Nós só poderemos ser livres quando nos convencermos que a culpa de nossa escravidão cabe a nossa incapacidade de nos libertar e não a quem nos escraviza. O dominador nunca deixará de sê-lo se o dominado só reclamar da carga que tem de carregar. (Mairesse, dezembro de 2001)
A PRIMEIRA GUERRA SANTA DO III MILÊNIO São Borja, 24/06/2011
Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Mais de dois bilhões de pessoas consomem regularmente transgênicos, sem que até agora tenha surgido qualquer problema de saúde ou ambiental, cientificamente comprovados. Nunca houve na história produtos que antes de serem liberados para consumo tenham sido tão exaustivamente testados. Ao mesmo tempo jamais houve produtos oriundos de uma nova tecnologia que fossem mais combatidos, inclusive com métodos condenáveis, como fraudes e interpretações fantasiosas, com a clara intenção de enganar a população.
No inicio do novo século foi lançado o milho Bt, resistente a algumas lagartas, por conter em seu genoma o gene do Bacillus thuringiensis, que codifica para uma proteína tóxica a várias espécies de insetos, mas inócua aos demais animais, inclusive ao homem. A posição intransigente, contrária a esta tecnologia levou a realizar um experimento com metodologia sem validade, para falsamente concluir que borboletas “monarca” apresentavam um índice de mortalidade em torno de 50%, quando se alimentavam do pólen do milho Bt. Logo em seguida, dezenas de experimentos, com metodologia correta, comprovaram o que os cientistas esperavam: não há mortalidade significativa entre belas borboletas. Mas não adiantou: até hoje o experimento sem validade continua sendo disseminado...
Dez anos depois que a tecnologia dos transgênicos já criou base sólida irreversível, ainda surgem tentativas eivadas de erros ainda maiores, como se a população tivesse sofrido um processo de involução no conhecimento. E vem do Canadá a notícia que se espalhou, acompanhada de cópia de artigo pretensamente científico, de que a toxina Bt e os herbicidas glifosato e glifosinato, utilizados em lavouras transgênicas, aparecem no soro de mulheres grávidas ou não. Tais conclusões contrariam o que uma imensa quantidade de trabalhos científicos encontrou até agora. Seria esta então uma descoberta revolucionária na ciência? Não. Simplesmente mais uma tentativa de fraude cientifica, ainda mais absurda do que aquele de 10 anos atrás. Acesse http://www.usherbrooke.ca/gnec/pj/Article%20paru%20dans%20Reproductive%20Toxicology%20%28document%20PDF%29.pdf e comprove.
O fato de os autores utilizarem para seres humanos um teste comercial ELISA para plantas por si só já invalida o suposto experimento. Mas se mesmo assim isto não fosse suficiente para colocar o trabalho na lata de lixo, erros tão ou mais graves são encontrados no mesmo.
São os próprios autores que dizem, e isto é verdadeiro, que a proteína do gene Bt Cry1Ab ocorre naturalmente, como produto da referida bactéria. Esta, além de estar presente nos solos, é usada há séculos em aplicações diretas nos cultivos orgânicos ou não. Bem que poderia ser uma destas a origem da proteína encontrada. Leve-se em consideração que hoje o gene Bt tem sido modificado constantemente nos laboratórios e proteínas Cry já são às dezenas e centenas, diferentes da Cry1Ab.
Tanto para a proteína do Bt como em relação aos herbicidas, há um erro básico que nem mesmo um estudante comete: a falta de tratamentos-testemunha (controles negativos) e tratamentos padrões. Não foram testados soros de mulheres de locais onde a proteína do Bt não está presente na alimentação. Tampouco de mulheres de regiões onde não se usam os herbicidas citados. Seria necessário também testar para outros herbicidas (tratamentos padrões) de plantios convencionais, que são bem mais tóxicos, persistentes e agressivos ao ambiente que glifosato e glifosinato.
Daqui para diante, cientistas sérios irão colocar esse pseudo experimento na lata do lixo por várias vezes, o que não irá impedir, como no caso das borboletas, que o mesmo seja noticiado e reproduzido durante muito tempo para as pessoas desavisadas, que são a maioria da população mundial.
