui Barbosa admitiu cansaço da luta: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. As iniqüidades têm como causa o próprio povo que elege prioridades e políticos iníquos, que por sua vez constroem sociedades iníquas, que geram necessidades iníquas, que acabam fechando o círculo vicioso da iniqüidade brasileira. 

Vejamos um pouco mais de Rui Barbosa, mais atual do que nunca.

“Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer...”

“Tenho vergonha de minha impotência, de minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço...”

“Não tenho para onde ir, pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu hino e jamais usei a minha bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo, na pecaminosa manifestação de nacionalidade.”

“Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!”

E se o povo não luta por educação, muito menos os donos do Capital e seus asseclas dos poderes Legislativo, Judiciário e parte do Executivo. Tornar a educação prioridade para eles é ameaçar com uma mais justa distribuição da riqueza. E em defesa de causa própria, os que nos dirigem são nossos próprios inimigos. Inimigos sim, pois são eles que matam nos corredores do SUS e geram a desgraça e o infortúnio a milhões de famílias brasileiras.

Quantas vezes alguém de nós, ao assistir um doente morrer na fila do SUS já disse: “Se fosse com um familiar meu eu arrebentaria com tudo”. O conhecimento nos levaria a entender que nós, seres humanos, somos verdadeiramente irmãos. E não esperaríamos para agir em defesa de um irmão...

Nós brasileiros, só encontraremos o caminho da liberdade o dia em que deixarmos de ser idiotas sentindo “orgulho de ser brasileiro”. No dia em que muitos de nós tivermos coragem, como Rui Barbosa nas entrelinhas, em dizer que temos vergonha de sermos brasileiros, ao nos sentir co-responsáveis pela iniqüidade que aqui impera.  Neste dia, finalmente estaremos aos milhões em passeatas pela Educação, matando o mal pela raiz e corrigindo esta incrível inversão de valores que emperra esta nação.

AS SANGUESSUGAS DA NAÇÃO


Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

 São Borja, 11 de julho de 2012

Não bastassem as já rotineiras seqüências de corrupção de governos, políticos, autoridades, envolvendo todos os poderes; não bastassem as safadezas e roubalheiras generalizadas; e se não bastasse tudo isto e muito mais, quando os nossos problemas cruciais têm por base a Educação e a Saúde relegadas a níveis absurdos, dentre os piores do mundo, o povo sai aos milhões para protestar por superficialidades, demonstrando exatamente o porquê de não sairmos até hoje do estado de barbárie.

Enquanto escolas caem aos pedaços, prédios do Poder Judiciário (PJ), do Ministério Público (MP) e do legislativo são verdadeiros palácios; enquanto nosso ensino básico supera apenas o Haiti e Honduras na América Latina e os professores com curso universitário e até mesmo com mestrado e doutorado, conseguem, por exemplo, no RS, salários máximos em torno de 1.800 reais, seus ex-alunos que hoje estão no Tribunal de Contas (TC), no MP, no PJ e mesmo na Fazenda, chegam a receber acima de 30 mil mensais, apenas com o curso de graduação. E para completar a maioria se auto-intitula de doutor sem ter feito sequer mestrado, quanto mais doutorado.

Tudo isso acontece em nome da independência entre os poderes, que na verdade é a total dependência de uma imensa parcela do executivo, com exceção de algumas instituições como na Secretaria da Fazenda, no TC e cúpula do governo, que por terem as contas à mão, recebem salários semelhantes. E esta imensa legião de trabalhadores com salários indignos são resultados das chantagens principalmente do PJ e do MP sobre os demais integrantes com poder de decidir e de legislar. A tal de “independência” entre poderes faz com que os leões do orçamento primeiro decidam sobre suas fatias gigantes do bolo do Tesouro do RS. As sobras ficam para dividir entre duas centenas de milhares de funcionários públicos.

Quando em 2007 a AL do RS chegou a negar votar um reajuste do MP, este imediatamente solicitou os HDs dos PCs dos deputados para analisar possíveis irregularidades. O reajuste foi logo aprovado e o MP, como por milagre, “esqueceu” de tudo. Para o MP e PJ parece que mais lhes vale políticos e autoridades com o “rabo preso” do que na cadeia e com isto conseguem estabelecer chantagens a seu favor, mas que tem como vítimas os funcionários do executivo. E para ficarem quietos, setores privilegiados do Executivo recebem salários mais próximos a esses verdadeiros “marajás” do Estado.

O PJ, que age como se fosse o dono da Lei, tem uma lei que lhe traz só as benesses da mesma e outra, que escrita com as mesmas palavras e sinais, leva só prejuízos aos demais. Um exemplo disto foi a decisão do PJ do RS (seguida imediatamente pelo MP, Legislativo e TC) em pagar as diferenças das famosas URVs só para si, através de medida administrativa, sem precisar gastar com advogado, nem depender de precatórias. Na época houve magistrado que recebeu mais de 500 mil reais e o Tesouro teve que pagar imediatamente. Os demais funcionários tiveram que entrar na justiça e depois de vários anos, pasmem, sabem o que aconteceu? O mesmo PJ, oportunista e surrealista, que recebeu as URVs à vista, deu parecer negativo aos funcionários, fazendo leitura diferente da mesma lei.

Ora, o RS é apenas um exemplo, pois tudo isto e muito mais acontece em todo País. Mas por quê? A resposta é simples: um povo com um dos piores sistemas de educação do mundo não tem condições de lutar por nada, a não ser por superficialidades. Se tivéssemos educação pelo menos razoável (e isto os donos do poder não querem e são eles que decidem), não pararíamos de exigir melhorias na Educação e com mais educação ninguém mais aceitaria morrer nos corredores dos hospitais. Na verdade se estabeleceria condições para uma verdadeira revolução democrática e as sanguessugas da nação teriam que verdadeiramente trabalhar e receber o justo por seus salários, coisas que nunca foram acostumados. Mas, infelizmente, há um longo caminho a seguir.



A HISTÓRIA QUE AINDA NÃO FOI ESCRITA

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse - São Borja, 02 de julho de 2011

 A construção de Brasília, dizia-se na época, foi como dividir nossa moeda em milhares de pedacinhos e fazer valer, cada um, o mesmo de antes da divisão. A corrupção comeu os investimentos como milhã numa lavoura sem controle, resultando em imensa perda do poder aquisitivo dos salários e nos níveis de emprego, causando grande da insatisfação popular.

Se de um lado o movimento de esquerda da época buscou canalizar a insatisfação dos trabalhadores, construindo um projeto para chegar ao poder, de outro lado a direita procurou ligar este movimento à implantação violenta do comunismo no Brasil. Brizola e João Goulart, do PTB, eram considerados os comunistas mais perigosos. Até mesmo Jânio Quadros já foi “acusado” de comunista. Santiago Dantas, da Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, foi também taxado de comunista, por defender maior autonomia comercial brasileira, quando foi o principal negociador para que o Brasil reatasse com a URSS, para poder vender nosso café diretamente aos soviéticos. Os EUA compravam nosso café e repassavam à URSS e isto só eles podiam fazer. Já fomos muito mais capachos dos EUA do que hoje e não foi à toa que o Golpe Militar de 1964 foi financiado e organizado pela CIA, o que custou para o Brasil o fim do sonho do desenvolvimento.

O que mais se observa na recente história brasileira é que as forças que sempre emperraram o país nunca precisaram de esforços para continuar no poder, mesmo que de forma implícita, dada nossa imensa capacidade de insistir no erro. O PSDB assumiu o poder; e mais tarde, o PT. Chegou finalmente a hora das transformações? Ledo engano. Ao invés de desenvolvimento e justiça social, assistencialismo eleitoreiro e mais corrupção, quando as esperanças se depositaram na esquerda, que depois se apresentou como a maior decepção da história ainda por ser escrita, mas com roteiro já definido.

Uma “outra Brasília” está surgindo com a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. Atrasa-se propositadamente o início das obras para depois se criar leis para facilitar licitações fraudulentas e tornar sigilosas as transações com as empreiteiras. Se a roubalheira é frouxa com a legislação vigente, imaginemos como será com leis mais suaves e com menor transparência!

Novamente vamos ter que rasgar nossa moeda em pedacinhos para pagar a algazarra brasileira que hoje, em nome da governabilidade, envolve praticamente todos os partidos; e a inflação acelerada, que já se começa a sentir, colocará por terra todas as relativas conquistas que até agora se teve, gerando descontentamento geral que novamente vai ser canalizado pelas mesmas forças, recicladas, que levaram ao Golpe de 64. É possível imaginar uma maior facilidade do que em 64, já que hoje as forças que querem Reforma Radical (partidos de extrema esquerda, que sofrem de velhice precoce) estão bastante enfraquecidas e desacreditadas.

O “sonho” da Copa e das Olimpíadas, que fez o Lula chorar (sic), vai se transformar num grande pesadelo e será a gota d’água para a chegada de um novo período de obscurantismo. Sem qualquer resistência. Até porque se todas as principais forças existentes no Brasil estão unidas em torno do PT, mais uma vez seremos enganados. E mais: com o apoio explícito da maioria do povo brasileiro, que já aceita a corrupção como ingrediente comum na fabricação do “bolo”. Uma nova ditadura já está a caminho, com o aval das elites dominantes e apoio fanático da imensa legião do Bolsa-família. Aqueles que condenam a corrupção no Brasil, a maioria da classe média, e que tentam se articular, não se enganem, pois fazem parte de uma minoria e serão apenas o bode expiatório, culpados pela crise, pelas críticas consideradas “destrutivas”. Serão usados como falso argumento, assim como os comunistas em 64, para estabelecimento do autoritarismo para “manter as conquistas”. A história que ainda não foi escrita, já tem seu roteiro pronto e já está se tornando cada vez mais difícil alterá-lo.


A PRIMEIRA GUERRA SANTA DO III MILÊNIO   

São Borja, 25 de junho de 2011
Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

Mais de dois bilhões de pessoas consomem regularmente transgênicos, sem que até agora tenha surgido qualquer problema de saúde ou ambiental, cientificamente comprovados. Nunca houve na história produtos que antes de serem liberados para consumo tenham sido tão exaustivamente testados. Ao mesmo tempo jamais houve produtos oriundos de uma nova tecnologia que fossem mais combatidos, inclusive com métodos condenáveis, como fraudes e interpretações fantasiosas, com a clara intenção de enganar a população.

No inicio do novo século foi lançado o milho Bt, resistente a algumas lagartas, por conter em seu genoma o gene do Bacillus thuringiensis, que codifica para uma proteína tóxica a várias espécies de insetos, mas inócua aos demais animais, inclusive ao homem. A posição intransigente, contrária a esta tecnologia levou a realizar um experimento com metodologia sem validade, para falsamente concluir que borboletas “monarca” apresentavam um índice de mortalidade em torno de 50%, quando se alimentavam do pólen do milho Bt. Logo em seguida, dezenas de experimentos, com metodologia correta, comprovaram o que os cientistas esperavam: não há mortalidade significativa entre belas borboletas. Mas não adiantou: até hoje o experimento sem validade continua sendo disseminado...

Dez anos depois que a tecnologia dos transgênicos já criou base sólida irreversível, ainda surgem tentativas eivadas de erros ainda maiores, como se a população tivesse sofrido um processo de involução no conhecimento. E vem do Canadá a notícia que se espalhou, acompanhada de cópia de artigo pretensamente científico, de que a toxina Bt e os herbicidas glifosato e glifosinato, utilizados em lavouras transgênicas, aparecem no soro de mulheres grávidas ou não. Tais conclusões contrariam o que uma imensa quantidade de trabalhos científicos encontrou até agora. Seria esta então uma descoberta revolucionária na ciência? Não. Simplesmente mais uma tentativa de fraude cientifica, ainda mais absurda do que aquele de 10 anos atrás. Acesse http://www.usherbrooke.ca/gnec/pj/Article%20paru%20dans%20Reproductive%20Toxicology%20%28document%20PDF%29.pdf e comprove.

O fato de os autores utilizarem para seres humanos um teste comercial ELISA para plantas por si só já invalida o suposto experimento. Mas se mesmo assim isto não fosse suficiente para colocar o trabalho na lata de lixo, erros tão ou mais graves são encontrados no mesmo.

São os próprios autores que dizem, e isto é verdadeiro, que a proteína do gene Bt Cry1Ab ocorre naturalmente, como produto da referida bactéria. Esta, além de estar presente nos solos, é usada há séculos em aplicações diretas nos cultivos orgânicos ou não. Bem que poderia ser uma destas a origem da proteína encontrada. Leve-se em consideração que hoje o gene Bt tem sido modificado constantemente nos laboratórios e proteínas Cry já são às dezenas e centenas, diferentes da Cry1Ab.

Tanto para a proteína do Bt como em relação aos herbicidas, há um erro básico que nem mesmo um estudante comete: a falta de tratamentos-testemunha (controles negativos) e tratamentos padrões. Não foram testados soros de mulheres de locais onde a proteína do Bt não está presente na alimentação.  Tampouco de mulheres de regiões onde não se usam os herbicidas citados. Seria necessário também testar para outros herbicidas (tratamentos padrões) de plantios convencionais, que são bem mais tóxicos, persistentes e agressivos ao ambiente que glifosato e glifosinato.

Daqui para diante, cientistas sérios irão colocar esse pseudo experimento na lata do lixo por várias vezes, o que não irá impedir, como no caso das borboletas, que o mesmo seja noticiado e reproduzido durante muito tempo para as pessoas desavisadas, que são a maioria da população mundial.

Por incrível que parece, guardadas as devidas proporções, segue a Guerra Santa. No lugar dos processos fraudulentos da Inquisição, os falsos experimentos científicos. E no lugar do fanatismo religioso o sectarismo ideológico, defensor de que os fins justificam os meios, o que demonstra que essencialmente em nada diferem. Portanto, a “Guerra Santa” continua...

MONSANTO, O BODE EXPIATÓRIO DE SEMPRE!

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 18 de junho de 2011

Era de se esperar que as notícias vindas da Europa, sobre a contaminação de alimentos por Escherichia coli levasse a fantasiosidades como "isto é coisa de muntinacionais". Mas o surpreendente é que uma significativa parcela ainda credita à Monsanto tudo que possa colocar-lhe diante de qualquer questionamento que coloque em dúvidas certos dogmas, que, em essência, em nada diferem daqueles de religiões tradicionais.

Infelizmente ainda é preciso dizer que biotecnologia não significa apenas Monsanto, como muitos pretendem. Esta foi pioneira na Agricultura, enquanto que as demais multinacionais, que não acreditavam no potencial imediato da biotecnologia na agricultura investiam só na medicina e indústria. Quando notaram que a Monsanto é que tinha razão e que era exatamente na agricultura que os investimentos eram mais rentáveis, inclusive em curto prazo, Syngenta, Bayer, Basf, Du Pont e tantas outras se uniram para evitar que a Monsanto se tornasse hegemônica. Então financiaram ONGs internacionais ditas ambientalistas como Greenpeace, ActionAid e WWF. Esta última recentemente declarou seu apoio aos transgênicos depois que a verba acabou...

Hoje são milhares o número de empresas privadas e públicas que investem em transgênicos. Como se dizia antes, “os transgênicos vieram para ficar”; e ficaram.

A Monsanto vendo suas ações caírem aos níveis de 30% foi para a China e lá, num acordo com o PCC, enviou 1.500 doutores para desenvolver conjuntamente a biotecnologia chinesa. Laboratórios foram montados nas universidades e os pesquisadores da Monsanto se tornaram também professores dos chineses.

O atraso nas pesquisas, promovido pelas demais multinacionais, tendo como executoras ONGs ambientalistas internacionais e suas sucursais nas nações pobres, possibilitou que as primeiras comprassem ações e laboratórios da própria Monsanto. Passaram então a defensoras dos OGMs e tais ONGs ficaram sem receber recursos. WWF mudou de opinião e as demais arrefeceram para evitar o que a WWF sofre de ambientalistas de fé. Claramente já estão se dedicando a outras questões...

Tais multinacionais na agricultura já estão com o mesmo status ou até superior à Monsanto. Na medicina, onde são pioneiras, a Monsanto não trabalha. Portanto, Monsanto, em termos de biotecnologia em geral, não mais está à frente. Parece que virou apenas uma palavra-chave para resumir multinacionais. O que dá muita força hoje à Monsanto é resultado do acordo de exclusividade feito com os chineses. Todas tentaram entrar na época na China, mas o PCC disse “não”. Evidentemente que a Monsanto hoje também produz substâncias químicas na China, fora da biotecnologia, com alta capacidade competitiva. E quem não se dá bem hoje na China?

Com relação à contaminação de hortifrutigranjeiros com agentes infectocontagiosos, isto sempre ocorreu, desde os primórdios da agricultura há 10 mil anos atrás, devido ao uso de estercos e águas contaminadas. Milhões e milhões de pessoas morriam, antes da descoberta dos antibióticos e outros medicamentos. Isto e mais o uso primordial do adubo químico diminuiu em muito os graves surtos seculares por patógenos e parasitas. Mas sempre se continuou usando adubos orgânicos a partir dos estercos, sem que isto fosse significativo em termos relativos de saúde pública. Com o esgotamento do potencial da tecnologia convencional, inclusive dos antibióticos, parasitas e patógenos, até mesmo os gastrointestinais, evoluíram mais rapidamente do que a indústria química e o que temos hoje são inúmeros exemplos de novas cepas e raças resistentes, muitas vezes mortais, a quaisquer tipos de medicamentos.

A história nos impõe novas sociedades, novas tecnologias e ao mesmo tempo nos proporciona, cada vez mais, sermos donos do nosso destino. Basta compreender a história. Tecnologias novas não vêm para simplesmente substituir as antigas, mas nascem do ventre delas. São como reciclagem das velhas. A biotecnologia, que se baseia principalmente nos produtos codificados pelos genes, nada mais é do que a utilização de produtos orgânicos à luz dos novos conhecimentos. Os produtos dos genes são produtos dos organismos vivos de altíssima especificidade. Quando introduzimos um gene de resistência a uma praga numa planta, estamos possibilitando a que esta sintetize uma proteína que vai combater o invasor, dispensando o uso de agrotóxicos. Quando inserimos um gene de adaptação a um fator ambiental (calor, frio, acidez, salinidade, encharcamento e outros) estamos possibilitando a produção de alimentos sem alterar o ambiente. Quando se introduz genes que capacitam as plantas a retirar seus próprios nutrientes do solo (e do ar), os fertilizantes caem em desuso. Todas estas substâncias codificadas por genes são produtos orgânicos, evidentemente, de alta especificidade. É o início do fim da era da química convencional e o começo do advento da era gênica (orgânica).

Adubos orgânicos, em busca de maior sustentabilidade, devem ser usados, mas elaborados em usinas que eliminam o poder mortal de patógenos e parasitas.  Do jeito que ocorre hoje, misturando-se ciência com ideologia, os únicos prejudicados serão as populações, enquanto ONGs pretensamente ambientalistas continuarem trabalhando não só contra os avanços científicos, mas principalmente criando um ambiente desfavorável à pesquisa nas instituições públicas, como aconteceu com relação aos transgênicos, facilitando, de boa ou de má fé, os interesses dos grandes grupos. Estes não se deixam influenciar por fantasias. A manutenção da Monsanto como bode expiatório ainda é muito útil. Estes grandes grupos, sem críticos radicais, aproveitarão para aumentar lucros e isto tem, na verdade, como origem o desconhecimento, cultivado em países como o Brasil. E para este tipo de inço nem transgenia na política resolve. Só “ateando fogo” mesmo... À luz dos novos conhecimentos...

Não é por acaso que nos países periféricos a educação nunca foi prioridade. A democratização do conhecimento não interessa aos donos do poder internacional, nem aos seus asseclas do Terceiro Mundo, inclusive no Brasil. E nada mais insuspeito (agora a máscara está caindo) do que as “inocentes” ONGs ditas ambientalistas para prestar este grande desserviço aos países pobres e à humanidade.


A TÁTICA DEMISSÃO DE PALOCCI

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
São Borja, 11 de junho de 2011


Cada vez mais nossas instituições escancaram parcialidade e desonestidade no trato da coisa pública. Enquanto exigem presteza da população em geral, cobrando com rigor qualquer tropeço, mesmo involuntário, fazem vistas grossas em situações escandalosas, quando as irregularidades partem daqueles que estão no poder. Estamos nos referindo, evidentemente, à Receita Federal, com relação ao caso Palocci.

Sabe-se de muitos casos de assalariados em que a instituição fornece comprovantes de rendimentos com equívocos, como recentemente aconteceu com um órgão aqui do RS. Nunca se puniu pela apresentação de comprovante acima do recebido, mas por menor que seja o erro para menos, a malha fina pega, criando problemas que não se restringem apenas ao atraso da restituição de valores. Pois por pouco mais de um mil reais (no ano!) a receita trancou a restituição dos funcionários referidos acima, pegos “na malha fina”.