Por incrível que parece, guardadas as devidas proporções, segue a Guerra Santa. No lugar dos processos fraudulentos da Inquisição, os falsos experimentos científicos. E no lugar do fanatismo religioso o sectarismo ideológico, defensor de que os fins justificam os meios, o que demonstra que essencialmente em nada diferem. Portanto, a “Guerra Santa” continua...
Nos últimos 20 anos, o número de aplicações comerciais da biotecnologia cresceu muito em diversos setores industriais. Mas é na agricultura que se apresenta um dos maiores avanços da aplicação da tecnologia: a produção de alimentos GM ou transgênicos.
No texto “Irresponsabilidade Cientifica”, de Lúcia de Souza, a bióloga e membro da Public Research and Regulation Initiative (PRRI) discute os riscos da divulgação de informações baseadas em trabalhos científicos não publicados em periódicos acadêmicos.
Nesse meio, é comum a submissão do trabalho científico ao escrutínio de especialistas qualificados antes da publicação em periódicos catalogados. Para Lúcia, infelizmente, alguns relatórios são amplamente divulgados de forma prematura, antes da revisão apropriada, e causam medo e desconfiança inadvertidamente.
Irresponsabilidade científica
Por Lúcia de Souza
Nos últimos 20 anos, o número de aplicações comerciais da biotecnologia cresceu muito em diversos setores industriais. Mas é na agricultura que se apresenta um dos maiores avanços da aplicação da tecnologia: a produção de alimentos GM ou transgênicos.
A transformação genética de plantas é uma ferramenta que permite o aumento da
produtividade dos cultivos e a melhoria da qualidade nutricional dos alimentos. Por isso, a biotecnologia foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) como ferramenta estratégica para suprir a demanda mundial por alimentos.
De acordo com estimativas da entidade, até 2050 a população mundial chegará a 9 bilhões.
Será necessário, portanto, aumentar a produção de alimentos em 70%, o que só será possível com a contribuição das seguras e modernas técnicas da biotecnologia.
Ainda que tais benefícios sejam reconhecidos, a produção de alimentos é um tema complexo, cheio de mitos e crescentes desafios. É compreensível que haja preocupação com possíveis impactos que a engenharia genética na agricultura possa causar. Na história da introdução dessa e de outras tecnologias, o debate é polarizado e confuso, e nem sempre a qualidade da informação é o que prevalece.
No meio acadêmico, é comum o “peer review”, ou seja, a submissão do trabalho científico ao escrutínio de especialistas qualificados que contribuem para a qualidade antes da publicação em periódicos catalogados. Infelizmente, muitas vezes, alguns relatórios são amplamente divulgados de forma prematura, antes da revisão apropriada, e causam medo e desconfiança inadvertidamente.
Um dos casos mais evidentes e conhecidos é o do estudo desenvolvido pela pesquisadora russa Irina Ermakova, que continua a ser utilizado como fonte por algumas entidades contrárias a transgênicos e, sobretudo, ideologicamente opostas a multinacionais. Seus experimentos – cujos dados parciais e preliminares foram apresentados durante um congresso científico, em 2005 – foram revelados posteriormente sem padrões atuais de qualidade e com tratamento impróprio das cobaias.
Em outro caso, um relatório austríaco sobre o efeito de alimentação prolongada de ratos com uma variedade de milho GM foi prematuramente divulgado. De acordo com o estudo preliminar, não teria havido diferenças significativas na taxa de sobrevivência e nem na reprodutividade nas duas primeiras gerações das cobaias, porém nas terceira e quarta gerações teriam nascido menos ratos no grupo alimentado com esse milho transgênico.
Especialistas e outras autoridades, como a European Food Safety Authority (EFSA), a Food Standards Australia New Zealand (FSANZ) e o The Advisory Committee on Novel Foods and Processes (ACNFP) revisaram o estudo, que continha erros de cálculo e outras falhas. Aqualidade do trabalho foi comprometida, motivo pelo qual a Áustria discretamente retirou apesquisa como prova de risco do milho transgênico em questão.
Esses e outros estudos nos quais, mesmo após revisão, foram constatados resultados
insignificantes, pouquíssimo prováveis ou até incorretos, continuam a ser divulgados de maneira sensacionalista – ainda que a vasta maioria de estudos para acessar a qualidade e a segurança de alimentos apontem o contrário e que entidades profissionais científicas reconheçam a segurança dos produtos comercializados, a exemplo da FAO, Organização Mundial da Saúde (OMS) e academias de ciências, entre elas, Sociedade Real de Londres, Brasil, Estados Unidos, União Europeia e Vaticano.