Pois com o senhor Palocci, de patrimônio milionário, multiplicado várias vezes e com lucros que nem mesmo as grandes empresas, com nomes consagrados conseguem, nada acontece, nem mesmo quando o MP exige explicações do ministro e o Senado ameaça com uma CPI.

Como aconteceu com os quadrilheiros do mensalão, que para evitar a cassação demitiram-se, o Ministro Palocci pediu demissão quando faltavam apenas duas assinaturas (já garantidas) para uma CPI no Senado. E políticos “semblantes-de-paisagem” (caras-de-pau não é politicamente correto) do PT e partidos aliados nem se envergonharam em continuar declarando que Palocci é a pessoa mais honesta e trabalhadora que já conheceram. A fantástica multiplicação de sua fortuna em apenas quatro anos é creditada à capacidade milagrosa de trabalho na gestão administrativa da empresa pelo médico Palocci. Imaginem se o ministro tivesse formação em Administração de Empresas, ele, que consegue, mesmo assim, rivalizar com a bíblica multiplicação dos pães, protagonizada por Cristo. E continua sendo um anjinho, mesmo depois que se descobriu que Palocci mora num imóvel de 640 metros quadrados, alugado por 14 mil mensais em nome de uma empresa dirigida por “laranjas”, que nem sequer sabiam que “alugavam” um apartamento. Evidentemente que Palocci não declara esses 172 mil reais gastos com o aluguel frio. O que levaria alguém a esconder gastos da Receita senão a origem irregular do ganho?

Diante da disposição do MP em chamar Palocci para explicar o enriquecimento da noite para o dia e da virtual formação de uma CPI, o circo foi imediatamente armado pelo PT e aliados. O Procurador Geral da República, que foi nomeado por Lula e que pode ser demitido a qualquer momento, não teve outra saída senão arquivar (o que já constava no roteiro da peça teatral) o processo, com elogios à conduta ilibada de Palocci. Vibraram então deputados e senadores do PT, PMDB, PSB, PCdoB e outros, de forma semelhante àquelas platéias de programas de televisão em que alguém, por trás das câmeras, como um maestro vai comandando os macaquinhos e macaquinhas de auditório para que riem, chorem, batam palmas e gritem no momento e volume, de acordo com as circunstâncias.

Todos sabem que uma CPI atingiria muita gente importante e até mesmo o Lula, que não sendo mais presidente, ficaria vulnerável. O verdadeiro chefe do mensalão só não teve o mesmo tratamento de Collor porque houve um acordo de blindagem em troca da desistência de fazer uma devassa no Governo FHC, conforme o PT prometeu durante a campanha eleitoral na época. E assim, PSDB e PT seguem brincando de roda, um segurando o rabo do outro...

Diante da demissão de Palocci, PT e seus aliados se apressaram em dizer que agora não há mais razão para a tão temida CPI, sempre repetindo o parecer do Procurador Geral da República, como se este “enrolador geral” representasse no País o mais alto nível da Justiça e imparcialidade no Brasil.

É por isto que educação no Brasil nunca foi prioridade, pois povo mal informado é mais facilmente enganado. Diz-se que o crime não compensa, mas no Brasil isto só vale para a vitima, porque aqui ladrão até multiplica o produto do roubo.


AS “BACTÉRIAS ASSASSINAS” E OS ADUBOS ORGÂNICOS

 Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

 São Borja, 05 de junho de 2011

Começa finalmente a cair o mito de que a chamada agricultura orgânica, utilizada há séculos pela humanidade, nos atuais moldes é a mais segura e mais saudável. Se já não bastassem os riscos ao ambiente e à saúde, pela utilização de sais de metais pesados, levando à ocorrência de moléstias graves de difícil reversibilidade, surge agora uma ameaça já esperada pelos cientistas: a contaminação dos alimentos com microorganismos mutantes, altamente patogênicos e resistentes aos antibióticos mais eficientes disponíveis.  

Os adubos orgânicos, devido às origens das matérias-primas utilizadas na sua fabricação ou elaboração, têm sido muito questionados, pelo risco de conterem metais pesados como o cádmio, mercúrio, zinco, cobre, cromo, níquel e outros. Os próprios chamados “defensivos alternativos” e “biofertilizantes”, compostos de sais de cobre, zinco, cobalto, manganês e outros, à luz dos novos conhecimentos, podem ser tão ou mais perigosos do que os agrotóxicos comuns.

A Ciência já tinha comprovado e as pessoas mais antigas ainda devem se lembrar da época em que a humanidade lutava contra as mais variadas moléstias infectocontagiosas provindas de alimentos contaminados. Entretanto, a não ser a Ciência, poucos sabiam que os agentes causadores de tais moléstias estavam principalmente nos estercos usados na adubação orgânica e nas águas contaminadas, utilizadas para irrigação das culturas. Com o surgimento da adubação química e de novos medicamentos tais moléstias diminuíram drasticamente, dando lugar a outros tipos de problemas conhecidos com o advento da agricultura convencional.

Com o esgotamento das tecnologias convencionais, de uma maneira geral, novos paradigmas entraram em luta. Dentre os principais, pode-se destacar o embate entre a agricultura orgânica e a agricultura biotecnológica (dos transgênicos). Na verdade esta é uma falsa contradição, pois a agricultura biotecnológica, tendo como base “os produtos dos genes”, nada mais é do que a nova agricultura orgânica à luz dos novos conhecimentos, já que os genes codificam para produtos orgânicos.

Assim como o esgotamento das tecnologias convencionais significou a falta de eficiência dos agrotóxicos para combater as pragas (insetos, fungos, bactérias e outros), devido à seleção de resistência, o mesmo ocorreu com os produtos utilizados na medicina humana e animal.

A utilização de adubos orgânicos, sem tratamento adequado em usinas, aumenta o risco de contaminações, pois no mundo inteiro, inclusive no Brasil, já foram detectados microorganismos mutantes mais agressivos e resistentes a antibióticos. Há várias décadas a pesquisa tem demonstrado tais riscos e são inúmeros os trabalhos científicos que demonstram os perigos do surgimento de situações até mesmo catastróficas.

Só para exemplificar:

Contaminação de estercos com microorganismos, antibióticos, hormônios e outros, podem significar grandes riscos à saúde pública. Salmonelas têm capacidade de sobreviver por quase 300 dias nos dejetos de bovinos. Brucellas abortus pode sobreviver por oito meses sem redução significativa na população. Larvas de helmintos são capazes de permanecer vivas na fase de estocagem e serem viáveis após um ano da aplicação. Ovos de Ascaris sobrevivem até por mais de 800 dias em dejetos de suínos armazenados. Micobactérias podem continuar ativas por 150 dias nos estercos e por mais de dois anos no solo. Dejetos suínos comumente estão contaminados com enterovírus, adenovírus, coronavírus, parvovírus e outros; e regularmente contêm ovos de Ascaris e oocistos de coccídeos, além de outros parasitas como Balantidium, Strongyloides e Fasciola.. Altos valores de Escherichia coli são facilmente encontrados em dejetos bovinos mesmo depois de submetidos à fermentação.

Diversos trabalhos têm reportado a sobrevivência de patógenos e parasitas entéricos por semanas sobre os vegetais e por meses e até anos nos solos. No solo podem ser transportados superficialmente, descer para o lençol freático e mesmo ser transportados por insetos, roedores e pássaros.

No Brasil o problema é mais sério, pois independentemente do tipo de agricultura utilizado, uma parcela considerável de agricultores utiliza adubos orgânicos de maneira inadequada e até mesmo irriga suas plantações, principalmente hortigranjeiros, com água de esgotos cloacais.  E há ainda os que utilizam adubos orgânicos a partir de fezes humanas (!), disponibilizadas por estações de tratamento de esgotos para outros fins.

Aos poucos a humanidade vai entender que já tem a solução para esta nova era que se avizinha. É a moderna biotecnologia aplicada e interconectada a todas as áreas do conhecimento humano. Na agricultura significa a troca do uso de agrotóxicos pela resistência genética e da aplicação de adubos químicos pela capacidade das plantas em extrair seus próprios nutrientes. E mais: a adaptação das plantas às mais variadas condições ambientais, preservando e recuperando o ambiente; a produção de proteínas e óleos mais saudáveis; a produção dos mais variados artigos de uso e consumo humano; e muito mais. Além de inúmeras aplicações na medicina humana e animal; e na indústria. Tudo isto na construção de uma nova sociedade cada vez mais sustentável.

E se a agricultura biotecnológica, por sua essência, é a herdeira da agricultura orgânica, os adubos orgânicos continuarão a ser utilizados, mas à luz dos novos conhecimentos. Na busca da reciclagem total, ou seja, do fim do lixo, os restos animais e vegetais deverão ser reciclados em usinas de tratamento e com utilização de bactérias transgênicas encarregadas de realizar eficientes fermentações, eliminando os riscos para o ambiente e saúde humana. Tudo isto já e possível atualmente. E as “bactérias assassinas” não terão outro caminho senão a readaptação ao novo sistema orgânico sob a responsabilidade do Homem.


O GOLPE DAS SACOLAS RETORNÁVEIS

 São Borja, 30 de maio de 2011

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

 
Perguntemos a qualquer pessoa o que ela faz com as sacolas plásticas de supermercado. Imediatamente ela dirá que as reutiliza para colocar o lixo doméstico. Ora, há alguns tempos atrás o lixo era colocado em latas na frente das casas. Depois surgiram os sacos plásticos que se comprava nos supermercados. Com o surgimento das sacolas plásticas, os sacos específicos para lixo praticamente desapareceram.

Tentou-se incutir, sem êxito, na população que o uso de sacolas retornáveis seria ambientalmente mais sustentável e para isto foi feita uma intensa campanha nacional. Há coisas que se pode enganar facilmente um povo, mas este não foi o caso. Poucos foram os que se deixaram iludir por esta tentativa das associações de supermercados, amparadas por algumas ONGs e até mesmo por autoridades governamentais. Ora, quem sabe que as sacolas plásticas têm uma segunda utilidade, que é colocação de lixo, vê logo que o que estão querendo é que a população volte a ter que comprar os antigos sacos plásticos de lixo.

Pura safadeza. E o pior de tudo é que em alguns estados e municípios brasileiros, além do incentivo à substituição das sacolas plásticas pelas retornáveis e pagas pelo consumidor, estão criando leis neste sentido.

É preciso que o Ministério Público e o Poder Judiciário (com os quais, infelizmente, se pode contar muito pouco) interfiram, pois por trás disso tudo pode haver muitos interesses em jogo, principalmente quando os principais beneficiários, os donos dos supermercados, são os que estão na frente desta tentativa de atingir o bolso dos consumidores. E por que um absurdo desses está se tornando lei? Ora, neste Brasil do vale-tudo e do salve-se-quem-puder, há que se perguntar: Não estão “rolando” mais umas propinas por aí? Posta em prática esta proposta absurda, a única diferença que vai haver é que os mercados vão economizar com embalagens e nós vamos ter um gasto a mais, na compra de sacos plásticos de lixo. Será que esta vai ser a única diferença, o que por si só já é inaceitável? Infelizmente, não!

Estudo recente da Agência Ambiental da Inglaterra (Circe Bonatelli, Agência Estado, 11 de abril de 2011) demonstra que as sacolinhas plásticas são mais sustentáveis, pois causam menos danos ambientais do que as demais, levando em conta uma única utilização. A pesquisa do órgão do governo inglês demonstrou que sacolas de papel, plástico resistente (polipropileno) e algodão consomem muito mais matéria-prima e energia, precisando ser reutilizadas, respectivamente, 3 vezes, 11 vezes e 131 vezes, para fazer frente às sacolinhas de plástico. Ora, se nós, brasileiros utilizamos (e os ingleses também, diz a pesquisa) tais embalagens por duas vezes, os outros modelos teriam que ser reutilizados no dobro. Alguém pode imaginar, por exemplo, que seria possível reutilizar um saco de papel por 6 vezes? Ou uma sacola de algodão por 262 vezes? Assim, o potencial de aquecimento global pode ser pior, como afirma a pesquisa inglesa.

Mas há um argumento imbatível e definitivo: Se levarmos em conta que haveria apenas a substituição de sacolas plásticas fornecidas pelos supermercados, as quais reutilizamos para colocar lixo, por aqueles sacos plásticos pretos pagos pelos consumidores, o ambiente só tem ainda mais a perder, devido a um volume maior de embalagens (as sacolas retornáveis), inclusive de plástico, lançadas ao meio.

O povo não é idiota e não está caindo nessa, mas os supermercados estão utilizando outros meios para passar esta proposta absurda. Virando lei, como já está acontecendo, seremos obrigados a aceitar o “golpe das sacolas retornáveis”. Além de um golpe ao nosso bolso, é mais um atentado ao ambiente, com a pretensão de defendê-lo. Será que nossas autoridades vão ficar atentas ao que está acontecendo, ou vão também se deixar “convencer”, aprovando leis absurdas? E o MP vai fazer alguma coisa ou vai também embarcar nessa canoa? Pobre de nós, brasileiros, órfãos de autoridades, governos e representantes...


UERGS, DE MAL A PIOR

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 23 de maio de 2011

Há uma receita perfeita de como retirar direitos dos trabalhadores, da população em geral e inviabilizar instituições públicas, quando a dita direita não consegue aprovar seus projetos neoliberais: lançam mão da pseudo-esquerda, que é o instrumento infalível da direita.

A proposta de reajuste de Yeda ao magistério (e não aceita) em nada difere da de Tarso (aceita), pois se uma significava a inflação de um ano, essa outra é exatamente a inflação de dois anos. O piso dos professores, criado no Governo Lula e que foi motivo de muitas criticas à governadora por não adotá-lo, tem agora o Governo Tarso na resistência. O ato dos professores gaúchos, em defesa do piso, foi um fracasso total e não houve a participação daqueles que carregavam bandeiras pela eleição de Tarso.

Parece surreal. O que o Governo Rigotto e o Governo Yeda não conseguiram (aumento de impostos e de descontos dos funcionários públicos) o Governo Tarso apresenta num pacotão quase invencível, pois hoje tem o apoio dos mesmos deputados que votaram contra os projetos daqueles ex-governadores.

E agora, por incrível que possa parecer, o Governo Tarso apresenta propostas que alcançam aquilo que Yeda não conseguiu: inviabilizar totalmente a UERGS. Na eleição Tarso teve apoio quase total dos alunos, professores e funcionários da UERGS, por ter sido o único candidato que, de forma explícita, afirmou várias vezes que iria recuperar a universidade dos gaúchos. Por ter este apoio imenso, o governo conseguiu enganar os professores e funcionários até recentemente, quando finalmente enviou o Plano de Carreira da instituição, que nada mais é do que a institucionalização do caos. Pior do que não ter um plano é ter um plano péssimo. Pois se o assunto não fosse sério, a coisa seria hilária, já que o “plano novo” nada mais é do que a manutenção dos salários e condições anteriores, como a não existência de dedicação exclusiva, o que impede a UERGS de fazer pesquisa e extensão. Para não dizer que não houve nenhum “avanço”, o governo aumentou para 600 o quadro previsto de professores. É a única coisa que ficou do plano construído por vários anos de estudo. Mas mais uma vez vem a esperteza enganadora, pois não fixa prazo para preenchimento deste quadro. E mais (pasmem!): há uma medida administrativa assinada por Tarso, que fixa o teto em 212 professores na UERGS.

O Governo Tarso já tinha dado indícios de que não pretende recuperar a UERGS, quando ao invés de abrir concursos para completar o quadro, preferiu a contratação temporária, que já foi até considerada inconstitucional e imoral em anos anteriores, quando a Justiça demitiu todos os contratados desta forma. Vai acontecer o mesmo com os novos contratados ou o Ministério Público é uma instituição de “brincadeirinha”? Dos tão prometidos concursos, até agora nada. E a situação da UERGS nunca esteve tão ruim em toda a sua história. Faltam docentes em várias disciplinas e o Governo nem mesmo proporciona o pagamento de diárias (de pouco mais de 80 reais) que nem mesmo cobrem as despesas dos professores que se deslocam para outros municípios para dar aulas.

Posto em prática o que Tarso propõe, certamente a UERGS será inviabilizada de vez. Por exigência do MEC, se até 2016 a instituição não disponibilizar, no mínimo, quatro mestrados e dois doutorados, perderá o status de universidade. Quem não é leigo sabe bem que já estamos atrasados, ainda mais que a instituição não consegue atender nem mesmo a graduação.

Os professores e funcionários da UERGS já se acordaram e não vão aceitar tamanhos absurdos, pelo menos para que não sejam responsabilizados pelo fim de nossa universidade. Que a responsabilidade fique com o Governo e seus partidos aliados.

Resta ainda uma esperança: que aqueles deputados do PT, que durante o Governo Yeda e no período eleitoral defendiam tanto a instituição e por isto ganharam o voto da comunidade UERGS, saiam do silêncio e assumam suas responsabilidades. Afinal, são eles que agora estão no poder e têm uma ótima oportunidade de demonstrar que não usaram de demagogia para conseguir nossos votos.


UERGS E AS PICARDIAS MEXICANAS

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

15 de maio de 2011

Segundo a cultura popular na Índia, as palavras têm um grande poder, de forma que o indiano tem o costume de cuidar do que diz para que se concretize apenas o que é bom. No Brasil os nossos políticos inverteram e descobriram o poder das palavras, onde basta falar e repetir por várias vezes para que todo um povo veja uma suposta realidade através da lente da demagogia.

Quem no RS poderia imaginar que depois de quase seis meses de novo governo nossa universidade estadual enfrentasse situação pior do que aquela que passou no governo anterior? E mais: quem poderia imaginar que as perspectivas, em função das medidas adotadas pelo atual governo, são as mais aterradoras, vislumbrando-se logo ali adiante o fim da instituição? Se o Governo-Yeda buscou sucatear a UERGS, o Governo-Tarso, por incrível que possa parecer, promove a inviabilização e o fim da instituição. E se o governo, imediatamente, não voltar atrás em suas medidas de “salvação”, o PT terá que carregar o peso de ter sido o responsável pela destruição da Universidade dos Gaúchos. A “salvação”, tão prometida no período eleitoral, nos remete a uma das chamadas picardias mexicanas, quando alguém chega para um mendigo e diz: -? Quieres que Jo te salve? - Sí. - Entonces, bang, bang, bang...

A salvação seria o fim da UERGS ou, como dizem alguns, é porque a equipe de governo não conhece a UERGS? Mas se não conhece a instituição, como explicar que tudo é feito às escondidas, sem que a comunidade acadêmica saiba o que está sendo discutido? E quando alguma medida vai ser anunciada, todos ficam de cabelo em pé, com medo de mais uma picardia governamental, ao estilo mexicano.

O Governo chegou a ser alertado sobre a trágica pseudo-solução das contratações emergenciais, já consideradas inconstitucionais, que só iriam agravar a crise na UERGS, inviabilizando-a definitivamente. Infelizmente não deu outra: com a promessa de que seria apenas contratação de 60 professores por seis meses, enquanto se completaria, concomitantemente, por concurso público, o quadro previsto de professores efetivos, o governo quebrou o acordo e apresentou projeto de lei para contratação temporária por 12 meses, com prorrogação por mais 12 meses. Quanto ao concurso, somente para 60 professores efetivos, que entrarão conforme saiam os temporários (daqui a dois anos?). E mais (pasmem!) o expediente 277-19.50/11-6, assinado pelo Governador Tarso, dia 8 de abril de 2011, diz o seguinte: “... Concurso Público para contratação de sessenta professores... condicionando o provimento ao simultâneo desligamento dos professores contratados emergencialmente” “...desde que respeitado o teto de duzentos e doze professores no quadro permanente de pessoal”. E se antes o governo dizia que os temporários sairiam à medida que fossem aprovados os concursados, agora ele inverte a coisa! Foram enganados os deputados da AL?

Ora, a comunidade acadêmica esperava imediatas providências para completar o quadro de 300 professores, para que a UERGS começasse a respirar novamente. Após, seria levada uma reivindicação de quase três anos, aprovada pelo Conselho Universitário, que é uma alteração no quadro de pessoal, aumentando para 600 o número de professores. E isto por quê? Por uma exigência do MEC, até 2016 todas as universidades deverão contar, no mínimo, com quatro mestrados e dois doutorados, para não perder este status. A UERGS nem mesmo disponibiliza ainda especializações. Na menor universidade estadual do Brasil, com um teto fixado por Tarso de 212 professores, até mesmo os cursos de graduação continuarão em dificuldades. Para o leigo parecerá que 2016 está muito longe, mas já estamos atrasados, devido ao descaso no Governo-Yeda; e se o Governo-Tarso colocar em prática o que até agora propôs, certamente deixaremos de ser uma universidade, brevemente.