Não há motivos racionais que justifiquem a obstrução da biotecnologia moderna na agricultura, claramente uma evolução da tecnologia, e é fundamental que, sobretudo, tenhamos responsabilidade na divulgação da produção científica, para que sigamos ampliando os conhecimentos e suas aplicações no sentido de aumentar a segurança alimentar, expandir a produção de alimentos, além de evitar o aumento do uso de água e desmatamento.
Lúcia de Souza é bióloga, doutora em bioquímica e membro da Public Research and Regulation
Initiative (PRRI).
O TRIBUNALDOS TRANSGÊNICOS (março 2004)
SILÊNCIO CONIVENTE (dezembro 2003) Prof.Dr.Luiz Alberto Silveira Mairesse
Foi no mínimo infeliz a declaração da Reitora da UFRGS(ZH, 20/12/2003), classificando de “barulho constrangedor” o protesto que acomunidade científica e outros setores da sociedade, vêm fazendo em relação aoepisódio do incêndio criminoso do Centro de Biotecnologia da UFRGS. E mais:Reitora diz que estes “nada mais fazem do que jogar lenha na fogueira”. Assim,se um outro laboratório for incendiado, segundo a Magnífica Reitora, será porculpa daqueles que se indignaram diantedo ato obscurantista.Entretanto, a história nos tem mostrado que as coisassão bem diferentes do que pressupõe a autoridade máxima da UFRGS. No início daascensão do nazismo as fachadas das propriedades dos judeus eram pichadas compalavras ofensivas e ninguém se indignou. Depois surgiram os atentados,destruindo propriedades e vidas, mas o silencio continuou. Não demorou muito eos judeus começaram a ser levados para campos de concentração, para seremeliminados depois aos milhões. Quem sabe o mundo inteiro assistia tudo semtomar nenhuma atitude para “não colocar mais lenha na fogueira”? Não! Não é fazendo vistas grossas que vamos impedirque surja uma escalada obscurantista contra a ciência brasileira. A falta deindignação é que tem levado à impunidade no Brasil e a fazer com que centenasde vidas sejam ceifadas diariamente no País. Devemos então ficar todos silentespara evitar que a situação se deteriore mais ainda, ou devemos nos levantar eenfrentar o que se nos apresenta? O fogo que queimou o Centro de Biotecnologia começoumuito antes do mês novembro passado. Iniciou com queima e destruição deexperimentos e com a veiculação de absurdos relativamente aos transgênicos.Chegou-se a dizer que transmitiam AIDS, hepatite B e outras tantasinvencionices; até que era pecado produzir transgênicos... Ora, não faltaráalguém ou algum grupo pretensamente guardião do Planeta para investir até mesmocontra a instituição pública. Jamais imaginará o incendiário que estádestruindo a possibilidade do Brasil vir a ser independente, através dodesenvolvimento de sua própria biotecnologia, como a própria FAO atesta. É preciso insistir sim, para que as autoridadesdesvendem esse crime contra a alma do País. Mas não basta: é preciso de uma vezpor todas que os brasileiros sejam devidamente informados, através de debatesverdadeiramente sérios. A desinformação propositada também é crime e deveriaser punida como tal. Afinal de contas não foi a desinformação que levou àdestruição do centro de pesquisas?Por fim, é preciso sempre lembrar o que disse opoeta: “No começo eles arrancam as flores do nosso jardim...” Impedir que eles tentem ir adiante não é“colocar mais lenha na fogueira”, mas tentar retomar as rédeas da situação,começando por quebrar este “silêncio conivente”. * Engº Agrº, pesquisador agrícola Em destaqueNão éfazendo vistas grossas que vamos impedir que surja uma escalada obscurantistacontra a ciência brasileira