E para completar os maus presságios em relação à UERGS, o plano de carreira da instituição, depois de discutido por vários anos e aprovado pelo Conselho Universitário, nem sequer foi levado em consideração pelo governo, que diz que está preparando outro, sem que a comunidade universitária tenha acesso ao mesmo. Mais uma picardia? Ninguém sabe. Infelizmente a transparência nunca foi uma característica do PT. Os baixos salários e a falta de um plano de carreira têm sido a principal causa da debandada dos professores da UERGS. As medidas adotadas pelo governo, mais do que um balde de água fria no fervor da esperança de todos, até mesmo dos que não votaram no Tarso, vai significar o fim de nossa instituição, se concretizadas. Mas resta ainda uma esperança: que o governo está fazendo tudo isto por não conhecer a realidade da UERGS, como tem demonstrado em reuniões com nossas associações, onde tentam sempre “enrolar”, adiando prazos. Mas por que então a falta total de transparência?

Por incrível que possa parecer à comunidade acadêmica da Universidade dos Gaúchos e a todo o povo rio-grandense, resta a esperança surrealista de que a equipe do governo que trata da UERGS não conheça a instituição, tamanho são os absurdos que se nos apresentam. É torcer para que aprendam imediatamente com o erro que com transparência e participação de todos podemos realmente salvar a UERGS, mas que esta salvação não seja como a morte nas picardias mexicanas.


08 de março de 2011

As mulheres não são homens

Boaventura de Sousa Santos*

A cultura patriarcal tem uma dimensão particularmente perversa: a de criar a ideia na opinião pública que as mulheres são oprimidas e, como tal, vítimas indefesas e silenciosas. Este estereótipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas de resistência e a capacidade de inovação política das mulheres.Boaventura de Sousa Santos

No passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da
Mulher. Os dias ou anos internacionais não são, em geral, celebrações.
São, pelo contrário, modos de assinalar que há pouco para celebrar e
muito para denunciar e transformar. Não há natureza humana assexuada;
há homens e mulheres. Falar de natureza humana sem falar na diferença
sexual é ocultar que a “metade” das mulheres vale menos que a dos
homens. Sob formas que variam consoante o tempo e o lugar, as
mulheres têm sido consideradas como seres cuja humanidade é
problemática (mais perigosa ou menos capaz) quando comparada com a
dos homens. À dominação sexual que este preconceito gera chamamos
patriarcado e ao senso comum que o alimenta e reproduz, cultura
patriarcal.

A persistência histórica desta cultura é tão forte que mesmo
nas regiões do mundo em que ela foi oficialmente superada pela
consagração constitucional da igualdade sexual, as práticas quotidianas
das instituições e das relações sociais continuam a reproduzir o
preconceito e a desigualdade. Ser feminista hoje significa reconhecer que
tal discriminação existe e é injusta e desejar activamente que ela seja
eliminada. Nas actuais condições históricas, falar de natureza humana
como se ela fosse sexualmente indiferente, seja no plano filosófico seja no
plano político, é pactuar com o patriarcado.

A cultura patriarcal vem de longe e atravessa tanto a cultura
ocidental como as culturas africanas, indígenas e islâmicas. Para
Aristóteles, a mulher é um homem mutilado e para São Tomás de Aquino,
sendo o homem o elemento activo da procriação, o nascimento de uma
mulher é sinal da debilidade do procriador. Esta cultura, ancorada por
vezes em textos sagrados (Bíblia e Corão), tem estado sempre ao serviço
da economia política dominante que, nos tempos modernos, tem sido o
capitalismo e o colonialismo. Em Three Guineas (1938), em resposta a um pedido de apoio financeiro para o esforço de guerra, Virginia Woolf
recusa, lembrando a secundarização das mulheres na nação, e afirma
provocatoriamente: “Como mulher, não tenho país. Como mulher, não
quero ter país. Como mulher, o meu país é o mundo inteiro”.

Durante a ditadura portuguesa, as Novas Cartas Portuguesas publicadas em 1972 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, denunciavam o patriarcado como parte da estrutura fascista que
sustentava a guerra colonial em África. "Angola é nossa" era o correlato de
"as mulheres são nossas (de nós, homens)" e no sexo delas se defendia a
honra deles. O livro foi imediatamente apreendido porque justamente
percebido como um libelo contra a guerra colonial e as autoras só não
foram julgadas porque entretanto ocorreu a Revolução dos Cravos em 25
de Abril de 1974.

A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas,
hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do
horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas
de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos
últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas
fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado
hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África, continua a
praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as
mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de
uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em
tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas
mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de
adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.

A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias,
instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas,
pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de
abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis.
Porque é uma disposição natural. não há sequer que lhes perguntar se
aceitam os encargos ou sob que condições. Em Portugal, por exemplo, os
cortes nas despesas sociais do Estado actualmente em curso vitimizam em
particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do
cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com
deficiência). Se, com o encerramento dos hospitais psiquiátricos, os
doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das
mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o
trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais
baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível
com desejar mais vivos.

Mas a cultura patriarcal tem, em certos contextos, uma outra
dimensão particularmente perversa: a de criar a ideia na opinião pública
que as mulheres são oprimidas e, como tal, vítimas indefesas e silenciosas.

Este estereótipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas de
resistência e a capacidade de inovação política das mulheres. É assim que
se ignora o papel fundamental das mulheres na revolução do Egipto ou na
luta contra a pilhagem da terra na Índia; a acção política das mulheres que
lideram os municípios em tantas pequenas cidades africanas e a sua luta
contra o machismo dos lideres partidários que bloqueiam o acesso das
mulheres ao poder político nacional; a luta incessante e cheia de riscos
pela punição dos criminosos levada a cabo pelas mães das jovens
assassinadas em Cidade Juarez; as conquistas das mulheres indígenas e
islâmicas na luta pela igualdade e pelo respeito da diferença,
transformando por dentro as culturas a que pertencem; as práticas
inovadoras de defesa da agricultura familiar e das sementes tradicionais
das mulheres do Quénia e de tantos outros países de África; a resposta
das mulheres palestinianas quando perguntadas por auto-convencidas
feministas europeias sobre o uso de contraceptivos: “na Palestina, ter
filhos é lutar contra a limpeza étnica que Israel impõe ao nosso povo”.

 

*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).


CARTA ABERTA AO GOVERNADOR TARSO

 

É POSSÍVEL SENTIR SAUDADE DO FUTURO?

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse, São Borja, 19/02/2011

 
O grande feito  da UERGS em ficar entre as três melhores universidades do Estado (classificação do MEC), mesmo caindo aos pedaços, devido ao descaso, principalmente do último governo, lembra a façanha da Guerra dos Farrapos. Isto vem demonstrar que tudo que se tem vem de conquistas e não de “mão-beijada”. Apesar de todas as dificuldades, aquele DNA de sua criação no Governo Olívio, resultante de uma das maiores mobilizações populares já ocorridas no Estado, continuou expressando seu potencial, a despeito do ambiente completamente desfavorável que surgiu depois.

Como uma planta tentando se potencializar em ambiente adverso, a UERGS se mantém através da utilização de todas as alternativas possíveis. Mas, como uma planta, também chegamos ao limite, a partir do qual a degradação começa a se tornar irreversível. E quando isto começa a acontecer, eis que surge no horizonte o aceno da esperança, com Tarso assumindo o compromisso de não só reerguer a UERGS, como torná-la instrumento fundamental no desenvolvimento regional do Rio Grande do Sul.

E o Governo-Tarso assume e logo em seguida vem o primeiro pacote urgente, para atender prioridades. E todos nós, ansiosos por soluções para uma instituição que está “penando em praça pública” (mas, como os Farrapos, não se entrega) avidamente procuramos ver o que se propõe no “pacote” para UERGS. Mas a Universidade dos Gaúchos não está lá. Os mais otimistas e árduos defensores de Tarso, dizem que como a UERGS é muito especial para o novo governo, vai ter um tratamento exclusivo e isto leva algum tempo a mais. Os que vêem a realidade se assustam, pois nem mesmo a liberação para a nomeação de professores já aprovados em concurso acontece, quando bastariam apenas 2 segundos do tempo do Governador para assinar a autorização. Novos concursos, muito menos.  E o Plano de Cargos e Salários da UERGS fica engavetado, enquanto diversas categorias  têm seus planos aprovados no “pacote”. Com metade dos salários das universidades federais, a UERGS se torna “ponte” para outras instituições. Mais de 200 professores entraram por concurso público, mas mais da metade já saíram e continuam saindo. As aulas começam dia 28 de fevereiro e diversas Unidades estão sem professores para atender os alunos. Faltam poucos dias para que a UERGS entre numa situação catastrófica, jamais enfrentada em sua breve história. Mas nós temos agora um governo que assumiu compromisso com a Universidade dos Gaúchos e, portanto, ainda deve restar uma esperança: a de que, como um mágico, Tarso retire da cartola o coelho da UERGS. Mas que desta cartola não surja um gato, com a trágica pseudo-solução das contratações emergenciais, já consideradas inconstitucionais, que só irão agravar a crise na UERGS, inviabilizando-a definitivamente.

É importante que se diga que não queremos que se repita o final da Guerra dos Farrapos, quando, apesar de toda a bravura, fomos derrotados por forças majoritárias e mais poderosas. É preciso definitivamente encerrar esta fase desastrosa dos governos gaúchos depois de Brizola (este sim honrou o espírito farroupilha) em viver correndo para Brasília de pires na mão. Tarso há de honrar o compromisso assumido em campanha política e seu passado glorioso, revolucionando o RS e devolvendo nosso espírito de pioneirismo, para que possamos começar a caminhar com nossos próprios pés, evitando que a política dos governos federais, comandada principalmente por São Paulo, Minas e Rio, nos torne definitivamente mero corredor do MERCOSUL. E a UERGS tem papel fundamental nesta luta, como instrumento do Estado na liderança das políticas de ensino, pesquisa e extensão.

Governador Tarso: está em suas mãos quebrar o círculo vicioso da miséria que se fortalece cada vez mais no RS, integrando-se ao Governo Federal, mas reconstruindo ao mesmo tempo a autonomia do nosso Estado. E isto passa pela Universidade dos Gaúchos.

E agora, excelentíssimo senhor Governador Tarso Genro, podemos responder àquela pergunta que serviu de título a esta manifestação. É possível sentir saudade do futuro? Se a UERGS não vingar, sim!


RIO DE JANEIRO “É SÓ UM DETALHE”...

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 10 de fevereiro de 2011

 

Mais uma catástrofe no Rio de Janeiro. Desta vez o número de mortos se aproxima de 1.000 pessoas. Todos os anos a mesma coisa lá e em todos os cantos do Brasil, com menor ou maior gravidade. E como sempre, medidas que vão às raízes dos problemas, nunca: apenas “aspirina para passar a febre”. E todo o Brasil se mobiliza para atender vítimas de fenômenos naturais, resultantes do artificialismo demagógico do politicamente correto, mesmo que tecnicamente equivocado.

Há alguns anos atrás, quando governava o RS Alceu Collares, um projeto do Executivo, que destinava 70% (!) das áreas das Estações Experimentais do Departamento de Pesquisa da Secretaria da Agricultura, estava para ser votado na Assembléia Legislativa. 24 unidades totalizavam pouco mais de 5 mil hectares, com 300 aqui, 200 acolá, 400 mais adiante, enfim, áreas relativamente pequenas, que no conjunto dariam uma fazenda. Destruir-se-iam nossas estações experimentais para assentar um total de, no máximo, 175 famílias, quando bastaria desapropriar uma única fazenda improdutiva. Na época levantamos que aquele projeto significava, mais do que a privatização de áreas públicas, a inviabilização da pesquisa agrícola estadual.

O MST exigiu que o Partido dos Trabalhadores (cinco deputados na época) votasse favorável e foram para a discussão interna com o movimento. Estávamos presentes e levantamos todos os argumentos, demonstrando a inviabilidade daquele projeto. De repente fomos interrompidos por uma pergunta de um representante do MST: - Mas as estações não estão sucateadas?  -Sim. -Então temos mais é que distribuir as terras. Aplauso geral... Então respondemos que por este argumento, se distribuíram os hospitais aos sem-teto, já que a saúde também estava sucateada. Não adiantou: o PT votou favorável e o líder do partido alegou que a decisão era tecnicamente incorreta, mas politicamente certa, já que a pressão do MST era muito grande. Veja-se que se enganavam os que pensavam que o MST era massa de manobra do PT, quando era o inverso. O resultado é que o projeto foi implantado parcialmente em apenas algumas unidades e logo se viu a loucura que iria se cometer. Onde foi implantado, está lá para ver o absurdo de se separar os aspectos técnicos (científicos) dos políticos.

Isto que acontece no Rio de Janeiro e por todo o Brasil é semelhante, quando pessoas organizadas ou não, resolvem construir suas moradias em locais de risco. E o que é um local de risco senão de risco de degradação ambiental, com efeitos diretos e imediatos sobre os seres humanos? Quantas e quantas vezes assistimos líderes comandando grupos de pessoas para tomar áreas inapropriadas e construir moradias, sem que nada se fizesse, a não ser imediatamente levar água e energia para os novos moradores, perpetuando o erro. Ora, qualquer técnico sabe que morar em beira de rio significa 100% de chances de ter a casa inundada, mais dia, menos dia. Também se sabe que construir morro acima significa destruição morro abaixo. Mas como impedir isto, se o politicamente correto no Brasil sempre superou o tecnicamente recomendável? E assim, políticos se elegem apoiando assentamentos inapropriados e depois se reelegem intermediando ajuda do governo às famílias em desgraça.

Enquanto isto, as ONGs ambientalistas que dispõem de recursos volumosos se localizam principalmente na Amazônia, com a nítida intenção de contribuir para a internacionalização daquela imensa área ainda brasileira. Fiscalizam o que, se os principais problemas da Amazônia podem ser observados via satélite? Por que não atuam onde os problemas ambientais são mais graves?

E os dois principais problemas de poluição ambiental, por fezes humanas e industrial (a agricultura fica em terceiro lugar) se agravam, porque o politicamente dito correto, se sobressai sobre cientificamente adequado. Há soluções técnicas para controlar a poluição dos esgotos e das indústrias, assim como existem soluções políticas para enfrentar o problema da moradia sem que o ambiente e os seres humanos sejam degradados ou destruídos.

O grande obstáculo no Brasil, que impede soluções definitivas, é a nossa cultura paternalista e demagógica que investe sempre em curto prazo, para que os usurpadores se mantenham por longo prazo recebendo as benesses do poder.

 



Balanço da biotecnologia no Brasil em 2010

Por Alda Lerayer

 O ano de 2010 foi muito positivo para a Biotecnologia, principalmente no que diz respeito aos organismos geneticamente modificados (GM), cujas aprovações comerciais tiveram próspero andamento durante o período. Desde fevereiro, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) está sob o comando do geneticista Edilson Paiva, que deverá permanecer no cargo até 2012.

Da gestão anterior, Paiva herdou os processos em estágios avançados de avaliação pelos membros. Sua principal missão é manter o ritmo das avaliações de organismos GM dentro dos prazos estabelecidos pela Lei de Biossegurança, e conservar o diálogo dentro da comissão, composta por 27 autoridades em biotecnologia.

Foram oito liberações de cultivos comerciais para soja, milho e algodão em 2010, além de outras 3 referentes a vacinas e 1 levedura. Com essas aprovações, O Brasil já tem à disposição 27 eventos agronômicos liberados. O destaque é para esta levedura modificada para produção de óleo diesel a partir da cana-de-açúcar.

Quanto à soja, foram aprovados dois eventos tolerantes ao herbicida glufosinato de amônio e um resistente a insetos e tolerante ao glifosato. Para o milho, as novidades são quatro eventos resistentes a insetos e a diferentes tipos de herbicidas. Já para o algodão, o mais recente evento aprovado é resistente ao glifosato.

Para 2011, a expectativa é de que haja mais aprovações relacionadas de eventos de milho e de algodão, e possivelmente também do feijão transgênico. Neste caso, a variedade será resistente ao vírus do mosaico dourado do feijoeiro, que é o pior inimigo dessa cultura agrícola na América do Sul. No Brasil, a doença está presente em todas as regiões e, se atingir a plantação ainda na fase inicial, pode causar perdas de até 100% da produção. O resultado é inédito para a biotecnologia mundial, pois trata-se do desenvolvimento das primeiras plantas transgênicas totalmente produzidas por instituições públicas de pesquisa, no caso a Embrapa Recursos Genéticos, em parceria com a Embrapa Arroz e Feijão.

Contribuições para o campo e o meio ambiente

De acordo com o relatório ISAAA, divulgado em fevereiro, o Brasil plantou 21,4 milhões de hectares com culturas geneticamente modificadas e se tornou o segundo maior produtor de transgênicos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, deixando a Argentina em terceiro lugar, em um universo de 25 países produtores.

O número representa um crescimento de 35,4% em relação a 2008, justificado especialmente pela rápida adoção do milho GM.

Ao todo, 25 países plantaram 134 milhões de hectares, o que corresponde a 9 milhões de hectares a mais do que em 2008. Foram 14 milhões de grandes e pequenos agricultores no mundo que adotaram cultivos transgênicos em suas lavouras. Ainda de acordo com o ISAAA, os oito principais países no ranking de maiores produtores foram:

Estados Unidos (64 milhões ha.), Brasil (21,4 milhões ha.), Argentina (21,3 milhões ha.), Índia (8,4 milhões ha.), Canadá (8,2 milhões ha.), China (3,7 milhões ha.), Paraguai (2,2 milhões ha.) e África do Sul (2,1 milhões ha.).

Diversas plantas geneticamente melhoradas estão disponíveis no mundo para o cultivo na Europa, mas apenas duas culturas transgênicas podem ser cultivadas comercialmente. A primeira é um milho resistente a insetos e a segunda é a batata com um maior teor de amilopectina, aprovada neste ano.

Na Europa, a área plantada deste único milho transgênico alcançou 94.750 hectares em 2009. Os principais países de cultivo são: Espanha, República Checa, Romênia e Portugal. Além destes, a Eslováquia e a Polônia também estão cultivando o milho resistente a insetos. Hoje, a batata transgênica é plantada na Alemanha, República Checa e Suécia.

Além das vantagens comerciais, um estudo realizado pela Consultoria Céleres apontou que a adoção da biotecnologia no Brasil contribuiu com a redução de 12,6 bilhões de litros de água na agricultura, o que significaria abastecer uma população de 287,2 mil pessoas no período de 1996/97 a 2008/09.

Além disso, foram economizados 104,8 milhões de litros de óleo diesel e houve uma redução na emissão de 270,4 mil toneladas de CO2, decorrente da queima do óleo diesel utilizado no maquinário agrícola, o que representaria a preservação de 2 milhões de árvores de floresta ripária.

 

Alda Lerayer – Engenheira Agrônoma, Ph.D. em Genética e Melhoramento de Plantas e Microrganismos e Diretora-Executiva do CIB


UM BODE NA SALA DA UERGS

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 22 de janeiro de 2011.

 
O grande feito da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), mesmo diante de obstáculos inimagináveis para quem não é aluno, funcionário ou professor, não foi apenas em ficar entre as três melhores universidades do Rio Grande do Sul. Muito mais do que demonstrar qualidade de ensino, mesmo num Governo Yeda, que agiu como um opositor da UERGS, este feito demonstra que tudo acontece exclusivamente por obra nossa e culpar este ou aquele por nossos infortúnios é tentar esconder ou justificar nossa fraqueza.

Certa feita, num curso promovido pela FAO, na década de 80, na Costa Rica, o coordenador sentenciou mais ou menos assim: “Tudo que uma nação alcança, seja de bom ou de ruim, se deve, respectivamente, única e exclusivamente à sua capacidade ou incapacidade.” E nós construímos a frase: Nós só poderemos ser livres quando nos convencermos que a culpa de nossa escravidão cabe a nossa incapacidade de nos libertar e não a quem nos escraviza. O dominador nunca deixará de sê-lo, se o dominado só reclamar da carga que tem de carregar.

O que a comunidade UERGS fez foi ignorar a carga imposta pelo Governo do Estado, empenhado explicitamente em obstruir a instituição, utilizando-se de todos os meios para criar todos os tipos de entraves. Ficar entre as três melhores, “apesar de você...”, demonstra que a história é construída pelo povo e que um governo não transforma, mas pode ajudar ou atrapalhar a transformação. Como num jogo de futebol o juiz não joga, nem tampouco conduz o jogo, como pode até parecer. Um juiz pode interferir positivamente cuidando para que o jogo seja limpo, para que possa vencer o melhor. Mas pode atrapalhar, apitando mal uma partida. Apesar do péssimo árbitro que tivemos, a UERGS venceu, mesmo com vários gols legítimos anulados por impedimentos inexistentes.