COMO E QUANDO COMEÇOU O FOGO NO LABORATÓRIO (dezembro de 2003) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Tem sido no mínimo estranho que alguns grupos estejamconsiderando como exagero a indignação com que a comunidade científica e outrossetores da sociedade receberam as ameaças à UFSM e a notícia de que foicriminoso o incêndio no Centro de Biotecnologia da UFRGS. E mais: que os queprotestam contra o ato nada mais fazem do que “jogar lenha na fogueira”. Assim, se um outro laboratório forincendiado, segundo a visão deles, será por culpa daqueles que se indignaram diante do fogoobscurantista.Entretanto, a história nos tem mostrado que as coisassão bem diferentes do que pressupõem os adeptos do silêncio. No início daascensão do nazismo as fachadas das propriedades dos judeus eram pichadas compalavras ofensivas. E ninguém se indignou. Depois surgiram os atentados,destruindo propriedades e vidas, mas o silencio continuou. Não demorou muito,os judeus começaram a ser levados para campos de concentração, para seremeliminados em câmaras de gás. Relatos do sofrimento daquele povo tiveram muitopouco eco e muitas vezes eram tidos como exagero por parte dos que queriamfazer crer que estava havendo um genocídio. Quem sabe o mundo inteiro assistiatudo sem tomar nenhuma atitude para “não colocar mais lenha na fogueira”? E oque aconteceu é por demais conhecido: no maior holocausto de todos os tempos, seismilhões (!) de judeus foram exterminados como formigas. Mesmo assim, hoje, comtodas as provas disponíveis do ocorrido, não falta ainda quem considere“exagero” as narrações dos sofrimentos do povo judeu nas mãos do nazismo. Quemsabe para “não colocar mais lenha na fogueira”? Não! Não é fazendo vistas grossas que vamos impedirque surja uma escalada obscurantista contra a ciência brasileira. A falta deindignação é que tem levado à impunidade no Brasil e a fazer com que centenasde vidas sejam ceifadas diariamente no País, seja diretamente num acidente detrânsito, num assalto, na guerra do narcotráfico ou mesmo numa briga, por contada criminalidade crescente; seja indiretamente pela fome e pela falta deassistência à saúde, que têm também seu ingrediente criminoso, pela desatençãodas autoridades responsáveis. Devemos então ficar todos silentes para nãoprovocar os agentes do crime e evitar que a situação se deteriore mais ainda,ou devemos nos levantar e enfrentar oque se nos apresenta? Não é se esgueirando, se acovardando, ou mesmotratando com “panos quentes” que se deterá o que se avizinha para a ciênciabrasileira. O fogo que queimou o Centro de Biotecnologia começou muito antes domês novembro passado. Começou com queima e destruição de experimentos e com aveiculação de absurdos relativamente aos transgênicos. Chegou-se a dizer quetransmitiam AIDS, hepatite B e outras tantas invencionices; até que era pecadoproduzir transgênicos, pois os cientistas “estavam brincando de Deus”. Ora, não faltará alguém ou algum grupopretensamente guardião do Planeta para investir até mesmo contra a instituiçãopública, “purificando” com fogo aquilo que pensa ser tentativa de destruição dahumanidade. Jamais imaginará o incendiário que está destruindo a possibilidadedo Brasil vir a ser independente, através do desenvolvimento de sua própriabiotecnologia, como a própria FAO atesta. É preciso insistir sim, para que as autoridadesdesvendem esse crime contra a alma do País. Mas não basta: é preciso de uma vezpor todas que os brasileiros sejam devidamente informados, através de debatesverdadeiramente sérios. A desinformação propositada também é crime e deveriaser punida como tal. Afinal de contas não foi a desinformação que levou aoincêndio criminoso do centro de pesquisas?Por fim, é preciso sempre lembrar o que disse opoeta: “No começo eles arrancam as flores do nosso jardim...” Impedir que elestentem ir adiante não é colocar mais “lenha na fogueira”, mas tentar retomar asrédeas da situação, começando por quebrar este “silêncio conivente”.
UMA CPI? (dezembro de 2003) Jornal A Razão, Santa Maria-RS Tão logo saiu o laudo que constatou que o incêndio doLaboratório de Biotecnologia do Estado do Rio Grande do Sul, instalado naUFRGS, em Porto Alegre, iniciou-se, via Internet, um movimento por uma CPI paraapurar as relações dos movimentos anti tecnológicos e outros, com o atoterrorista que causou imensos prejuízos à instituição pública nacional.Iniciado pelo engrº Agrº Luiz Alberto S. Mairesse, o pesquisador contou para ARazão que logo se formou uma grande corrente de pesquisadores de todo o País,enviando mensagens a vários deputados, especialmente ao deputado federalDarcísio Perondi e deputado estadual Jerônimo Goergen, pelas relações diretasque tais deputados estão tendo com o tema dos transgênicos. Os fatos ocorridosna UFSM, na última segunda-feira deixaram a comunidade científica e asautoridades ainda mais preocupadas. Relatou-nos o agrônomo Mairesse que faloupor telefone com o deputado Perondi, o qual lhe disse que faria umpronunciamento enfático no Congresso Nacional no dia 17 (ontem), a partir doque, se começaria provavelmente a construção de uma CPI para tratar não sóespecificamente do caso em si, mas avançar de maneira mas ampla a questãodesses movimentos organizados por ONGs internacionais e nacionais e suasrelações com o histórico atraso da pesquisa nacional e gerador dosubdesenvolvimento.Ao nível estadual o assunto está sendo tratado pelopresidente da Assembléia Legislativa, deputado Covatti, pelo deputado BetoAlbuquerque (PSB), pelos deputados do PPS Belfran Rosado e Cezar Busatto eBernardo de Souza, além do deputado Jerônimo Goegen, presidente da Comissão deAgricultura e Pecuária da Assembléia Legislativa. Este último, segundoMairesse, deu-lhe retorno por telefone pela manhã do dia 17, solicitando maisdetalhes sobre o ocorrido em Santa Maria. O deputado garantiu que não mediriaesforços para que se criasse uma CPI, mesmo que tivesse que ser ao nívelfederal, já que o assunto tem esta abrangência. De acordo com Mairesse só uma CPI poderia começar adesvendar as estratégias utilizadas pelo Primeiro Mundo para manter a políticado Apartheid Tecnológico (ouneocolonialismo), que mantém os países de Terceiro Mundo em contínuadependência. Infelizmente, diz ele, certos setores da esquerda, que se julgamguardiões do ambiente, têm sido instrumentos de dominação, investindo contra aciência nacional, a serviço de ONGs ambientalistas como a ActionAid, WWF,Greenpeace e outras.
OS TRANSGÊNICOS E O PROJETO DE BIOSSEGURANÇA (novembro 2003) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Finalmente, depois de muita polêmica, aregulamentação do uso dos organismos geneticamente modificados (OGMs) já é umarealidade muito próxima a ser concretizada, através do Projeto de Lei deBiossegurança, que está hoje em debate por todo o País. Convidado por parlamentares gaúchos da Câmara Federal, tive a honra de poderapresentar parecer e sugestões sobre o referido projeto, em audiência públicana Assembléia Legislativa, dia 24 de novembro último. Dentre as váriasproposições apresentadas, sugeri que houvesse alteração no artigo que exige quecada instituição de pesquisa envolvida com engenharia genética tenha suaprópria Comissão Interna de Biossegurança (CIB). Com o argumento de que estaexigência dificultaria muito as pequenas instituições de pesquisa, que nãopossuem tais comissões, sugeri alteração no sentido de que, trabalhando emparceria com outras instituições, qualquer empresa de pesquisa, inclusive as individuais,poderiam dispor de comissões de biossegurança de outras participantes dosistema cooperativo. Trata-se de proteger as pequenas empresas e fomentar ainiciativa individual para a formação de instituições de pesquisa, muito comumatualmente nos países do Primeiro Mundo e já em fase inicial aqui no Brasil.Argumentei, inclusive, que assim como está o artigo, as pequenas empresas depesquisa que já existem, e que desenvolvem pesquisas através do melhoramentogenético convencional, estarão fadadas a serem extintas, com o avanço dapesquisa em biotecnologia, que tornará rotineira a metodologia hoje tãopolêmica. Por incrível que possa parecer, a resistência apropostas como esta, que buscam democratizar mais o processo, abrindo espaçopara a pesquisa nacional, parte de setores da esquerda, ligados a gruposambientalistas, principalmente. A sugestão unânime de todos os pesquisadores deque a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) mantenha seu poderdecisório e não seja transformada em mera comissão para fins consultivos, foioutra proposição não aceita por tais setores reacionários. Formada