Começa agora um novo campeonato e um novo juiz, que se espera, pelos seus compromissos assumidos, seja capaz de apitar a partida de forma a que os talentos possam ter seus potenciais expressos e os “pernas-de-pau” recebam cartões amarelos e vermelhos.

Tarso Genro foi explícito quando disse que a UERGS seria valorizada no seu governo (mesmo que valorizada já esteja por nosso trabalho). Para nós todos o compromisso de Tarso deve significar condições de trabalho adequadas, para que possamos todos explicitar nossos potenciais. Como numa partida de futebol: para que todos os times possam mostrar seus talentos e deixar o público satisfeito com o jogo.

Entretanto, dias atrás, uma noticia aterrorizou a comunidade UERGS: os já ridículos recursos financeiros recebidos pelo desastrado Governo Yeda, diminuíram ainda mais, em 20%, como primeira medida de economia do Governo Tarso. É como chegar a um mendigo, que mora debaixo da ponte, esperançoso por uma saída e lhe avisar: “você precisa economizar mais na comida”. Melhor seria dizer a verdade para o mendigo: “quem vai lhe tirar daí vai ser você mesmo, se quiser”.

É preciso que se diga àqueles desiludidos e os calados que fizeram a campanha do Tarso, que a UERGS (ou qualquer coisa que seja) foi idealizada e construída por nós todos. Governos apenas ajudaram ou atrapalharam nossos caminhos. Nossa luta não findou com a vitória de Tarso, mas se aprofundou, tornando-se mais complexa. O Governo Tarso pode ser o caminho para a inserção definitiva da Universidade dos Gaúchos. Tudo depende de nós.

O corte em nossos já minguados, ou quase inexistentes recursos tem que ser muito bem analisado, para que possamos tornar possível a reversão do acontecido e que isto não se estenda para os próximos meses. Muito mais ainda: precisamos ficar atentos para que isto não seja o “bode na sala”; para que depois de uma intensa luta se festeje voltar às condições que tínhamos no Governo Yeda.

Foi muito sintomático a atitude do Magistério Estadual no Governo Olívio, quando esperançosos por um “salvador-da-pátria”, acabaram aceitando como que vitória fosse, reajustes salariais semelhantes a governos anteriores, enquanto que o Legislativo, o Judiciário e parcelas do Executivo, como sempre, continuaram a ser beneficiados. E os meses de greve em governos anteriores nem mesmo foram substituídos por um minuto de silêncio pelos sonhos que morreram.

  Enquanto ficarmos esperando que outros encontrem soluções para nós, como os mendigos que perambulam pela cidade, nossa esperança estará sempre em que os privilegiados melhorem ainda mais para que os restos de comida tenham melhor sabor. 

 

RELATO FIEL DA INFIDELIDADE
Prof.Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
São Borja, 01 de janeiro de 2011

O ladrão (assim chamado por Lula) José Sarney, que conseguiu se tornar o maior símbolo da podridão brasileira, depois de apoiar todos os governos desde a Ditadura Militar, inclusive o de Lula e agora o de Dilma, acaba de dar posse à nova presidente.

Com a maior cara-de-pau, lembrou a coragem e o sofrimento de Dilma, diante da prisão e torturas que sofreu por aqueles dos quais ele mesmo fez parte. Mas lá estavam outros apoiadores caras-de-pau, como Malluf e Collor de Melo, este com um semblante emocionado de dar pena.

Talvez o maior feito de José Sarney tenha sido o de conseguir macular (ou desmascarar?) a Academia Brasileira de Letras, tornando-se um imortal da mesma, tendo como obra principal o "best seller" Marimbondos de Fogo (ui, ui...). Esta mesma academia barrou Mario Quintana por três vezes, quando nosso poeta perdeu para Eduardo Portella (ex-ministro do ditador General Figueiredo; depois, para Arnaldo Niskier, que conseguiu chegar à presidência (!) da ABL; e na terceira vez para Carlos Castelo Branco, um jornalista, sem qualquer histórico de escritor.

Mas nosso poeta lá do Alegrete, com cara de quero-quero, com apelido de “passarinho”, vingou nós todos para sempre com o imortal “Poeminha do Contra”: “Todos esses que aí estão” “Atravancando meu caminho,” “Eles passarão...Eu passarinho”.

Que Vilma faça um governo pelo menos razoável, o que é o máximo possível, com o saco de gatos que acompanha a nova presidente.

E que não faça uma revolução no idioma brasileiro depois que se auto-nominou como “presidenta”. Ainda bem que os brasileiros não são coerentes, caso contrário não estariam hoje abraçados Sarney, Collor, Malluf e tantos outros gatunos com Lula e Dilma para gerenciar nosso dinheiro.

A coerência dos brasileiros, caso a nova palavra “presidenta” vingue, levaria ao surgimento de gerentas, assaltantas, agentas, inocentas, doentas, pacientas, carentas e outras deformidades, que certamente levariam Dilma à Academia Brasileira de Letras.

Brasil Zorra Total

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 08 de dezembro de 2010.

 
Definitivamente chegamos ao fundo do poço, quando temos razões de sobra para não acreditar mais em certas instituições públicas que deveriam primar para que possamos produzir e crescer com tranqüilidade e confiança para construir uma sociedade mais justa e mais eficiente. Pagamos impostos de suecos e recebemos serviços públicos de haitianos. Mas aonde vão os impostos arrecadados? Já se disse que se a corrupção fosse controlada no Brasil, o salário médio poderia aumentar em até 70% ou o salário mínimo várias vezes. Mas há também os salários de Primeiro Mundo recebidos pelos integrantes do Poder Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da Fazenda e outros privilegiados, que, em contrapartida nos prestam serviços de Quarto Mundo.

Infelizmente a Ditadura da Burocracia criou um sistema que parece imune a qualquer tentativa da população em tentar mudar algo. O que se consegue muitas vezes é tão somente a intimidação e até mesmo punições para quem tentar desenlear o novelo da incompetência e do autoritarismo.

O que acontece aqui mesmo, no município de São Borja, a Terra dos Presidentes, nada mais é do que um mini retrato do que é o Brasil. Enganam-se, por exemplo, os que pensam que o problema do crime organizado no Rio de Janeiro é apenas um problema das grandes cidades... Mas isto, por enquanto, não vem ao caso.

Há quase dois anos lideramos uma denúncia ao Ministério Público Estadual sobre as diversas irregularidades cometidas em relação a Rio Uruguai e ambiente em geral. O próprio MP constatou o caso, mas tão somente, por nossa sugestão, até agora determinou que a Prefeitura (que representa a comunidade vítima) colocasse placas de advertência em todas as entradas para o Rio Uruguai, coisa que nunca se configurou. E mais nada foi feito, enquanto a situação só tem se agravado. Chegou-se a noticiar na mídia que quem lavasse veículos no rio seria identificado, mas aos fins de semana chegam a fazer fila para lavagem, na presença de autoridades. Animais continuam pastando nas margens do rio impedindo a recuperação da mata ciliar. E os esgotos a céu aberto e sem tratamento lançam cada vez mais poluentes, matando o rio dia após dia. E para que as pessoas menos esclarecidas continuem adoecendo e morrendo, nem mesmo avisos do perigo que correm em contato com a água, numa verdadeira latrina, que teimam em chamar de balneário. E centenas de crianças chegam mesmo a brincar com o barro que se forma no encontro dos esgotos com o rio... Será que alguém ganharia na justiça uma ação contra o poder público pela morte de um filho devido a alguma doença infectocontagiosa adquirida numa situação dessas? Certamente que não.

Mas os riscos não ficam por aí e voltemos a dizer: esta é uma situação que envolve todo o País.

A legislação, por exemplo, proíbe que produtos de origem animal (com algumas exceções) fiquem expostos para a venda à temperatura ambiente. Isto é tão comum que muitas pessoas não se dão conta do perigo que correm. A situação está ali, escancarada, mas parece que só a fiscalização não vê. E aqueles estabelecimentos em que os funcionários lidam com dinheiro e alimentos ao mesmo tempo? Isto só para citar o que ocorre de mais comum e visível.

A legislação também proíbe a comercialização de embutidos caseiros, onde não há qualquer controle de qualidade e se constitui grande risco a saúde pública. Mas não há na cidade, com uma ou outra exceção, um só estabelecimento no setor que não venda lingüiça caseira. E mais: chegam a fazer publicidade do produto proibido! Imagine-se o risco que se corre quando pessoas despreparadas, sem conhecimento de normas sanitárias e principalmente sem nenhuma fiscalização manipulam carnes. Será que estarão misturando produtos de origem animal adequadamente, livres de contaminações? Observe-se que esta legislação só veio a piorar a situação, pois não há fiscal sanitário para conferir já que o produto está  “proibido”. Situação surrealista esta.

E para completar, há um problema que ocorre aqui e em qualquer lugar do Brasil, nas barbas e nas pestanas de todos nós. A alimentação do tráfico de drogas através da venda de produtos roubados. O problema não é de saúde pública, mas de segurança, diriam. É verdade, mas mais do que a saúde, está em jogo nossas vidas. Mas este é um assunto para outra oportunidade, tão grave o mesmo, que é necessário mais espaço para discorrer.

Enquanto isto vamos indo, mas sempre pensando em acordar um dia para mudar esta realidade. E mesmo quase sem esperanças, este texto está também sendo enviado ao MP.

 

O GRANDE DESAFIO DE TARSO GENRO

Prof. Dr.Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 20 de novembro de 2010.

 

Logo depois de confirmada a vitória de Dilma, Ciro Gomes acusou o PSDB de Fernando Henrique e o PT de Lula de montarem “uma estratégia para fragilizar e enfraquecer o Rio Grande do Sul nos últimos 16 anos”. E disse mais: “O objetivo claro foi de rebaixar o RS no cenário nacional, ações presidenciais que ferem a Constituição e o princípio federativo; e depois acusam os gaúchos de separatismo...” Quando perguntado sobre o significado da vitória de Tarso Genro, o ex-governador do Ceará disse que esta será a grande oportunidade para que os gaúchos revertam esta situação, onde o RS vive a pior crise dentre todos os estados da federação (Rádio Gaúcha, 31/10/2010).

Se é bem verdade o que disse Ciro, não é menos verdadeiro que a decadência do nosso Estado vem desde os tempos da Ditadura Militar de 64, quando nossas instituições públicas estaduais responsáveis pelas políticas de pesquisa, extensão e ensino começarem a ser sucateadas, com o incremento da centralização pelo Governo Federal.

No início dos anos 70 o RS ainda era considerado o celeiro do Brasil, mas já havia prenúncio de graves crises. Ainda se vivia sob efeito de grandes realizações dos gaúchos. A modernização da pesquisa agrícola e industrial, a criação da CRT, CEE, CEEE, CESA, Aços finos Piratini, Refinaria Alberto Pasqualini, CORSAN; a construção da ponte do Rio Guaíba e de mais de 7.000 escolas em apenas uma administração, dentre muitas outras, nas décadas 50/60, parece terem sido os últimos atos de bravura que orgulharam o espírito de nossos ancestrais.

Como “efeito da Lei da Inércia”, ainda liderávamos a política de pesquisa, educação e extensão para o Estado, pelos resultados que ainda eram obtidos. As instituições de pesquisa agrícola e industrial ainda eram reconhecidas no Brasil e no exterior, tanto que eram comuns as visitas de cientistas estrangeiros, para conhecer o trabalho pioneiro que realizávamos. Mas a crise estava chegando, com o desmonte de nossas instituições.

Nossos governantes e representantes eram alertados na época para o que estava por acontecer, mas não davam ouvidos. Encantados pelo “canto da sereia” do governo central, tinham a ilusão de que seria vantajoso ao RS gastar menos, sucateando seus centros e deixando que a Governo Federal fizesse tudo. E em todas as áreas houve essa febre de federalização no RS e o que assistimos até hoje são os prefeitos e governos gaúchos de chapéu na mão pedindo recursos para Brasília. E ninguém se dá conta de que o dinheiro do governo federal é o nosso dinheiro... A diferença está em quem administra os recursos...

O Estado de São Paulo, diferentemente, fez questão de manter e aprimorar suas instituições. Enquanto o RS se esquecia da CIENTEC, atrelava a EMATER ao Governo Federal; e sucateava e diminuía o número de estações experimentais agrícolas da hoje FEPAGRO, transformando-as praticamente em subunidades da Embrapa, São Paulo aumentava o número delas e as modernizava, integrando pesquisa, ensino e extensão. A USP, que é uma universidade estadual, foi aprimorada, transformando-se numa das 100 primeiras dentre mais de seis mil similares no mundo. (Hoje a própria USP está em decadência, mas este é um outro assunto.) Diversas outras universidades estaduais e até municipais surgiram em São Paulo, além de inúmeras instituições privadas. E foi assim em todas as áreas. Por exemplo: enquanto na onda da construção de estradas asfaltadas São Paulo fazia as suas, o RS se preocupava em pressionar o Governo Federal para asfaltar nossas vias. Diante desse clima de submissão paternalista, discussões que surgiam sobre a criação de uma universidade estadual aqui não tinham como prosperar. Enquanto isto, outros estados criavam suas universidades, inclusive até mesmo várias por estado, como o Paraná que hoje dispõe de seis universidades estaduais e 85 mil alunos. Comparações com a UERGS chegam a ser ridículas, quando a nossa instituição com pouco mais de dois mil estudantes, é a menor dentre as quase 50 universidades estaduais em todo o Brasil.

Méritos sejam dados ao Governo Olívio ao criar a UERGS, apesar de ter sido esta uma exigência do PSB para participar da Frente Popular, pois até no PT havia muita resistência. Avanços mínimos, mas insuficientes, ocorreram no Governo Rigotto. Na gestão Yeda ocorreu um verdadeiro caos, não só na UERGS, mas em todas as nossas já depauperadas instituições estaduais. A comunidade gaúcha e o Governo do Estado precisam fortalecer a pesquisa científica estadual, integrar a EMATER e avançar com a UERGS. Estas instituições, conjuntamente, poderão trabalhar pelos interesses verdadeiramente gaúchos, sem desmerecimento às instituições federais e privadas, mas que estas trabalhem sob nossa liderança, diferentemente do que tem acontecido ultimamente. Ou o RS realmente será apenas corredor do Mercosul. Faltam recursos? Remeta-se àqueles tempos e se verá que as dificuldades eram muito maiores. Então, o que está faltando?

Nada mais do que vontade política, o que não deve faltar ao futuro Governador. Mas a recuperação do Estado, tarefa hercúlea, inexoravelmente passa pela diminuição das desigualdades regionais e para isto é preciso ter coragem de se fazer justiça para com as Regiões da Campanha e Fronteira Oeste, tão esquecidas nas últimas décadas e ao mesmo tempo tão estratégicas nas nossas relações com o MERCOSUL. Este é o grande desafio de Tarso Genro.


O ENEM SOB A MIRA DOCRIME ORGANIZADO

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 09 de novembro de 2010

 
As fraudes nos concursos públicos não têm ficado apenas na desconfiança. São inúmeros os exames de seleção que têm sido anulados por este motivo, fora aqueles, provavelmente a maioria, que jamais foram descobertos. No ano passado foiamplamente divulgada a fraude em dezenas de prefeituras gaúchas, descobertas pelo Ministério Público, quando protegidos de governantes e políticosconseguiam classificação, quando não pelo conhecimento antecipado das questões da prova, pela alteração da nota final, deixando para trás os realmente capazes.

Afora as fraudes que ocorrem nos processos de seleção em todos os níveis, que desmoralizam os concursos públicos, criou-se no Brasil uma verdadeira “indústria do concurso público”. Tem sido muito comum as prefeituras e as câmaras de vereadores abrirem editais de concursos, com preços para as inscrições relativamente caros, onde milhares de cidadãos concorrem à “meia-dúzia” de vagas. E quando estas não estão destinadas à clientela dos políticos e governantes corruptos, muitas vezes os classificados não são chamados até que o concurso perca a validade.Com isto, tais instituições e as empresas encarregadas dos concursos arrecadam altos valores à custa do sofrimento alheio, de quem gasta tempo e dinheiro se preparando para conseguir um trabalho para sustentar honestamente sua família. É inimaginável os bilhões que correm soltos em propinas por todo país nessa indústria de concursos públicos, onde o crime organizado deve ter uma quantidade de ações significativa...

O exame do ENEM surgiu como uma “galinha dos ovos de ouro”, para fornecer preciosas informações para toda a sociedade, com potencial de resolver uma enorme quantidade de problemas e para promover uma economia de recursos incalculável. E eliminando ou diminuindo drasticamente a possibilidade de fraude, se a idéia avançar, finalmente se começará a fazer justiça a quem realmente quer trabalhar e tem competência. E logo se abrirá espaço para que o ENADE também se transforme em instrumento de seleção de profissionais superiores recém saídos da universidade.

Imaginemos o quanto economizaria a União e os estados, utilizando o ENEM como vestibular! E as universidades particulares que também podem utilizar este exame para seleção!

E mais: qualquer instituição pode utilizar o ENEM para selecionar trabalhadores! Os governos federal e estaduais; as prefeituras; as câmaras de vereadores e até mesmo a iniciativa privada, como já tem acontecido, podem utilizar esta ferramenta.Inúmeras pessoas de todas as idades e até mesmo com curso superior, realizaram essa prova neste ano, já que muitas empresas estão selecionando e contratando pessoal pela nota do ENEM.

Agora vejamos: No ano passado já houve problemas com o ENEM. Neste ano ultrapassou-se o limite do absurdo. Por incrível que possa parecer o grande problema foi de um surrealismo incrível (com perdão da redundância). Houve inversão de cabeçalhos para as respostas e questões repetidas, confundindo todos!

Ora, todos nós conhecemos a incompetência de grande parte de nossas instituições públicas, mas ao ponto de ninguém conferir a prova (ou foi conferida e depois veio a fraude?) antes da impressão, ocorrendo erros grosseiros, detectável por qualquer criança do ensino fundamental, é, no mínimo, suspeito.

Ninguém é suficientemente ingênuo para não acreditar que houve safadeza no processo e que tais erros possam ter acontecido de maneira propositada, por quem quer desmoralizar o ENEM para não perder esta mina que é a “indústria dos concursos”.

Está aí uma ótima oportunidade para o Ministério Público mostrar a que veio; e parece que não há outra saída senão a anulação do exame do ENEM.

O mais incrível de tudo é que a indignação da população é mínima, o que na verdade é explicável. Como já nos tornamos tolerantes demais, até mesmo com as roubalheiras (reporte-se às últimas eleições), dificilmente o assunto vai ser adequadamente resolvido e começará imediatamente um grande movimento contra o ENEM, certamente promovido pelos próprios responsáveis pelos acontecimentos.

Não querem entregar a “galinha dos ovos de ouro”, que chegou a ficar com o povo. Mas no Brasil ela não botaria um ovo sequer: ficaria girando num espeto dessas assadeiras. E o ENEM já está sendo assado ou fritado, como se costuma dizer.

E o crime organizado vai vencer novamente, como sempre tem acontecido em nossa Nação. Com o ENEM desacreditado, tudo deverá voltar a ser (se chegou a ser...) como era antes...

 


A DITADURA DA BUROCRACIA 

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 01 de novembro de 2010.

 Nos primórdios da civilização humana, há mais de 10 mil anos atrás, os seres humanos inventaram a agricultura, surgindo a primeira sociedade organizada: a Sociedade Escravagista.

Já nesta época surgia um grupo intermediário entre o senhor e os escravos, encarregado de fazer valer a vontade da primeira classe dominante da história da humanidade. Desde o início este grupo, ou classe especial, com a experiência que foi acumulando, acabava por resolver questões que a classe dominante, acomodada a uma situação privilegiada, não tinha conhecimento suficiente para solucionar.  

Durante o feudalismo, o que menos a nobreza se preocupava era em trabalhar e estudar, já que tais intermediários faziam tudo, inclusive as leis, de conformidade com os interesses da classe dominante, mas aumentando cada vez mais o poder da classe especial,  intermediária entre os feudais e a plebe.

Na Sociedade Burguesa, terceiro estágio de desenvolvimento das sociedades humanas, esta relação de intermediária entre a classe dominante e os trabalhadores, avançou e se tornou cada vez mais sofisticada. Hoje, no quarto estágio da sociedade humana, na sociedade tecnológica, ainda sem uma denominação, a classe especial definitivamente fez refém todas as classes sociais. Altos impostos, legislação rígida e difícil de ser cumprida, levam as empresas ao descumprimento dela, tornando-as cada vez mais reféns dos agentes fiscais, do ministério público, da magistratura, dos tribunais de contas e outros. Alguém tem dúvida de qual seria o vencedor entre um empresário e um agente do Poder Judiciário? Se for o primeiro, desconfie...