por representantes de instituições asmais diversas (inclusive não só de pesquisa), a CTNBio pode ser altamente representativada sociedade brasileira, bastando que se corrija alguns pontos onde tem sidocriticada. Afinal, estão nas mãos do próprio Governo Lula as correções. Pois éexatamente quem defende tanto o chamado Orçamento Participativo que quer tiraro poder de decisão da CTNBio, entregando as decisões científicas para osministérios. Que os ministérios tomemdecisões de ordens gerais e estratégicas (econômicas, políticas, sociais eoutras). Quando os pedidos de registro de cultivares transgênicas forem centenaspor ano, as decisões finais poderão levar anos e a inviabilizar a própriautilização das mesmas. A ciência no Brasil continuará sob o controle do partidopolítico que estiver no poder e vulnerável às relações que este poderá vir ater com grupos internacionais, ferindo os interesses e a soberanianacional. Na votação da medida provisória que liberou o plantioe comercialização da soja transgênica, esses mesmos autoproclamados guardiõesdo ambiente e dos interesses nacionais, protestaram contra a emenda quepermitiu que nossas instituições de pesquisa possam multiplicar provisoriamentesuas próprias variedades transgênicas de soja, de forma a que disponham desemente suficiente o mais rapidamente possível. A ministra do Meio Ambiente garantiu que vai pedir ao Governo Lula paravetar este artigo. A quem realmente beneficiam tais posicionamentos, no mínimoestranhos? Somente a Embrapa já dispões de mais de 40 cultivares transgênicasde soja, que correm sérios riscos de serem perdidas ou ficarem defasadas. Entretanto, este tipo de posicionamento,aparentemente incoerente desses setores da esquerda, já não surpreendemais. A Campanha por um Brasil Livre dosTransgênicos, financiada principalmente pela ActionAid (ONG ambientalistabritânica), conseguiu engessar a pesquisa nacional, diminuindo nossas verbas, eacrescentando mais atraso ainda à nossa já combalida ciência. Conscientementeou não, o ativismo anti-transgênico no Brasil acaba servindo aos interesses doPrimeiro Mundo, na continuidade da política do Apartheid Tecnológico ou doneocolonialismo imposto ao Terceiro Mundo. Todos estes fatos são meras coincidências ou sãofrutos da salada indigesta entre o ecologismo ultraconservador e uma propostasocialista pretensamente progressista? Esta união entre extrema direita eextrema esquerda, que tenta deter a roda da história, parece mais uma vezconfirmar que a frase de Lênin “Os extremos se tocam” está mais viva do quenunca.
TRANSGÊNICOS - ENFRENTANDO O APARTHEID TECNOLÓGICO (novembro de 2003) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
A vida começou há 3,5 bilhões de anos e só chegou à diversidade que hoje conhecemosporque os genes estavam (e estão) sujeitos às mutações. A seleção natural,sempre atuante, encarregou-se de promover especiação, construindo um sistemaorgânico na Terra, onde as espécies compartilham, de acordo com suaproximidade, um número maior ou menor de genes. O DNA (gene) é portantouniversal, ou seja, todos os seres vivos são feitos do mesmo materialcodificador. A decodificação do genoma humano demonstrou que compartilhamosmais de 300 genes com as bactérias, 60 a 70% de genes com as plantas, 99,4% degenes com o chimpanzé e 99,99% de genes entre nós, humanos. Ou seja, somostodos mutantes e transgênicos. Como o DNA é um código, comparável a uma pautamusical, é possível transferir um gene de uma espécie para outra. Imaginemos umacorde musical com algumas notas (um gene) e que este pequeno trecho na pautaseja recortado e transferido para uma outra pauta musical (outra espécie). Umgene codifica para uma enzima. Por exemplo: uma planta resistente à ferrugem dafolha (fungo) significa que ela possui um gene que determina uma enzima(proteína) que participa da síntese de uma substância que protege a plantacontra a referida moléstia. Assim como um músico lê a pauta musical e toca seuinstrumento, gerando sons, que caracterizam uma música, as proteínas RNAspolimerases lêem (decodificam) o DNA (gene) resultando na produção dassubstâncias que dão as características aos seres vivos. Desde 3,5 bilhões de anos atrás as espécies semodificam geneticamente por ação da própria natureza, e há 10 mil anos atrás ohomem começou a atuar diretamente sobre as plantas e animais, selecionando-os emodificando-os para atender às suas necessidades. A agricultura e omelhoramento genético passaram nesses 10 mil anos por três fases fundamentais,antes de chegar a este quarto estágio que ora estamos entrando. Durante esseperíodo a agricultura