Atualmente essas condições referidas acima se tornaram explícitas, pois esta classe especial de burocratas conseguiu institucionalizar sua dominação. As empresas, aos milhares vão à falência; os trabalhadores, com salários vis perdem o emprego, mas para esta classe especial nunca existe crise econômica.

Nos países do Terceiro Mundo, como o Brasil, que patina sem sair do lugar, conseguiram, com FHC, institucionalizar a dominação, classificados como funcionários de carreira, levando o restante do funcionalismo federal, estadual e municipal, à condição de funcionários de segunda classe.

A chamada Lei da Isonomia Salarial foi para o espaço definitivamente, não havendo mais possibilidade reclamar na justiça, ainda mais que são eles, a classe especial dominante, que decide tudo na sociedade. Para completar o domínio, trouxeram para o grupo os militares de altos postos, os delegados de polícia e outros.

Hoje a coisa se tornou tão vergonhosa que não dá para entender a falta de capacidade de indignação da população explorada. Editais dos estados ou do Governo Federal anunciam, sem nenhum pudor, concursos para profissionais, onde se exige apenas uma graduação, com salários que vão de 15 mil a mais de 20 mil mensais, enquanto outros concursos, com exigência de doutorado os salários máximos são pouco maiores que seis mil reais brutos! E os professores do ensino fundamental e do segundo grau? Não conseguem salários maiores do que dois mil reais, mesmo com mestrado e até doutorado.

Quantas e quantas vezes, os governos já atrasaram os salários dos funcionários públicos? Muitas, mas “eles” nunca receberam com atraso. Fazem cumprir a lei e quando um funcionário de segunda classe entra na justiça, nunca consegue ganhar a causa.

Um exemplo surrealista, mas verdadeiro, foi a questão das URVs. O Poder Judiciário, Ministério Público, Legislativo, Tribunal de contas dentre outros, conseguiram receber os atrasados integralmente, por medida administrativa, sem necessidade de entrar na Justiça e gastar com advogados. Os demais funcionários tiveram que entrar na justiça e depois de muitos anos, o que aconteceu?  Pasmem, pelo menos: juízes que receberam 500.000 reais de atrasados negaram o benefício aos demais trabalhadores!!!!!  Sobre isto, jornal Estado de São Paulo publicou um artigo sob o título “O escândalo das URVs” em 2007. Tratava do ocorrido no RS, mas aqui, nenhuma referência na mídia, também refém.

Mas esta relação é mais complicada do que parece. Se toda a sociedade está refém desta classe especial, entre “eles” existem interações complicadas. Devido à corrupção generalizada, que inclui principalmente estes poderes, uns se tornam reféns de outros. Por exemplo, os deputados de todos os partidos, um grande maioria, não têm como vencer uma eleição sem fazer “caixa dois” e por isto são também reféns, principalmente do Poder Judiciário e do MP. É só observar que os projetos de reajustes e aumentos reais dos maiores salários são quase sempre aprovados por unanimidade. Já se viu algum professor reclamar de “seus” deputados? Infelizmente nossos sindicalistas se tornaram cabos eleitorais de políticos, vislumbrando cargos e oportunidade de concorrer eleitoralmente. Não mais defendem os interesses dos trabalhadores.

Infelizmente só nos pequenos partidos é possível encontrar ética e honestidade, enquanto não crescem, dado a que nossa população, em sua grande maioria, está contaminada pelo vírus da corrupção, tanto que elege e reelege corruptos, não importando o tamanho do roubo.

Vejamos a experiência do PT, quando o partido era pequeno, quando conseguiam dinheiro para as campanhas políticas entre os militantes e através de campanhas junto à população. E o partido cresceu. Mas isto fez crescer muito mais os olhos dos oportunistas que acabaram entrando no PT, mesmo com grande discordância. Tomaram conta e a idéia de que “os fins justificam os meios” passou a ser vencedora.

A semente do PT morreu e o que hoje se colhe no PT são as sementes dos inços que infestaram aquele cultivo original. Os pequenos partidos se quiserem um dia ser instrumentos da verdadeira transformação, devem fazer como os agricultores caprichosos: plantam suas sementes e impedem que os inços tomem conta da lavoura. Não adianta colher por colher: o que importa é colher o que se plantou.

 


PERSISTÊNCIA NO ERRO

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 25 de outubro de 2010.

 

Era o ano de 1989 e estávamos nós, pesquisadores do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Equador, Guatemala, um de cada país, enfim, da América Latina, num curso de biotecnologia na Universidad Nacional Heredia (Costa Rica), promovido pela Agência Internacional de Energia Atômica. Todas as noites, na hora do jantar, para descontrair, a preferência de todos era por anedotas. As nossas, principalmente de português, eram as preferidas; as que mais faziam rir. Vivíamos no Brasil um período eleitoral (Collor x Lula) e o último plano Sarney, que congelou o preço de tudo, inclusive dos combustíveis.

No último dia do curso, cada um de nós, fez sua apresentação, relatando propostas de pesquisa e dificuldades encontradas em seu país. Quando chegou a nossa vez, falamos das dificuldades imensas de se fazer pesquisa numa nação vivendo crises uma atrás da outra. Após a apresentação, a primeira pessoa a fazer questionamentos foi a reitora da referida universidade que se disse surpresa, pois a notícia que corria é que finalmente a inflação estava dominada no Brasil e que o congelamento de preços estava funcionando. Respondemos que esta certamente seria mais uma tentativa em vão e contamos, para exemplificar, uma cena recente no noticiário da TV. Com o congelamento do preço da gasolina, todos tiraram os carros da garagem para ir ao trabalho. Durante um grande engarrafamento em São Paulo o repórter perguntou a uma senhora que já estava presa por duas horas no trânsito e que confessou que antes do congelamento ia de ônibus, quanto tempo ela demorava em chegar ao trabalho num coletivo. Ela, rindo, respondeu que levava apenas 20 minutos. Completamos que isto estava ocorrendo em todas as áreas e que, como das outras vezes, o plano iria falhar. Imediatamente a reitora perguntou: “E como vocês têm coragem de contar anedotas de português?” Foi uma gargalhada geral...

Há décadas o Brasil se vale do horário de verão, por suposta medida de economia de energia e para evitar colapso. A realidade tem sempre mostrado que a economia ocorre só no Sul e chega a apenas 5%, o que corresponde, no nível de Brasil, a tão somente 0,5%! E os prejuízos? Não são computados? Há que se ressaltar que o Brasil é o único país equatorial no mundo que utiliza o horário de verão...

Muitos dizem que as únicas beneficiadas são as grandes empresas e que os trabalhadores em geral acabam com uma conta maior de energia, por terem que levantar mais cedo para trabalhar, quando ainda está escuro.

Levantando mais cedo, trabalhadores e estudantes chegam cansados e sonolentos para o batente. Os acidentes de trânsito aumentam e o rendimento dos estudantes diminui sensivelmente, como atestam os professores. Até mesmo os acidentes de trabalho são mais comuns nessa época. Os defensores desta medida dizem que basta deitar uma hora mais cedo. Entretanto, é durante este período que a tendência é dormir mais tarde, devido ao calor e sentir vontade de ficar um pouco mais na cama pela manhã, quando a temperatura fica mais amena. Assim, o déficit de horas de sono torna-se maior do que esta uma hora que se adianta o relógio. E para piorar, programas de TVs, shows, partidas de futebol e outros acabam saindo mais tarde...

Depois de tantos anos, será que medidas de racionalização de energia e fomento ao uso de energias alternativas não teriam resolvido este problema, com uma economia de energia bem maior do que os 0,5%? Obviamente que sim. Será que somos tão ineficientes que trinta anos seriam insuficientes para convencer a população da importância do uso de energia alternativa como a do sol nas residências e mesmo em prédios públicos como escolas e outros? A falta de financiamento seria uma desculpa esfarrapada, quando no Brasil se financia automóveis por até 60 meses, aumentando o gasto de energia e a poluição do ar que respiramos.

Infelizmente o Brasil parece ser um país de tontos, onde não se consegue estabelecer prioridades. Fosse diferente e a prioridade fosse a educação, por exemplo, jamais se adotaria este horário de verão, que compromete o futuro desta nação. E é preciso lembrar que este é o único país equatorial no mundo que adota tal medida, que resulta em míseros 0,5% de economia de energia, mas que deve dar prejuízos aos bilhões, sem considerar as vidas humanas que são ceifadas em acidentes.

No Japão, onde a economia de energia seria grande, esta medida não foi aprovada e sabem qual a razão? Porque os estudos demonstraram que haveria prejuízo ao aprendizado dos estudantes. Lá realmente a educação é prioridade, tanto que o imperador, desde séculos, curva-se somente diante dos professores ao cumprimentá-los.

Há de chegar um dia, quando esta tonteira passar, em que concluiremos que tivemos um imenso prejuízo ao adiantar o relógio e que haveria economia e menor desperdício de vidas se tivéssemos atrasado em uma hora os relógios, proporcionando a todos mais descanso, aproveitando as horas mais amenas para se dormir. Um “pequeno” engano de somar ao invés de diminuir...

Como se diz popularmente, errar é humano, mas persistir no erro é burrice; e um dia, certamente algum brasileiro terá também que “pagar o mico” quando alguém de outro país lhe perguntar ironicamente: “E como vocês têm coragem de contar anedotas de português?”

 


GREVE CONTRA QUEM MESMO, CARA-PÁLIDA?
 

Prof. Dr.Luiz Alberto Silveira Mairesse

18 de outubro de 2010 

 
Estamos no limiar do terceiro para o quarto estágio de desenvolvimento humano, quando os avanços da ciência e tecnologia (C&T) exigem transformações radicais nos paradigmas até agora utilizados como base para o funcionamento adequado das sociedades. As condições materiais oriundas desse progresso têm sido até agora determinantes nas relações entre os homens. Os partidos políticos são, por exemplo, resultados das mudanças dependentes das condições materiais que vão surgindo ao longo da história. Não são eles que promovem mudanças: apenas as administram. Por esta razão é que hoje os partidos, em todo o mundo, estão completamente defasados, destituídos de conteúdos que os diferenciem entre si, não representando mais o momento histórico. Estão na fase de senescência. E não adianta tentar revigorá-los. No Brasil temos o exemplo do PT, PSB, PCdoB e outros, que hoje fazem parte de um governo de coalizão com quase todos os demais partidos, de tal forma que praticamente não mais existe oposição; como se o País estivesse às mil maravilhas, quando, pelo contrário, vivemos a maior crise de toda a história, tanto moral, quanto social e econômica. Estamos hoje num dos piores países do mundo, mas mesmo assim somos considerados um dos povos mais alegres do Planeta... Mas também um dos mais alienados...

O PT descumpriu seu programa (e não poderia cumprir mesmo), incorporando aquilo que combatia, indo mais além, ganhando o campeonato da corrupção. Os pequeninos PSTU, PSOL e outros, julgando-se baluartes do socialismo, prometem retomar o que foi perdido, refazendo a caminhada que o PT percorreu, antecipando que fariam o mesmo se chegassem ao poder também. As condições materiais mudaram. Estamos já vivendo um novo estágio de avanços científicos e tecnológicos, que estão nos dando um novo norte. Não há que se olhar mais para a direita ou para a esquerda defasadas, mas sim para frente. À vanguarda. E se tudo se altera a cada novo estágio, tem sido ainda as condições materiais que nos impelem a realizar as mudanças.

Defasados como instrumentos, todos os partidos políticos perderam então as condições de estabelecer estratégias e até mesmo táticas para defender os interesses sociais que dizem representar. E como não poderia deixar de ser, as greves, coordenadas pelos partidos e sindicatos, não só se tornaram inócuas, como também prejudiciais aos próprios cidadãos a quem deveriam beneficiar em última instância. As greves dos professores têm beneficiado estudantes e pais? E as dos bancários têm favorecido assalariados e aposentados que têm os seus salários depositados? Os doentes que procuram os hospitais têm melhorado seu atendimento com as greves dos médicos e funcionários? Milhares e milhares de páginas que foram escritas, defendendo o instituto da greve como instrumento de pressão contra os patrões (e aí se incluem os governos) para melhorar as condições de vida dos trabalhadores e da sociedade enfim, também estão ultrapassadas.

Os professores chegam a ficar meses em greve e acabam voltando sem conseguir nada, a não ser ter que recuperar aulas, quase sempre de forma inadequada (para não dizer com aulas “frias”). E assim o ensino público (onde geralmente ocorrem as greves) vai de mal a pior. A Justiça faz vistas grossas, pois o Judiciário, mais preocupado com seus próprios salários, não quer correr o risco de ver a garantia de sua fatia escandalosamente desproporcional do orçamento do Estado sendo discutida em praça publica.

Quando os bancários fazem greve, nossos salários ficam retidos no banco, mas nossas contas continuam sendo acrescidas de juros; e as empresas seguem depositando, compensando cheques e fazendo aplicações. Com isto os depósitos dos bancos só tendem a aumentar à custa dos salários dos clientes, muitas vezes vivendo situações terríveis por não poderem fazer retiradas de dinheiro para as necessidades mais básicas.

E quando os hospitais param, doentes, certamente os mais pobres, morrem nas filas por falta de atendimento. E ninguém tem coragem de “botar o dedo na ferida” do sistema, pois para certas categorias as coisas vão de ótimo para melhor. 

Com nossa “ingenuidade tupiniquim”, só podemos perguntar: Greve contra quem mesmo, cara-pálida?

Ninguém é contra a luta por melhores salários. Pelo contrário: tem sido a luta por melhoria nas condições de vida, gerada pelas perspectivas criadas pela C&T, que tem obrigado os empresários a aumentar a produtividade, possibilitando pagar melhores salários. Por isto os trabalhadores do Primeiro Mundo recebem muito mais do que nós. O que não funciona mais é este tipo de greve, que só tem promovido a antipatia geral da população. O que fazer então? Esta é uma outra questão, que envolve também reformulação de conceitos. E esta é uma discussão muito complexa, pois ainda faltam alguns elementos. Mas não há como protelar mais.

 


PRESIDENTA OU PRESIDENTO?

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 11 de outubro de 2010.

 
Se cientistas, médicos, engenheiros, advogados, veterinários, agrônomos e tantos outros já fizeram besteira, por que os especialistas no nosso idioma não poderiam também fazer? Entretanto, talvez o idioma seja a coisa mais sagrada que uma nação possui como resultado de toda uma história construída ao longo de milênios e por esta razão é um dever de todos defende-lo com unhas e dentes.  É bem verdade e é por isso que um idioma não é uma coisa estática, mas esta é exatamente a razão porque devemos tratá-lo com o máximo de cuidado.

José Ingenieros, em sua obra O Homem Medíocre classifica os seres humanos em idiotas, vulgares, medíocres, idealistas e gênios. Se a mediocridade é uma espécie de ponto de equilíbrio, a vulgaridade pode significar a decadência, mesmo antes de se chegar ao apogeu. E parece que é isto que está acontecendo no Brasil, quando os vulgares assumiram o lugar dos medíocres. Desde então, cada vez mais, tudo passa a ser vulgarizado: os crimes, os acidentes, a corrupção e a própria vida. E quando a vulgaridade toma conta a zorra total se estabelece.  

Ingenieros diz que a vulgaridade aponta para o passado e, mais do que burra, é teimosa e cega. Hoje instituições vulgares lutam contra os avanços científicos sem nenhuma base de conhecimento, senão o fanatismo e a demagogia. Tentam solucionar problemas do presente com soluções do passado e prometem uma sociedade igualitária fundamentada em que o politicamente correto não precisa ser cientificamente verdadeiro. E se esquecem que o que não for cientificamente válido desmorona logo ali, como a história tem demonstrado.

Criam-se as cotas raciais e sociais para entrar na universidade pública, quando a ciência demonstrou que não existe raça humana; e os negros, indígenas e pobres são menos preparados porque são obrigados a freqüentar o ensino fundamental e médio públicos, cada vez piores. E os governos, ao invés de melhorarem o ensino na base, que já foi melhor que o privado, cortam verbas da educação e acham como solução fabricar diplomas, como se uma folha de papel com carimbo do MEC fosse resolver os problemas de todos. Dá para comparar com as leis brasileiras, que se fossem viáveis e cumpridas, tornaria este país num paraíso. E as soluções de papel tomaram conta do país. Nunca são cumpridas nem solucionam nada, mas criam expectativas e é isto que interessa à vulgaridade institucionalizada. E o que se vê é a ultrapassagem das raias do surrealismo, caindo-se no ridículo do extremismo do politicamente correto.

Os negros brasileiros não são mais negros, mas afro-brasileiros, como se a palavra “negro” fosse uma ofensa. Há coisa mais racista do que chamar os negros de afro-brasileiros? Só falta sugerirem a mudança de nome do Movimento Negro para Movimento Afro-brasileiro.

A vulgaridade alcançou também o movimento feminista, quando líderes e apoiadores confundem igualdade com padronização.  Ser diferente não significa obter mais ou menos direitos. A mulher, ou melhor, a fêmea, é biologicamente superior ao macho, tanto que nem sempre há necessidade do macho para a reprodução e os filhos, diferentemente do que nos ensinaram, têm mais genes da mãe do que do pai, devido à herança extranuclear. Nem por isso a mulher deve sair da condição de dominada para dominadora.

No extremismo do politicamente correto o CPERS sindicato (RS), um sindicado de professores (!), inaugurou no Brasil a palavra “presidenta” para se referir à presidente da instituição. E até dicionários brasileiros acabaram aceitando esta palavra sem medir conseqüências. O argumento mais utilizado chega a ser pueril: “a palavra presidenta não existia porque a mulher nunca conseguiu ser presidente”. Ora, por este argumento e para ser coerente com a gramática vamos ter gerentas, chefas, agentas, amantas, doentas, pacientas, inocentas, carentas, pestas e outras. Mas também amantos, bestos, hipócritos, ginastos e até bobós (feminino de babás).  

E se Dilma vencer as eleições, teremos uma “presidenta”, como ela e Lula já avisaram. Se for Serra o vencedor, pelo menos Dilma e Lula terão que tratá-lo como “presidento”. Afinal, não existe um só substantivo feminino com terminação”a” no nosso idioma que tenha como masculino terminação “e”. Em regra, palavras que terminam em “e” são usadas para o masculino e feminino e as que terminam em “o” ou “a” geralmente se referem a um ou outra...

Consagrada a palavra errada a partir do mais alto escalão do Brasil, quem poderia dizer que a notícia abaixo contém algum erro?

ASSALTANTA DE BANCO FAZ GERENTA DE REFÉM. A polícia chegou bem na hora do assalto e uma assaltanta tomou a gerenta como refém, por mais de duas horas, quando então se entregou. As investigações conduzem a que se suspeite da chefa da carteira de crédito, pois se descobriu que a melianta é irmã do bobó (que não é de camarão) da filha menor da agenta bancária. Segundo o delegado, uma clienta do banco que mora próxima à chefa, disse que se comenta pela vizinhança que ela é amanta do bobó e que passa por dificuldades econômicas. Ela jura que é inocenta: “o delegado é um pesto, besto e um bosto em fazer tais acusações, pois eu conheço leis, e além de chefa no banco, sou bacharela em direito.” “Ele que vá cuidar de sua mulher que deve estar doenta e carenta, antes que ela sim, arrume um amanto e se torne pacienta de algum ricardão.” O presidento do banco não quis se pronunciar...

Pode parecer um exagero esta preocupação, mas tudo acontece aos poucos. Mudanças de qualidade, que parecem repentinas e pegam de surpresa, são na verdade graduais transformações quantitativas até ultrapassar um determinado limite. Cuidado: sem que se note, aos pouquinhos, podem estar esvaziando seus bolsos ou retirando seus direitos.

 


O DIA DOS BOBOS

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 05 de outubro de 2010.

 

1º de abril do ano de 1964. O Brasil amanhecia na escuridão que durou décadas, criando uma lacuna insuperável entre a juventude daquela época e a que hoje anda feito mosca-tonta a procura de respostas. E, muitas vezes, busca hoje respostas na organização de gangues, de “bondes”, de letras vazias ou cheias de ódios sem saber de quem, de músicas repetitivas e de drogas que satisfazem e substituem momentaneamente a busca de ideais. Ideais que têm um gosto muito mais prazeroso do que as drogas e nos libertam definitivamente, tornando-nos viciados em liberdade. Pois a juventude amordaçada pela ditadura 1964, a partir do dia dos bobos, mas que foi registrada dia 31 de março, para evitar suspeita, teve que ver sua descendência seguir o caminho da superficialidade, da alienação e do desprezo pelo conhecimento. O Brasil, em 1964, chegou numa encruzilhada e infelizmente seguiu o caminho errado.