primitiva, potencialmente esgotada, deu lugar àagricultura empírica e esta, à agricultura experimental, juntamente com omelhoramento genético convencional, baseado na descoberta das leis mendelianas.A chamada Revolução Verde, que possibilitou sermos hoje 6 bilhões dehabitantes, esgotou-se e surgiu então um novo desafio para a humanidade: o deaumentar a produtividade e a qualidade dos cultivos, em áreas de terras cadavez menores, devido à urbanização e para atender às necessidades ambientais.Estamos hoje saindo do chamado Século da Genética para o Século daBiotecnologia. É o princípio do fim dos produtos químicos na indústria,medicina e agricultura, dando lugar aos produtos gênicos, ou seja, estamossubstituindo as substâncias químicas sintéticas pelas substâncias orgânicas,produzidas pelos genes.A descoberta do processo de transgenia, que ocorrenaturalmente, proporcionou aos cientistas a possibilidade de transferir genesde uma espécie para outra, sem necessidade de cruzamentos. A maioria doscruzamentos era limitada dentro da espécie. Em alguns casos era possível, commuita dificuldade e gasto de tempo, produzir transgênicos (exemplo: otriticale). A tecnologia do DNA recombinante (transgenia) coloca então àdisposição da humanidade toda a variabilidade genética do Planeta. É aRevolução Biotecnológica que, como não poderia deixar de ser, como mostra ahistória da humanidade, provoca esta onda reacionária. Todas as etapas deprogresso e todas as invenções da humanidade enfrentaram a reação conservadorade grupos temerosos por mudanças. Felizmente o espírito revolucionário dahumanidade tem vencido desde quando fizemos a primeira revolução ao sairmos dascavernas. Saindo do caos, estamos construindo cada vez mais complexidades e nãohá outra opção, a não ser voltarmos às cavernas. A Revolução Biotecnológica não é apenas uma promessa.Já é uma realidade e aponta para um futuro ainda mais promissor. Vejamosalgumas aplicações da engenharia genética:
1- A resistência de plantas a herbicidas, que tem como exemplo conhecido de todos, a soja resistente ao glifosato é uma grande contribuição ao ambiente e à segurança dos produtores rurais, pela possibilidade de utilização de herbicidas menos tóxicos e menos agressivos ao meio ambiente, como é o caso. Em futuro próximo as plantas de lavoura estarão produzindo seus próprios herbicidas (aleloquímicos) pela transferência de genes de espécies com características alelopáticas. A prospecção de espécies alelopáticas tem sido parte de nosso trabalho na UFSM, com ótimas perspectivas.
2- A resistência a pragas e moléstias é provavelmente o objetivo mais importante da biotecnologia na fase atual, possibilitando a substituição dos agrotóxicos por plantas transgênicas que dispensam os mesmos, por serem resistentes. Um bom exemplo é o milho Bt, resistente à lagarta do cartucho. Na UFSM estamos testando extratos vegetais como inseticidas e fungicidas e os resultados são promissores. Não surpreende, portanto, que empresas produtoras de agrotóxicos, atrasadas na pesquisa genética, tentem frear o processo, valendo-se de ONGs ambientalistas equivocadas na compreensão do contexto.
3- Outra aplicação promissora é no controle biológico, que não teria futuro se não fosse a possibilidade de construção de organismos geneticamente modificados. A utilização do controle biológico em grandes áreas certamente resulta em seleção de resistência da praga ou moléstia. Já foram encontradas lagartas resistentes ao baculovírus e a EMBRAPA já está empenhada na criação de baculovirus modificado.
4- Plantas transgênicas adaptadas à seca, a solos encharcados, ao frio, ao calor, a solos ácidos, a solos salinos, a solos pobres e outros estresses ambientais possibilitam grande economia de energia e preservação ambiental. Os chineses, por exemplo, estão desenvolvendo plantas adaptadas a solos salinos, visando a utilização de 30 milhões de hectares de terras inaproveitáveis.
5- A simbiose de bactérias com leguminosas, na utilização do nitrogênio do ar, dispensando a adubação nitrogenada, pode ser estendida a outras culturas. A descoberta de microorganismos que fazem o mesmo, mas em escala menor em gramíneas, vislumbra a possibilidade de modificar tais organismos, multiplicando suas performances. Trabalhos com relação à absorção de fósforo também estão em fase adiantada. Há que se frisar que os adubos fosfatados estão com seus dias contados, pois se dispõe de matéria prima para no máximo 20 anos. Assim, já se pode falar também em plantas transgênicas dispensando fertilizantes. Não é curioso que defensores da agricultura orgânica sejam contra esta tecnologia?