Estávamos cursando o científico no Colégio Júlio de Castilhos, considerado modelo do Estado. Havia exame de seleção (em todos era assim) para se entrar no “Julinho”. Aqueles de famílias mais abastadas, quando não se classificavam, deixavam os pais entristecidos em ter que vê-los estudar num colégio particular. A qualidade do ensino público era, de longe, muito melhor do que no ensino privado. E o Brasil considerado referência mundial no ensino do Terceiro Mundo. E seria muito mais se o Governo João Goulart, eleito pelo povo, tivesse tempo de transformar colégios modelos em colégios universitários, onde não haveria vestibulares para se chegar à universidade. E era assim em todas as áreas. O Brasil candidatava-se a entrar para o Primeiro Mundo e era então uma ameaça aos Estados Unidos.

Com a Guerra Fria em seu clímax, os norte-americanos conseguiram criar na cabeça da maioria dos brasileiros que quem não fosse alinhado aos EUA, obrigatoriamente seria atrelado à União Soviética. Quem não lambesse as botas dos ianques obrigatoriamente era “comunista” e queria entregar o Brasil à URSS.

João Goulart, grande fazendeiro de São Borja (RS) por propor um Brasil soberano e independente, recebeu o carimbo de comunista. E foi seguidor de Getúlio Vargas, outro fazendeiro do mesmo município, que perseguiu os comunistas brasileiros durante sua ditadura. Leonel Brizola, casado com a irmã de Jango, herdeiro, portanto, de grande fortuna por parte da esposa, também, por não aceitar as imposições dos EUA e por ser o maior interlocutor do movimento nacionalista pela independência econômica e política do Brasil, foi considerado o mais perigoso dos “comunistas”. A história hoje mostra o quanto a população brasileira foi boba no dia dos bobos. Ora, “Brizola comunista”!

E os gorilas, como se chamavam os militares golpistas, que na verdade eram mais cães de guarda do sistema do que mentores, botaram para fora todo o seu ódio e suas taras, batendo, torturando e matando quem porventura fosse “comunista”. Estávamos no Julinho, quando o grêmio estudantil foi fechado por ser “comunista”. Resolvemos fazer uma reunião no Colégio para discutir a situação. A policia invadiu o colégio batendo e ferindo os estudantes, em sua maioria, menores. Mas não importava: eram “comunistas”.

A partir daí os anos de chumbo (literalmente de chumbo) foram terríveis. Com o congresso fechado veio a caça aos comunistas. A TFP (Tradição, propriedade e família) e o CCC (Comando de caça aos comunistas) estavam eufóricos e histéricos em serem deuses julgadores e executores. A palavra Brizola foi proibida. Chegou a haver os que tiveram coragem de gritar “viva Brizola”. Ai deles: no mínimo eram presos e torturados pelo “crime hediondo”. Para aqueles que já estavam sendo procurados a coisa foi pior. Quem não conseguiu fugir foi preso, torturado e até mesmo assassinado. Dizem que a Aeronáutica era a mais terrível e que costumava atirar os presos políticos em alto mar em áreas cheias de tubarões. Houve os que conseguiram fugir para o exterior, mas muitos não conseguiram ou não quiseram sair e tiveram que ir para a clandestinidade. Como se sustentar? E como ficar só se sustentando, sem lutar contra os verdadeiros subversivos, que subverteram a ordem democrática?

Muitos viram seus pais arrancados de dentro de casa e serem levados para nunca mais voltar, simplesmente porque a ditadura encontrou livros de Marx na biblioteca. Os que eram presos sofriam terríveis torturas como choques elétricos nos testículos, afogamento em tonéis, retirada de unhas e dentes com alicates e outros. Na época entramos para o Partido Operário Comunista - POC, ocasião em que pudemos assistir diversos relatos em reuniões secretas. De pessoas que mostravam suas unhas deformadas porque os militares levantavam as mesmas com alicates e colocavam debaixo delas cabeças de palitos de fósforo e acendiam com cigarros, os quais ainda eram apagados em seus corpos quando estavam no fim. Mas a tortura maior que contavam era quando os torturados levavam mães ou esposas para serem estupradas na frente dos filhos ou maridos, para que contassem o que muitas vezes não sabiam...

Nossos militares iam orgulhosos aos EUA para fazer cursos de como torturar sem matar. E o pior: as torturas eram acompanhadas por médicos que determinavam o momento exato para cessar a seção de tortura, evitando que o preso morresse. E esses loucos torturadores têm a coragem de mais do que colocar aqueles que tentaram se defender numa guerra em que eram minoria abismal no seu mesmo nível, fazer crer que os verdadeiros bandidos foram as vitimas que lutaram para defender a democracia brasileira, derrubada violentamente por uma ditadura sanguinária.

Violência gera violência e quem começou foi a ditadura militar que impôs aos perseguidos por opinião o único caminho que foi a resistência. E hoje os saudosistas da ditadura continuam dando a versão da história feita por ela. Os dossiês sobre os presos políticos são tidos como impecáveis. Por eles, Dilma era uma assassina e Serra um terrorista. Dilma foi presa e Serra conseguiu fugir para o exterior.

O que foi a resistência de brasileiros à ditadura financiada pelos EUA senão o exercício da legítima defesa? Se você defender sua casa de um assaltante e na luta com ele matá-lo, você é que é o criminoso?

Ninguém precisa morrer de amor ou de ódio por Dilma ou por Serra, pois seus partidos PT e PSDB têm mais pontos convergentes do que divergentes. O que há é uma luta entre grupos neoliberais representados (mas não liderados) por ambos.

Entretanto, esta insistência em classificar Dilma como uma bandida chega a ser pueril e parece mais uma tentativa de aplicar um “1º de abril” no povo. O povo pode ser inculto, mas não é burro. Quem não sabe, por exemplo, que Nelson Mandela, líder da guerrilha na África do Sul foi responsabilizado por um monte de mortes pelo governo do apartheid e que por isto foi condenado à prisão perpétua? Derrotado o regime racista, Mandela saiu da cadeia para os braços do povo e é hoje seu principal herói. Dirão esses que não conhecem história, diante de uma estátua de Mandela “como pode um povo fazer de um assassino herói”?

Se Dilma tivesse fugido para o exterior e Serra fosse preso, já que estava sendo procurado, a história dos dois poderia ser diferente, com um tomando o lugar que o outro tem hoje, pois a ditadura não dava outras opções.

Que se combata Dilma por seu potencial de administradora da nação e se demonstre as falhas do Governo Lula, mas sempre apresentando soluções.

Alguém já pensou porque o PT nunca defendeu Dilma das acusações de ser guerrilheira? Ora, para um povo sofrido, acostumado com balas perdidas, traficantes e policiais criminosos, uma candidata guerrilheira pode até trazer mais esperanças...

De qualquer maneira, dia 31 de outubro será outro dia-dos-bobos, quando iremos escolher entre um que é igual ao outro e outro que e igual ao um. E com esperança de que tudo vai ser resolvido....

A propósito: um livre pensador se sente como um jornalista extraterrestre. 

 


PORQUE DILMA VAI SER A PRIMEIRA PRESIDENTE

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 28 de setembro de 2010.

 

Com a “abertura democrática” permitida pela Ditadura -64 (como soe acontecer no Brasil, nada se conquista, tudo se permite...) quando até então somente dois partidos eram consentidos (MDB e ARENA), a partir destes, surgiram os partidos políticos hoje conhecidos. Do MDB surgiram o PMDB, PDT, PT, PSDB, PSB, PCB, PCdoB e outros, todos se intitulando, na época, de esquerda. Era comum antes a dupla militância: na clandestinidade e participando do MDB, esperando o momento adequado para subir ao palco político na legalidade.

PSDB e PT logo se tornaram os dois partidos de esquerda mais importantes. Originários do mesmo ninho, quando participavam da luta contra a Ditadura Militar, companheiros de cela e de tortura, escolheram dois caminhos, não opostos, mas muitas vezes conflitantes na busca do eleitorado: a social-democracia e o socialismo. Certamente, apesar de tudo, os historiadores dirão que com Fernando Henrique Cardoso, um marxista ateu, a esquerda brasileira finalmente chegou ao poder.

Adotando um pragmatismo que não se esperava, pelo seu alcance, o PSDB chegou ao poder nos braços da direita (PFL); e surpreendeu a todos pelo amplo programa de privatizações, muitas de caráter nebuloso, contra as quais, na oposição, o PT jurava que iria lutar de todas as formas. Quando chegasse ao poder o Partido dos Trabalhadores prometia não só estatizar os bancos, como iria reestatizar o que o Governo FHC privatizara. E mais: faria uma reforma agrária radical, aplicaria o calote na divida externa (e certamente na interna), enfim, seria o começo da implantação do socialismo no Brasil. Antes faria uma devassa no Governo FHC para punir todos os culpados pela corrupção que se alastrava rapidamente pelo País. Collor virou “trombadinha”, perto do que fez o governo do PSDB-PFL. Mais tarde “trombadinha” viraria anjo, com o que foi feito no governo PT-PL e outros. E Collor, Paulo Maluf, Sarney, Renan Calheiros e Michel Temer viraram anjos da guarda do Governo Lula. Certamente PC Farias, se estivesse vivo, estaria no grupo de “anjos”.

Evidentemente que até a palavra socialismo ficou esquecida, com esta guarda de peso. A devassa no Governo FHC transformou-se em moeda de troca para que a pretensa oposição ficasse calada. Os bancos, não só não foram privatizados, como aumentaram seus lucros e seu poder sobre a economia brasileira. Para isto trouxeram um especialista do PSDB para a presidência do Banco Central: Henrique Meirelles. A reestatização prometida ficou para trás. A Bolsa de Valores nunca rendeu tanto. A reforma agrária reduziu-se a apenas alguns assentamentos, até mesmo em numero menor do que no Governo FHC, tão criticado pelo MST.  O bolsa-escola, excomungado veementemente pelo PT e principalmente por Lula, como eleitoreiro, alienador e demagógico, que seria (e era) uma tentativa do PSDB-PFL de se perpetuar no poder, não só apenas mudou de nome, para bolsa-família, como foi ampliado e é ele que hoje sustenta este grupo que assumiu o poder. Por quanto tempo, não dá para se imaginar.

O que foi então que o PT fez quando assumiu o poder? Simplesmente adotou o filho do Governo FHC e ainda tratou-o com mais carinho. Por ocasião do “escândalo do mensalão” por todos os cantos do país se dizia que havia muito mais motivos para a cassação de Lula do que aquela de Collor. Entretanto, o PSDB que comandava a “oposição” ao Governo Lula “preferiu” optar por minar aos poucos o governo, visando vencer a próxima eleição e também porque, diziam, um impeachment poderia desestabilizar. Pode até este ter sido um dos fatores desta decisão, mas parece que deve ter pesado muito um acordo com o PT para esquecer também a devassa no Governo FHC, prometida na primeira campanha de Lula.

O PSDB esperava que Lula perdesse a eleição por conta do “mensalão”. Esqueceu que brasileiro não se indigna: se resigna. Quantas eleições Paulo Maluf já venceu dizendo que “rouba mas faz”? Para um povo inculto e altamente contaminado pela corrupção, isto é que importa. O Governo Lula então conquistou a imensa massa de pobres no Brasil pelo assistencialismo do Bolsa-familia, herdado do PSDB; e grande parte das elites, por deixar-se levar por ela, pela fiscalização tipo vista-grossa e até mesmo pelo descontrole no combate ao crime organizado, inclusive tráfico de drogas, que aumentou vertiginosamente no Brasil. E quem “pagou o pato” foi a classe média...

Os moderados do PT conseguiram a hegemonia no partido e não só abandonaram a idéia do socialismo, como abraçaram integralmente a social-democracia do Partido da Social Democracia - PSDB. Os descontentes do PT saíram ou foram expulsos, para formarem novos (antigos) PTzinhos, que acabarão por não vingarem ou ter a mesma sina do PT, de virar a casaca quando assumirem o poder. E o que poderia fazer o PSDB? Ir contra seu próprio programa desenvolvido e executado agora pelo PT? Optaram simplesmente por dizer que Lula e o PT copiaram seu programa e deram continuidade ao Governo FHC. Serra então não apresenta nenhum programa de governo. Dilma também não, mas a população se satisfaz quando ela diz que vai continuar o trabalho de Lula. Poderia o Serra dizer que continuaria o trabalho de Lula, que continuou o trabalho de FHC?

Ora, o que a população pode pensar? Por que mudar se os que querem assumir como oposição não têm programa ou pretendem continuar o trabalho de Lula e não se sabe se serão tão eficientes como estes que agora estão no poder?

E se a critica do PSDB é que o Governo Lula copiou seu programa, então aquele não está fazendo oposição a este, mas querendo uma simples troca de nomes Governo. Os demais partidos inclusive o PMDB de Sarney e o PP de Maluf, no governo, não têm condições de fazer oposição. Muito pelo contrário, não têm outra saída senão tentar ampliar sua fatia no Governo Dilma. Muitos dizem temer a vitória de Dilma. Medo do que se Dilma será também, como foi Lula, apenas um instrumento de um grupo de oportunistas que assumiu o poder? Se na Venezuela Chaves calou a oposição, aqui aquilo que poderia ser oposição está com Lula e Dilma.

Dilma vencerá, mas infelizmente, vença ela ou vença porventura qualquer outro, o Brasil é que terá perdido sempre. Não há solução, a não ser que o voto nulo vencesse...

 


 AS CONDIÇÕES MATERIAIS AINDA NOS MOVEM

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 21 de setembro de 2010

 
Materialismo e idealismo se confrontam há milênios, sem até o momento haver um vencedor. E nem vai haver, pois sendo aspectos de uma mesma coisa, são opostos e por assim ser, são complementares. Mas isto não vem ao caso no momento, pois o que se quer dizer é que, por enquanto, há uma verdade materialista, levantada por Marx e Engels, ainda incontestável. São as condições materiais que geram as idéias e não o inverso. São os avanços da ciência e tecnologia que determinam as transformações sociais. É a natureza que se apresenta ao homem para que ele a descubra e “invente”; de tal forma que, o que pretensamente se cria (inventa), na verdade, é cópia do que vem acontecendo desde o sempre.

Por incrível que possa parecer, foram os estudiosos de Marx que tentaram inverter o processo, quando, querendo queimar etapas, quiseram inventar (esta sim, seria uma invenção) o Socialismo Real e assumiram o poder político com idéias de transformar a sociedade e os homens. E o erro resultou em nações que acabaram ficando para trás, sendo superadas amplamente por aquelas que permitiram que o capitalismo avançasse nas suas mais variadas formas. E o resultado hoje se vê: é nos paises capitalistas mais avançados cientifica e tecnologicamente que as desigualdades sociais são menores. E é exatamente nesses países que existem as condições materiais mais propícias para o surgimento de uma nova sociedade, já em formação. E Marx observou isto...

A essência do que Marx nos ensina é que não podemos fugir da análise cientifica e das observações do que ocorre na natureza, para procurar entender melhor o mundo e administrar mais adequadamente as transformações materiais que ela nos proporciona.

Se observarmos a natureza vamos notar que não existe equilíbrio biológico e que a evolução das espécies é uma continua reciclagem promovida pelas mutações e seleção natural, para que os organismos evoluam no seu conjunto com o Universo. As condições materiais vão evoluindo sempre e com isto promovem a evolução inclusive das sociedades humanas, que também ocorre como uma reciclagem.

A evolução das sociedades humanas é como um ponto em espiral ascendente, cuja projeção vai redesenhando uma circunferência. Os mais desavisados acham que a história se repete, quando ela se recicla. Maturana criou uma imagem muito curiosa: a de um carro no atoleiro. “Quem apenas olhar para as rodas do carro nunca vai poder saber se ele está atolado ou em movimento”.

É o que acontece com alguns grupos ambientalistas e partidos políticos filhos de velhos partidos da velha sociedade. Por olharem somente para as rodas do carro no atoleiro ou apenas para a trajetória da projeção do ponto ascendente, apontam para o passado, como se a história pudesse se repetir. Vejamos alguns exemplos.

As plantas medicinais voltam a ter importância, não no preparo de chás e similares, como no tempo de nossos avós, mas à luz dos novos conhecimentos, fornecendo informações para que a ciência crie novos medicamentos através da síntese de novas moléculas mais eficientes ou mesmo na biotecnologia, através da técnica de transferência de genes (transgênese). Como querem alguns grupos ambientalistas, o uso direto das plantas medicinais por uma população de mais de seis bilhões, ao invés de preservar, significaria mais um processo de degradação e extinção de espécies. Para a moderna ciência, as plantas devem ser tratadas como livros numa biblioteca, que se estuda e se devolve às prateleiras; como das plantas se retiram apenas algumas partes para estudo e a partir daí se vai para o laboratório, mantendo-se o vegetal intacto no ambiente.

Com relação à agricultura, propõem uma tecnologia já ultrapassada e insustentável, quando se sabe que para não usarmos agroquímicos, precisaríamos de uma área de terras três vezes maior (e que não existe), para produzirmos a mesma quantidade de alimentos; e pelo não uso de agrotóxicos estaríamos sujeitos a catástrofes como as já ocorridas antes da adoção desta tecnologia, que levaram milhões de pessoas à morte pela fome. Hoje seriam aos bilhões.

Quando foi proposto o plantio direto na palha, sem revolver o solo, foram todos eles contrários à tecnologia que hoje já está consolidada. O que é o plantio direto senão a reciclagem da agricultura nos seus primórdios, à luz dos novos conhecimentos? O homem começou a agricultura com plantio direto, tendo como ferramentas ossos, pedras e madeiras. Hoje, máquinas sofisticadas fazem o trabalho com a ajuda da informática e a chamada agricultura de precisão avança cada vez mais.

E quando a biotecnologia moderna propõe o fim da Era da Química para a entrada na Era Gênica, como uma reciclagem da agricultura orgânica, a maioria dos ambientalistas, que se diz também parte da Revolução Orgânica, não se dá conta que esta revolução está sendo realizada pela adoção dos transgênicos. Afinal, os produtos dos genes são orgânicos. E este equívoco infantil é acompanhado pelos partidos políticos de extrema esquerda. A extrema direita também acompanha, para dar razão a Lênin que dizia que “os extremos se tocam”. O que esperar deles senão os mesmos erros dos velhos partidos?

A proposta de reforma agrária chega a ser infantil, quando buscam a repovoação do campo, trazendo de volta descendentes de agricultores que foram para a cidade há várias décadas. Para serem coerentes teriam que propor, por exemplo, a volta das centenas de milhares de bancários (no caso, seus filhos) que foram substituídos pela tecnologia da informática. E teriam que eliminar os computadores, claro...

Não conseguem se dar conta que os avanços da ciência e tecnologia determinaram mudanças nas condições materiais e que hoje qualquer proposta deve ser feita em cima da realidade do aumento da produtividade, quando a máquina cada vez mais substitui a mão-de-obra braçal. Como previu Marx, para caminharmos rumo a uma sociedade cada vez mais justa.



VELHICE PRECOCE

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

14 de setembro de 2010- São Borja

Desde os primórdios da humanidade, quando nossos ancestrais eram nômades, já existiam os partidos políticos, mesmo que ninguém soubesse disto. Às necessidades surgidas das condições existentes, grupos com opiniões diferentes se formavam para decidir sobre como agir para conduzir a sociedade Comuno-primitiva.  

A primeira e maior de todas as revoluções de 10 mil anos atrás, a agricultura, cujos efeitos ainda se fazem sentir, proporcionou a formação da primeira sociedade organizada: a Sociedade Escravagista. Nela o domínio do homem sobre o homem era o mais agudo possível e certamente surgiram, em função desta nova sociedade, grupos (partidos) com opiniões diferentes na administração do escravagismo e, mais tarde, até mesmo aqueles que apostavam numa nova sociedade sem escravos.

Assim como a invenção da agricultura gerou uma nova sociedade, os novos avanços da ciência e da tecnologia acabaram por criar condições a uma nova sociedade: a Sociedade Feudal, onde o domínio do homem sobre o homem diminuía em agudez. E novos partidos surgiram para administrar o feudalismo.

E se à agricultura, a medicina e a indústria primitivas correspondia a uma sociedade primitiva, os avanços dessas ciências levaram à construção do feudalismo. E o homem não parou mais. Continuou a descobrir e inventar cada vez mais, a tal ponto que chegamos a uma nova revolução: a Revolução Industrial, também conseqüência da Revolução da Agricultura. E veio a Sociedade Capitalista, onde o domínio do homem sobre o homem diminuiu mais ainda. É evidente que tal domínio se alterou na forma, porém não, relativamente, em sua essência, em seu conteúdo... E os partidos políticos do feudalismo se defasaram. Novas necessidades geradas pela Revolução Industrial, que forçaram a que surgisse o capitalismo, enterraram os velhos partidos; e outros modernos surgiram para administrar as novas mudanças.

Há um antigo erro, que se repete, que é o de achar que partidos políticos transformam, quando na verdade “só” administram as transformações. Este erro levou à tentativa de partidos políticos pretenderem queimar etapas para construir uma nova sociedade. E o que se viu em tais nações foi ter que voltar atrás, em condições piores à própria sociedade que combateram...

Nas últimas décadas o ser humano descobriu e criou mais do que a soma de tudo que a humanidade construiu em toda a sua história. E uma nova sociedade já surgiu, em que o Conhecimento (o Trabalho) passou a superar o Capital. E já há algumas décadas os países desenvolvidos detectaram isto, tanto que criaram um programa especial para impedir que o Terceiro Mundo desenvolvesse tecnologias estratégicas, ou seja, que avançassem no conhecimento. Hoje, por exemplo, não adianta alguém ter capital se não dispuser de conhecimento.

A nova sociedade, ainda sem denominação, já surgiu, onde basta o conhecimento para gerar o desenvolvimento econômico e social, mas os partidos políticos, surgidos na velha sociedade e, portanto, defasados, não são capazes de apresentar propostas às novas questões emergidas. Por isto não há sequer um partido que seja coeso em convicção sobre os assuntos atuais mais urgentes. E quando o são, carecem de base científica.

Nas questões ambientais; no uso da energia nuclear; sobre os avanços da biotecnologia e os transgênicos aplicados à indústria, medicina e agricultura; com relação às técnicas de clonagem; na pesquisa com células-tronco; sobre florestamento; a respeito de bioenergia; sobre os avanços na informática; na nanotecnologia; enfim, questões novas em que até mesmo a própria legislação acabou ficando defasada.

Se não há partido que aponte para o futuro, há os pretensamente novos (PSTU e PSOL, por exemplo) que, ao invés de propor avanços, apontam para o passado.

Se deveriam propor reforma agrária numa situação onde a tendência natural é o esvaziamento das zonas rurais, pela necessidade de aumentar a produtividade, propõem o repovoamento do campo.

Se, como pretensos marxistas, deveriam incentivar os avanços tecnológicos que obrigam as sociedades a se transformarem (como se referia Marx) são extremistas e se acham radicais, como se tais palavras fossem sinônimos.

Exemplificando, um determinado partido de extrema esquerda recentemente “decretou”: “não use agrotóxicos, eles são venenos”. Sim, são venenos, mas em sendo radical, indo às raízes dos problemas, ver-se-á que por enquanto não há como deixar de usar agrotóxicos. E que existem agrotóxicos nos mais variados níveis de toxicidade e que, sendo usados adequadamente, podemos maximizar seus benefícios e minimizar seus riscos. Não é possível, neste caso, sendo radical, tomar decisão extremista de eliminar o agrotóxico de vez. As plantas transgênicas resistentes a pragas avançam cada vez mais, mas durante vários anos ainda vamos ter que conviver com tais produtos químicos. Tivessem tais partidos pressa na adoção desta nova tecnologia, seria compreensível. Mas incrivelmente são contrários à biotecnologia em geral e praticamente a todos os avanços científicos e tecnológicos que estão surgindo atualmente.

Assim, se todos os partidos estão defasados, os novos partidos de extrema esquerda que apontam para o passado e que, portanto, são reacionários, vivem situação pior. Apontando para soluções pré-capitalistas, são como crianças que nasceram com a doença genética do envelhecimento precoce.

Resta-nos apostar em partidos verdadeiramente novos, que surgirão sem os vícios e as doenças genéticas dos velhos partidos, por não nascerem desses, mas sim das verdadeiras necessidades da nova sociedade, que se não floresceu ainda, já germinou há tempo e está em pleno crescimento. Fica a curiosidade de saber como será a esquerda e a direita na nova sociedade.


O SOCIALISMO MORREU OU NEM CHEGOU A NASCER?

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 07 de setembro de 2010.

 
 “De cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com seu trabalho.”

Quem seria capaz de discordar dessa frase acima? A sociedade quer de cada um de acordo com sua capacidade. E cada um recebe de acordo com seu trabalho. Nada mais justo: trabalha mais e melhor, ganha mais. Ninguém discordaria disto, certamente.

Que empresa não busca isto, ou seja, aproveitar todo o potencial de seus funcionários?

Pois esta é a fórmula marxista do socialismo, considerado o primeiro estágio do comunismo.

Mas por que então, mesmo chegando ao poder em vários países, os partidos do socialismo não conseguiram se manter e o que resultou foi o atraso e a piora das condições de vida dos trabalhadores, comparativamente com os outros países ditos capitalistas, que acabaram por formar o chamado Primeiro Mundo?

Nos tempos de Marx, o “socialismo cientifico” proposto se opunha ao chamado “socialismo utópico”. Marx não o condenava, mas apenas demonstrava a inviabilidade do mesmo. Esperar que as pessoas compreendessem umas às outras e se convencessem da necessidade de justiça social realmente era utópico para aquela época. Quanto tempo esperar? 100 anos? 200 anos? Dizia-se então (e há bem pouco tempo) que a cabeça do homem é a última a mudar. Então primeiro se faria a transformação para depois transformar os homens em socialistas.

Entretanto as necessidades históricas cobraram muito caro pelas tentativas de queimar etapas.

Se a cabeça dos homens é a última a mudar, quem provocava as mudanças então? Ora, os pretensos “iluminados”. Depois se achava que seria muito fácil. Como a educação era considerada prioridade máxima, se ensinaria aos homens, desde a mais tenra idade, a serem socialistas. E vieram as cartilhas, a disciplina dita socialista, as proibições e as punições para os “crimes” de opinião. Dizia-se que primeiro se construiria a democracia social para depois se chegar á democracia política (como se uma não fosse irmã gêmea da outra). Mas o que é uma cartilha senão um pretenso conjunto de verdades incontestáveis? Cartilha não educa: adestra. E o ser humano não nasce para ser adestrado, mas para ser livre. Educação é o exercício do contraditório e isto era proibido. E aquilo que se criticava nas religiões mais retrógradas acontecia nos regimes do “socialismo real”, nova nomenclatura para dizer que este era o socialismo possível. E então se acabou exigindo mais do que as habilidades de uma maioria e pagando muito menos por seu trabalho. Já no grupo que governava se pagava mais do que seu trabalho e se exigia apenas fidelidade ao partido único. E multidões se filiavam para tentar usufruir das benesses do poder. As perseguições não ficaram apenas contra os de fora, mas, como todo o autoritarismo, punia severamente, até mesmo com a morte, os chamados dissidentes do partido. E a produtividade em todos os setores da economia descia a níveis de antes da revolução.

Os resultados hoje conhecidos são incontestáveis. Não há comparação em qualquer nível que seja, entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte. A Alemanha Ocidental acabou pagando uma conta altíssima pela unificação com a Alemanha Oriental, atrasadíssima. Vimos a URSS implodir e os povos dos países do Leste Europeu se apressarem em se livrar do jugo dos partidos comunistas, que administravam o “socialismo real”. Na URSS, ao invés da união das 15 repúblicas, o nacionalismo foi ainda mais exacerbado e muitas delas se tornaram inimigas umas das outras.

Enquanto tudo isto ocorreu, fomos vendo que era exatamente os países do Primeiro Mundo, onde se dizia que os trabalhadores eram explorados pelo capitalismo, que mais se aproximavam  da fórmula marxista do socialismo. Hoje se vê claramente que é nos países mais avançados cientificamente e tecnologicamente que existe mais igualdade e justiça social, independentemente do partido político que governa.  

As coisas no mundo poderiam estar bem melhores do que hoje, se não fosse o grande inimigo do socialismo: o falso socialismo.

Aqui no Brasil, por exemplo, de Fernando Henrique a Lula perdeu-se a oportunidade histórica de se construir uma sociedade mais justa. Pelo contrário, as idéias de justiça social deram lugar ao assistencialismo, clientelismo, populismo e, por conseguinte, à corrupção. Como aconteceu no México das tortillas distribuídas gratuitamente para manter o partido no poder por mais de 50 anos, no Brasil o Bolsa-família, idealizado pelo PSDB e ampliado pelo seu irmão, o PT, é um projeto para comprar a grande massa inculta e pobre da nação por muitas décadas.

Quando FHC criou esse programa Lula disse: “Lamentavelmente nós temos uma parte da sociedade que pelo alto grau de empobrecimento é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça.” “É por isto que se distribui tanta cesta básica, tanto ticket de leite, porque isto é na verdade uma peça de troca em época de eleição; e assim você despolitiza o processo eleitoral e você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil.” “E você tem como lógica a política de dominação, que é secular no Brasil.”  Já, como presidente, Lula defende com veemência o programa que ele herdou e ampliou:  “...tem gente tão imbecil que diz que o Bolsa-família vai deixar as pessoas preguiçosas...”  Quando Lula foi sincero, antes ou depois? Imbecil quem, cara-pálida?

Ora, enquanto forem esses os representantes do socialismo no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, no Equador e outras republiquetas, as classes dominantes podem dormir tranquilamente em berço esplêndido, enquanto, gratuitamente os pseudo-defensores do socialismo trabalham para manter a dominação. Ao mesmo tempo os filhotes que estão surgindo (PSTU, PSOL, PCO) já nascem igualzinho ao pai quando criança, combatendo os avanços da ciência e da tecnologia, esquecendo-se que o próprio Marx já dizia que a sociedade socialista seria tecnologicamente muito mais avançada que o capitalismo. O avanço científico e tecnológico é uma condição sine qua non na construção do socialismo. E Marx dizia que quanto mais avançada tecnologicamente uma sociedade capitalista, mais próxima do socialismo ela estaria...

Utopias são propostas fora de época. Ao apontar para o passado, querendo reverter os avanços tecnológicos os partidos de extrema esquerda atuais não são utópicos, mas reacionários. A utopia aponta para o futuro.

Não terá chegado a vez do socialismo utópico, apontando para o futuro que parece ter chegado, que queria educar para transformar e não, como tentou fazer o socialismo real, transformar para educar?

ALGUMAS CONTRADIÇÕES GROSSEIRAS DO FALSO AMBIENTALISMO

 Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
São Borja, 31/08/2010.

 
Se fossem complexas as contradições de setores do movimento ambientalista, seria plenamente compreensível: afinal, quem ou que organização não tem suas contradições. Entretanto as incoerências principais são tão facilmente detectáveis, que custa acreditar que não tenham explicações em projetos outros que nada tenham a ver com a proposta de preservação e recuperação do ambiente. Senão, vejamos alguns exemplos:

O uso da energia nuclear foi e tem sido atacado sistematicamente, quando se sabe que esta fonte de energia é a mais limpa que se dispõe. Westinghouse já dizia que a única emissão de gás carbônico das usinas de fissão nuclear provém das narinas de seus funcionários. Extremamente seguras, as usinas de fusão nuclear, cuja pesquisa está sendo incrementada hoje, que reproduzem as reações que ocorrem no Sol, deveriam ser bandeiras de quem defende as questões ambientais, se algumas ONGs ambientalistas nacionais não estivessem comprometidas com o ambientalismo internacional, visivelmente neo-colonialista. Toda a campanha contra o uso da energia nuclear acabou resultando no que se sabe: os países do Terceiro Mundo, dentre os quais o Brasil, não desenvolveram esta tecnologia e hoje pagam valores altíssimos aos países ricos por seu uso.

A biotecnologia, ou mais propriamente os transgênicos aplicados à agricultura foram e têm sido atacados incessantemente. Ora, qualquer leigo é capaz de entender que na agricultura convencional se mexe no ambiente, para atender às necessidades da planta. Já a proposta da transgenia é modificar geneticamente as plantas para que o ambiente seja preservado. Daí surgem ou estão surgindo as variedades transgênicas que dispensam o uso de fertilizantes e agrotóxicos por serem resistentes a pragas; adaptadas a solos encharcados, tolerantes à seca, ao calor, ao frio e tantos outros caracteres. Qualquer organização séria não teria dúvida alguma em levantar a bandeira da biotecnologia em defesa do ambiente e da melhoria das condições de vida da humanidade. E ainda há que se perguntar: por que tais organizações, pretensamente guardiãs da natureza não atacam o uso da transgenia na medicina humana? Sabe-se que atualmente no mundo existem milhares de pessoas transgênicas, resultantes de terapias gênicas e que já há inúmeros medicamentos transgênicos. E na indústria são centenas de produtos transgênicos (detergentes, fermentos e outros), sem que ninguém proteste. Seria porque nestas áreas não há financiamento de campanhas pelos países ricos, através da WWF, ActionAid, Greenpeace e outras;  e as grandes empresas internacionais já tomaram conta desses setores? Certamente que sim.

A silvicultura (florestamento) tem sido atacada até de forma ridícula. Quem não se lembra de ver na TV pequenos agricultores, estimulados pelos “ecofanáticos”, cortando mudas de eucalipto e gritando “desgraçado, não vai mais beber água”? Logo depois o mesmo agricultor certamente derruba a mata nativa para fazer lenha, palanques e outras necessidades rotineiras. A ONU recomenda principalmente aos países da América Latina a silvicultura, como forma principal de proteger as matas nativas. Hoje, no Brasil, por exemplo, dos 300 milhões de metros cúbicos de madeira que se consome, aproximadamente 200 milhões provêm de matas nativas. Isto significa que se quisermos começar a proteger as matas nativas, temos que, no mínimo, multiplicar por três a área de plantio de árvores..

O combate ao Glifosato, o herbicida convencional menos tóxicos dos que hoje se utilizam, ultrapassa o limite do surrealismo. A campanha resulta em que as pessoas do meio urbano troquem o Glifosato (grau toxicológico IV-pouco tóxico) pelo Paraquat (grau I-muito tóxico), para o qual não há nem antídoto, em aplicações nos pátios e terrenos baldios, prática ilegal, mas extremamente comum. Uma das práticas mais utilizadas nesta campanha é usar, de forma unilateral, resultados de experimentos que mostram a toxicidade do Glifosato, que é um veneno (ninguém nega) dos menos tóxicos aos animais e menos agressivo ao ambiente que se conhece. Os leigos se assustam com isto e acabam usando coisa muito pior; e o resultado é este tremendo desserviço que tais ONGs prestam à população e ao ambiente. Será que tudo isto não é porque o Glifosato não tem mais patente e pode ser fabricado livremente? Certamente que sim.

A falta de prioridade na educação no Brasil resulta na facilidade com que temos sido manipulados pela campanha do Apartheid Tecnológico, programa do Primeiro Mundo, organizada na Holanda, na década de 90, que visa impedir que os países subdesenvolvidos desenvolvam tecnologias ditas estratégicas. Esta nova forma de neo-colonialismo tem como executores ONGs ambientalistas internacionais, como WWF, ActionAid, Greenpeace e outras, mantidas pelos governos do Primeiro Mundo e que têm como subsidiárias organizações ambientalistas nacionais. Com a fachada ambientalista para não despertar suspeitas, têm como metas principais, além de impedir que o Brasil crie capacidade de competição através do desenvolvimento da pesquisa científica, a internacionalização da Amazônia e a biopirataria.

Não é à toa que o ambientalismo internacional está sediado na Amazônia, enquanto regiões brasileiras extremamente poluídas não recebem qualquer tipo de apoio de tais organizações. 

 

BIOTECNOLOGIA E SUSTENTABILIDADE

 Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 24/08/2010

 Com o advento da biotecnologia, a era dos agroquímicos está no fim, mas teve um papel importante. Não fossem esses, calculam os especialistas, estaríamos hoje no mundo utilizando uma área de terras três vezes superior, e as catástrofes geradas pela fome seriam bem mais trágicas do que aquela que matou mais de um milhão de pessoas no século XIX, na Irlanda, devido à “requeima” da batatinha; sem considerar a falta de estatísticas referentes aos milhões de mortos, devido às destruições de extensas regiões causadas pelas, literalmente, quilométricas nuvens de gafanhotos, que dizimavam tudo que fosse verde.

A agricultura convencional não tem mais condições de suportar os novos desafios. Os agrotóxicos, por exemplo, não têm sido mais eficientes para controlar insetos-praga e doenças das plantas, pois a velocidade com que adquirem resistência aos produtos químicos é maior do que a velocidade de elaboração de novas fórmulas de defensivos agrícolas por parte da indústria. E o desafio central é o de produzir mais e com melhor qualidade, em áreas de terras cada vez mais reduzidas, pelo avanço da urbanização e necessidade de preservação ambiental.

Felizmente, ao invés de um abismo, temos pela frente a Revolução da Biotecnologia, tendo a engenharia genética como principal ferramenta e os organismos geneticamente modificados (OGMs) como a solução básica para essa nova etapa.

Dentre os OGMs, as plantas transgênicas ocupam um lugar importante, pois são elas que estão revolucionando a agricultura. Não há mais barreiras entre espécies e nem propriamente cruzamentos. Qualquer ser vivo pode fornecer um gene (uma determinada característica) para outro. Um gene que interessa pode ser isolado e clonado (multiplicado) em laboratório. Após, pode ser introduzido na variedade de planta que interessa (geralmente uma que está em cultivo). A variedade recebe, então, o novo caráter, sem os inconvenientes do método convencional, o que torna o melhoramento genético bem mais eficiente e seguro.

Variedades tolerantes a insetos-praga e com maior capacidade de extrair seus nutrientes do solo, dispensando o uso de agrotóxicos e fertilizantes; adaptadas ao frio, ao calor e à seca, a solos encharcados, a solos ácidos, a solos salinos, a solos pobres e outros caracteres, preservando e recuperando o ambiente, certamente proporcionarão mais segurança de colheita e maior previsibilidade. Cultivares com melhor qualidade industrial e com características especiais para a saúde humana facilitarão a comercialização da produção em razão da procura pela indústria e pelo maior interesse dos consumidores... Enfim, a agricultura, com o apoio da biotecnologia, encaminhar-se-á definitivamente para ser uma atividade de alta precisão, com o que os produtores rurais e, conseqüentemente, toda a sociedade serão beneficiados. É a nova agricultura orgânica, reciclada pela Engenharia Genética.

Sustentabilidade só é vislumbrada, portanto, com avanços; jamais com recuos. Com raras exceções, não é por acaso que nos países mais avançados tecnologicamente a natureza tem sido tratada com mais cuidado e as desigualdades sociais são cada vez menores.

A Revolução Verde, amaldiçoada pelos mais afoitos, foi uma solução revolucionária, mas que, como toda a tecnologia, veio com riscos e benefícios. Hoje se sabe que se fossem minimizados os riscos e maximizados os benefícios, os impactos ambientais teriam sido bem menores. Isto, entretanto, não é motivo para que muitos levem ao extremo o Princípio da Precaução, preferindo o nada-fazer a correr o risco de fazer alguma coisa. Tais interpretações extremistas e equivocadas de algumas Organizações Não-Governamentais (ONGs) levam a que foquem apenas nos riscos das tecnologias ou inovações e ignorem os riscos da própria estagnação, que, por restrição ou banimento de avanços tecnológicos, podem criar grandes problemas aos humanos e imensos riscos ambientais.

É sintomático que a mais antiga forma de contaminação ambiental (por fezes), ainda é a mais grave, apesar da tecnologia disponível ser suficiente para eliminá-la totalmente, o que demonstra que a causa principal da poluição mais devastadora do ambiente reside principalmente na questão político-econômica. Entretanto, muito pouco se tem feito relativamente a esse problema, tanto que não se tem visto nenhuma ONG ambientalista protestando contra essa forma de poluição em lugar nenhum. Seria também razão dessa ordem, esse descaso, por parte das ONGs?

Igualmente, a mais moderna forma de contaminação ambiental, ou seja, resultante da emissão de gases dos veículos automotores, que comprometem significativamente a camada de ozônio, pouco ou nenhum protesto tem provocado, de tal forma que as providências para diminuição desse tipo de poluição têm partido dos próprios governos e dos fabricantes.

É bastante intrigante que os protestos e campanhas nos países do Terceiro Mundo sejam praticamente apenas concentrados em tecnologias novas ou de ponta, como a energia nuclear e a biotecnologia, por parte da maioria das ONGs. Não seria mais uma manobra por parte do Primeiro Mundo para manter os países subdesenvolvidos afastados de tecnologias ditas estratégicas?

A história não é repetitiva, mas recursiva. Assim como tecnologias esgotadas têm sido recicladas à luz dos novos conhecimentos e a agricultura orgânica é resgatada pela biotecnologia moderna, a resistência fanática e dogmática aos avanços tecnológicos nada mais é do que efeito da recursividade do obscurantismo, reacionário ao caráter perfectível do Espírito Humano.



O MILHO BT: BENEFÍCIOS A CONSUMIDORES, AMBIENTE E PRODUTORES

 17 de agosto de 2010

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

Prof. Adj. da UERGS- São Borja

 
Há séculos os agricultores orgânicos utilizam o Bacillus thuringiensis (Bt) como inseticida biológico no combate a diversas espécies de lagartas, principalmente da ordem dos lepidópteros. É uma bactéria de solo, capaz de causar infecção intestinal nos insetos, eliminando-os. Antes de multiplicá-la em laboratório os agricultores misturavam solo com alta contaminação desta com água, coavam e aplicavam sobre as plantas. Esta é, portanto, uma tecnologia das mais importantes, desenvolvida para aplicação na agricultura orgânica, ecológica e até mesmo convencional.

A biotecnologia moderna, demonstrando mais uma vez que é a herdeira da agricultura orgânica, à luz dos novos conhecimentos, conseguiu um dos feitos atuais mais importantes, tanto que hoje se fala na “maravilha do gene Bt”.

A transgênese sempre ocorreu na natureza; não fosse isto, não haveria evolução biológica das espécies como concebemos. É por causa das mutações e seleção; e acrescente-se a transgênese, que compartilhamos mais de 99% de genes com os chimpanzés e mais de 300 genes com as bactérias.

A descoberta e a compreensão da transgênese e a certeza de que o DNA (gene) é universal, ou seja, pode funcionar como tal em qualquer espécie, eliminou definitivamente a barreira entre as espécies, disponibilizando ao homem todo o manancial genético existente na natureza. Por esta razão é que se diz que uma das maiores preocupações da biotecnologia moderna é a preservação da biodiversidade.

Se o uso do Bt significa aplicar sobre as plantas bactérias vivas com mais de cinco mil genes; e a eficiência depende de uma série de fatores, principalmente climáticos e de custos, limitando o uso pelos agricultores, a biotecnologia resolveu eficientemente e de vez estes problemas. O gene responsável pela proteína tóxica aos insetos foi isolado, clonado (multiplicado) e inserido nas plantas, que passam a produzir a substância que controla os insetos. Esta tecnologia (do gene Bt) já é aplicada a diversas culturas, mas é principalmente no milho que ela tem maior impacto.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda o uso do milho Bt, como forma de diminuir a incidência de danos e inclusive câncer de fígado no mundo. Testes realizados nos EUA demonstraram que naquelas condições o milho Bt apresentou 8 vezes menos aflotoxinas (agentes cancerígenos) do que o milho orgânico e 3 vezes menos do que o milho convencional. No milho orgânico o ataque de insetos é intenso, abrindo caminho fácil para a entrada de fungos produtores de micotoxinas. No sistema convencional os inseticidas diminuem o ataque, mas não impedem que os ferimentos produzidos por insetos facilitem a entrada de fungos. Já no milho Bt, as lagartas recém eclodidas dos ovos, ao se alimentarem a primeira vez, morrem, pois as plantas contêm toxinas contra elas. Como os ferimentos produzidos são muito pequenos, a cicatrização rápida impede a entrada de fungos. Observe-se que no Brasil se calcula que mais de 40% da farinha de milho é contaminada por aflotoxinas!

A tecnologia do gene Bt beneficia então diretamente os consumidores com produtos com índices bem menores de toxinas de fungos e resíduos de agrotóxicos, já que o Bt substitui o inseticida. Os produtores rurais, além de se exporem menos aos agrotóxicos, podem utilizar densidades maiores de cultivo, já que não precisarão passar com máquinas pulverizadoras de inseticidas pela plantação. Isto significa um menor índice de intoxicação por agrotóxicos, rendimentos maiores e consequentemente mais saúde e mais dinheiro no bolso. A natureza agradece a substituição dos agrotóxicos pela resistência genética e o menor gasto de combustível, pela dispensa de máquinas, reduzindo a poluição do ar e o aquecimento global.

A boa notícia é que, mesmo depois de muita resistência dos ditos “ecofanáticos”, finalmente o milho Bt está à disposição dos agricultores brasileiros desde o ano passado e haverá bastante sementes para o próximo plantio. Tivemos grandes prejuízos devido ao atraso na sua liberação, mas como se diz popularmente, antes tarde do que nunca.

O mais intrigante de tudo é que justamente aqueles que deveriam defender esta tecnologia, que nada mais é do que um aprimoramento da técnica utilizada na agricultura orgânica, com mais segurança e economia, foram e são os maiores inimigos da nova tecnologia Bt. Fecham olhos, ouvidos e todos os sentidos quando os cientistas tentam explicar que se, como os ambientalistas fanáticos afirmam, há riscos em esporadicamente consumir o gene Bt (que prontamente é degradado no sistema digestivo), quando se aplica a bactéria na forma tradicional, estamos engolindo, junto com os alimentos a bactéria inteira, ou seja, mais de 5 mil genes diferentes, também sem qualquer problema.

Evidentemente que por trás disto estão outros interesses, mas isto é assunto para outra oportunidade. 

 


O SUS E O INFERNO DE DANTE

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

Se Dante vivesse hoje e fosse descrever o Inferno (Divina Comédia) bastaria entrar numa fila do SUS e acompanhar o desenrolar da luta de doentes e familiares para conseguir atendimento. E quando conseguem atendimento, enganam-se em pensar que o sofrimento chegou ao fim: como o Inferno de Dante, ter que entrar na fila do SUS é só uma primeira etapa de uma série de passagens, cada qual mais sofrida do que a outra anterior.

Terminada a primeira fase de minha quimioterapia (intravenosa) para tratamento de câncer nos pulmões (metástases do câncer de cólon) passei à quimio via oral, com pílulas que só o SUS fornece, já que a compra é praticamente inviável para 99,9% dos brasileiros. Já na segunda vez que fui ao Hospital Universitário de Santa Maria para fazer a retirada do medicamento, veio a surpresa: o produto estava em falta, com previsão de atraso mínimo de duas semanas! Liguei para o médico para perguntar sobre as conseqüências do atraso no tratamento e ele me disse que isto não poderia acontecer, mas que era muito comum, afinal, disse ele, “estamos no Brasil”.

O atraso acabou sendo de mais de 20 dias e um funcionário mais antigo me confidenciou: “sempre, em épocas de eleições, isto ocorre; e com o corte de quase 400 milhões na Saúde, o governo atrasa a remessa de recursos para que no final do ano economize o percentual correspondente ao corte”.

Nesse meio tempo um amigo de longa data, com 40 anos de idade, estava sofrendo pelo SUS no único hospital do município de Júlio de Castilhos, de um mal desconhecido naquele momento. Só se sabia que estava com uma anemia profunda e os prognósticos não eram dos melhores. Recomendou-se então que fosse levado ao Hospital Universitário de Santa Maria. Quando o sofrimento para todos parecia ter diminuído, eis que começava outro muito maior na fila do SUS (Pronto Atendimento) em Santa Maria.

Já na chegada não havia cadeiras comuns para todos, mas diante do estado do rapaz, que se movimentava amparado, alguém cedeu um lugar para o mesmo. Depois de muitas horas, sentado numa cadeira comum, tendo já desmaiado por quatro vezes, a família conquistou uma cadeira de rodas para o paciente, aparentemente em estado grave. Sua esposa, ao reclamar da situação, recebeu a resposta de uma funcionária: “senhora, temos aqui, na mesma situação (em cadeiras de roda, aguardando atendimento) pessoas infartadas e com AVC” (!)

Depois de dois dias numa cadeira de rodas, finalmente o meu amigo (cunhado) conseguiu “conquistar” uma maca no corredor. Sim, é assim que a coisa é vista: uma verdadeira conquista. Na maca, finalmente foi feita coleta de sangue e disponibizado soro, pois o rapaz não comia nada desde vários dias. Estava ele com uma tremenda infecção na garganta e boca, de tal maneira que as gengivas encobriam todos os seus dentes. O odor era insuportável.

Mais dois dias e veio o resultado: leucemia.

Mas atrás da má notícia, uma aparente boa nova: conquistou finalmente um leito no hospital! Como no Inferno de Dante, cada fase que se avança, a situação piora. Como avisa o Portal do Inferno de Dante: “Deixai toda a esperança, oh vós que entrais”. E começa então a pior das fases. Se antes havia a esperança, a realidade começava a mostrar o verdadeiro inferno que é o SUS no Brasil.

Como o paciente estava muito fragilizado, pois perdera quase 20 quilos, desde as idas e vindas nos postos do SUS em Júlio de Castilhos até a internação no hospital daquele município, a quimioterapia passava a ser um risco muito grande, mas não havia outro caminho. As plaquetas baixaram drasticamente, as infecções aumentaram e os rins começaram a parar e o paciente inchou tanto que ficou irreconhecível. Hemodiálise? De que jeito, já que não há equipamento suficiente? Inúmeras pessoas morrem no Brasil em situações de dificuldades como esta.  E a família passou então por mais um drama: se os medicamentos não ativassem os rins, a morte seria inevitável. Os rins começaram a funcionar parcialmente, mas com as plaquetas em baixa começa uma hemorragia tida como incontrolável. E um derrame resulta na morte cerebral do meu amigo, que ainda hoje, por questões éticas e legais, respira com aparelhos. A temperatura do corpo, hoje pela manhã, era de 28°C e o óbito é dado como certo para hoje.  Estará deixando uma filha de 14 anos e um menino de 10 anos. Nas estatísticas do governo, será um número a mais, que aumentará um pouco o percentual de mortes devido ao corte de recursos e ao péssimo sistema de saúde brasileiro.

Eu mesmo me conformei com o atraso nos meus medicamentos e com prováveis atrasos no futuro, por conta da economia que os governos “precisam” fazer na Saúde. Serei mais um na estatística dos que vão mais cedo para que os governos continuem gastando de forma criminosa nossos impostos que, diga-se de passagem, são os mais elevados do Mundo? Evidentemente que não dá para economizar com cortes no Legislativo, Judiciário e certos setores do Executivo... Como cortar, por exemplo, os gastos com publicidade do governo na mídia? Já na saúde ninguém reclama. Ao me conformar pelo que acontece de muito pior com os outros, estou fazendo como os demais brasileiros: para que reclamar se tem gente em pior situação do que a nossa?

Mas o maior erro vem da falta de consciência política do povo brasileiro, materializada no excesso de apego e fanatismo por partidos políticos. Nos meus tempos de militância partidária costumava-se a fazer até críticas severas ao próprio partido, mas isto não podia sair para fora, com o argumento de que os adversários políticos não poderiam saber e que “roupa suja se lava em casa”. Este é o problema: a casa é somente o partido e os demais brasileiros são considerados estranhos. Não importa mais que o partido, tido com defensor da ética, seja também corrupto, já que “os outros também são”.  Quando comecei a “lavar roupa suja” na verdadeira casa, que é a sociedade como um todo, fui obrigado a cair fora da confraria.

E assim, inexoravelmente, sai um grupo corrupto e entra outro grupo corrupto, às vezes supostamente oposição, mas que também está do mesmo lado: contra a população. E quando votam verbas para educação e saúde, aprovam percentuais menores do que prevê a própria Constituição. Depois, para passar de uma fase para outra, alimentando o “Inferno” com mais sofrimento para a população, cortam as verbas já insuficientes. Como Dante os classificaria? Demônios?

A fórmula é perfeita: corta-se na educação para poder cortar na saúde sem que haja indignação. Se a educação fosse prioridade no Brasil, a saúde também seria, pois pessoas conscientes certamente partiriam para a violência generalizada, contra a violência infernal do nosso sistema de saúde e de nossos governantes e políticos.

As três divisões do Inferno a que Dante se refere estão certamente contempladas no SUS: a pantera (incontinência), o leão (a violência) e a loba (fraude).  

A incontinência pode ser identificada como o descontrole total do sistema; a violência refere-se à forma com que a população é tratada, não pelos funcionários, mas pelo sistema: é indescritível (só Dante para narrar). A fraude é produto de nossos políticos e governantes, que tratam o povo como números de uma estatística macabra. Estes, certamente, quando adoecem, escolhem não somente o que há de melhor no país, mas podem procurar melhores recursos no exterior, até mesmo quando não é necessário. E ironicamete que paga é o povo que não tem atendimento satisfatório.

E o Brasil segue perdoando dívidas e doando recursos a países onde a desigualdade social é menor do que a nossa. Nosso governo age como um pai que deixa faltar recursos para a família, mas mantém amantes, para as quais não faltam presentes e regalias.

 

OS SÍMBOLOS DA DECADÊNCA DO RIO GRANDE DO SUL

Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse

São Borja, 02 de agosto de 2010

 

As situações caóticas da ponte sobre o Guaíba e da UERGS são símbolos autênticos da decadência econômica, social e moral do Rio Grande do sul. Tanto fazíamos chacota com os baianos, que hoje a Bahia cresce em índices superiores ao nosso Estado.  Quando nos referimos à decadência moral, estamos tratando da perda de coragem e pioneirismo, que tanto caracterizaram o povo gaúcho outrora.

A ponte sobre o Guaíba foi construída no Governo Brizola e completada no Governo Meneghetti (final da década de 50 e início da década de 60), quando a população do RS era pouco mais de 5 milhões e o PIB per capita não chegava aos 3 mil reais. Hoje, com mais de 10 milhões de habitantes e um PIB per capita de mais de 18 mil reais (dados de 2009), ainda se discute a viabilidade econômica da duplicação da referida ponte. Pior que isto, os gaúchos não conseguem nem a manutenção da ponte, tanto que os jornais noticiaram como “um drama que paralisou o Estado”, a pane do vão móvel no dia 31 de julho de 2010, colapso que durou mais de 2 horas, levando milhares de pessoas ao desespero total. E esta não foi a primeira vez.

Quanto à UERGS, enquanto ainda discutimos sobre a necessidade ou não de uma universidade estadual, ela “pena em praça pública”, com pouco mais de 100 professores e 3 mil alunos, quando o Paraná conta com quase 8 mil professores e mais de 85 mil alunos nas 6 universidades estaduais e 7 faculdades estaduais. Na Bahia as universidades estaduais dispõem de mais de 4 mil professores e mais de 50 mil alunos.  Dentre as mais de 50 universidades estaduais do Brasil, infelizmente a UERGS dos gaúchos é a menor delas, com o menor orçamento de todas, que não chega aos 30 milhões de reais.

A única coisa que se faz atualmente no RS é ficar culpando este ou aquele pelos males que hoje nos assolam. Na verdade somos todos culpados por esta inércia. Nosso estado, nossos representantes, nossos políticos e nossas autoridades são reflexos de nosso povo.

Vejamos, no caso da UERGS, o que pensa um grupo significativo de professores desta instituição. Por incrível que possa parecer,  há professores na nossa instituição, com grande poder de influência, que acham que a UERGS precisa ser reduzida para melhorar em qualidade.

Ao invés de exigirem dos governos um substancial aumento do orçamento da UERGS, de forma acovardada se propõe adaptar-se à miséria atual. Isto nos faz lembrar aqueles pais de família, que no lugar de trabalharem mais para o sustento dos filhos, cortam as despesas com a alimentação para se adaptar,  mas jamais imaginam em eliminar os gastos com o cigarro e a cachaça.  Para ilustrar, a menina que resolvemos adotar, contou-nos nesses dias que seus pais a proibiam de tomar leite, para sobrar para os menores. Mas pai e mãe fumam e bebem até cair, como ela mesma contou.  Tais colegas nossos podem até serem doutores, mas suas mentalidades subdesenvolvidas em nada diferem daquela dos pais biológicos semi-analfabetos de minha nossa adotada; agora, simplesmente, filha.

Uma universidade estadual deve ser vista como instrumento do Estado e de seus governos (independentemente dos partidos políticos) na condução das políticas de ensino, pesquisa e extensão. Muito mais do que vagas gratuitas no ensino superior, deve ser o principal instrumento de desenvolvimento social e econômico do Estado. Tal potencial nem de perto pode ser ultrapassado por cálculos simplórios de mentes medíocres (ou ate mesmo vulgares) de compra de vagas. Nem pelos que pretendem concentrar a UERGS na região metropolitana de Porto Alegre e cercanias, desvirtuando totalmente nossa instituição, que neste caso sim significaria apenas aumentar o número de vagas gratuitas e, pior ainda, em regiões onde são menos necessárias.

Mas infelizmente uma grande parcela de gaúchos e que comandam este Estado, não é capaz de enxergar isto. Preferem fazer aquilo que criticavam nos outros estados, principalmente do Nordeste: de pires na mão solicitar auxílio do Governo Federal, o que significa, em última análise, deixar que os estados mas fortes, que mandam no poder central, gerenciem os recursos gerados pelos próprios gaúchos. Desta forma, por conta de nossos péssimos dirigentes e de nossa inércia, inexoravelmente estaremos nos tornando brevemente apenas corredor do MERCOSUL.


É burrice mesmo ou segundas intenções? 

                                                       Benvindo Ferreira, Produtor Rural. São Borja, 30 de julho de 2010.

O agronegócio brasileiro é responsável pela sobra de doláres no saldo do balanço de pagamento do comércio exterior brasileiro. Nesta semana o presidente Lula se vangloriava de ter dinheiro para emprestar até para o FMI.  Não é a indústria, tão beneficiada nos acordos no Mercosul, a responsável por esse saldo, entretanto, é a indústria que se beneficia desses acordos e quem paga a conta é o agricultor brasileiro.   Não dá para entender a posição do governo federal nessa situação, senão vejamos. Vou apresentar somente os dados relativos ao arroz no Rio Grande do Sul. 

O RS produziu este ano, 2010, perto de 14 milhões de sacas de 50 kg, arredondando para simplificar os cálculos.  Com os preços praticados no RS, ao redor de R$26,00 a saca e com um custo de produção de R$31,00, calculado pelo IRGA, cada produtor perderá perto de R$5,00 por saca.   A economia da metade sul gaúcha, tem uma influência forte da orizicultura e economicamente se diz que na metade sul o fator de multiplicação na economia local é 5, ou seja  cada real que o produtor recebe gera mais R$4,00 na economia local.  Vamos fazer um cálculo simples, vamos multiplicar por 5 (R$5,00 reais perdidos por saca ) pela produção gaúcha de 14.000.000 de sacas.  Aparece um total de R$70.000.000,00 que os produtores gaúchos deixaram de jogar na economia local.  Calculando agora o quanto deixou de circular na economia da metade sul, basta multiplicarmos por 5, fator de multiplicação na economia, o valor dos 70 milhões, o que nos dá um total de R$350.000.000,00 que deixou de circular na metade sul.  Levando em conta que o governo, do que circula na economia, arrecada perto de 45% em impostos, taxas e outros, o  governo deixou de arrecadar  R$157.500.000,00.  O estrago nas economias locais é enorme, isto vem com aumento em gastos de seguro desemprego,  auxílios de todos os tipos, aumento de miséria e desemprego. Comércio não gira, falência, pobreza, etc.   Os países desenvolvidos, todos sem  exceção, subsidiam seus agricultores; e não é por bondade,  nem por serem ignorantes, é que eles sabem o impacto na economia e quanto representa isso na economia deles.  Mas o Brasil vai na contramão.   Os governos brasileiros, a muito tempo vem na contramão.  Deve ser por se julgarem mais inteligentes,  ou talvez  mesmo até por pura burrice não enxergam isso.  Há ainda outra explicação, talvez  seja para que o número de bolsas-família aumente e aí o numero de compra escancarada de votos através do bolsa família  aumente.   Qualquer mecanismo de garantia de preço do produto custaria no mínimo a metade do que deixam de arrecadar. Esses  cálculos somente refletem a situação do arroz.  Se juntarmos a situação do trigo, muito pior; do leite e tantos outros, veremos que  não há um produto agrícola que pague a conta e o furo na economia gaúcha é cada vez maior.

Hoje na agricultura brasileira, nem a menina dos olhos de ouro do governo, a agricultura familiar, esta conseguindo pagar  os empréstimos que receberam, com juros especiais.   Não há como pagar, mesmo com juro muito, muito baixo,  pois o produto não cobre os custos e sem renda não há como pagar.  Cada dia o furo é maior. Este ano sobrará dinheiro para financiar a agricultura, pois mesmo com juro baixo, sem preços o produtor nunca conseguirá pagar, não importa se ele seja pequeno, médio ou grande. Em contrapartida a indústria e o supermercado vão muito, mas muito bem, obrigado mesmo. 

Não é por nada que o Brasil apresenta o terceiro lugar em desnível social  atrás até do Equador e que ganha apenas da Bolivia e Haiti.  O Haiti é quase aqui mesmo.