6- As plantas transgênicas de amadurecimento lento (longa vida) já estão no mercado. Em breve muitas frutas (tomate, mamão, melão, manga, maçã e outras) estarão beneficiando produtores, comércio, indústria, consumidores e ambiente, pelo menor desperdício.
7- As plantas nutracêuticas (enriquecidas nutricionalmente), ricas em vitaminas e sais minerais, com melhor qualidade de proteínas e maior teor de óleos insaturados, estão começando uma verdadeira revolução. Um exemplo importante é o arroz com vitamina A, criado por 7 países europeus, que pretendem livrar da cegueira e da morte, milhões de crianças com carência. Há ainda o arroz com ferro, como prevenção da anemia e outras dezenas de exemplos.
8- Plantas transgênicas descontaminadoras de ambiente, para muitos, é a “menina-dos-olhos” da ciência, possibilitando não só preservar como também recuperar solos e águas contaminados por metais pesados, substâncias tóxicas e até radiatividade. Os canadenses já conseguiram desenvolver plátanos cujas raízes penetram no lençol freático descontaminando as águas.
9- Plantas aromáticas e medicinais transgênicas, com alto teor de ingrediente ativo, tornarão econômica a extração, disponibilizando aos produtores, indústrias e consumidores opções realmente viáveis. Já existem vários exemplos no mundo dessas plantas. O Brasil tem um ótimo potencial, que corre o risco de não ser utilizado pelos brasileiros. Os que fazem bio-pirataria na Amazônia não seriam os mesmos que financiam as campanhas anti-transgênicos no Brasil?
10- As plantas-vacina e as que previnem doenças estão revolucionando a medicina. As vacinas começam a ser incorporadas nas plantas (alface, banana, batata) e plantas transgênicas que previnem o câncer já é realidade. As plantas biofábricas, que produzem medicamentos aumentam ainda mais o potencial das plantas na medicina, e acrescentam aos produtores rurais e consumidores opções jamais imaginadas. Pode-se dizer que o futuro da medicina humana está na dependência destas plantas. Assim, não dá para se imaginar a proibição das plantas transgênicas. Esta ameaça tem por finalidade manter a nossa dependência externa e alimentar o neocolonialismo, que tem como instrumento algumas ONGs ambientalistas no Brasil.
Poder-se-ia ainda discorrer sobre as plantas transgênicas livres de proteínas alergênicas, dos genes “repórteres” , que “avisam” quando a planta sofre algum estresse e de modificações genéticas que não são transmitidas pelo grão de pólen. Estaria faltando relatar as inúmeras possibilidades na área florestal, uma das mais promissoras com esta tecnologia, capaz de alterar drasticamente a qualidade da madeira e outras. Se fôssemos nos deter na área animal onde já existem peixes de alta produtividade, vacas que produzem leite humano ou porcos transgênicos para xeno-transplantes, teríamos que duplicar este espaço. E estaria faltando ainda relatar a utilização na indústria de leveduras transgênicas (queijo, vinho, cerveja, iogurte, etc), de detergentes biodegradáveis e do recente milho com amido modificado, para fabricação de embalagens, roupas e utensílios domésticos. Mesmo assim estaríamos longe de esgotar as possibilidades. Estamos, por exemplo, deixando de lado a aplicação da engenharia genética na informática, onde os cientistas já estão fazendo pesquisas para desenvolver computadores com memória a partir do avanço do conhecimento da estrutura e funcionamento do DNA.
Como se pode observar, o país que não adotar a biotecnologia como ciência estratégica de alta prioridade estará fadado a continuar, por mais um longo período histórico, submisso aos interesses do Primeiro Mundo. Todas as instituições sérias de pesquisa no mundo já aprovaram a biotecnologia. O ativismo anti-biotecnologia tem partido de instituições não científicas e que se utilizam até de meios ilícitos para combater a tecnologia e a pesquisa, como informações falsas, deturpações de resultados de pesquisa e até mesmo da intimidação de cientistas e destruição de laboratórios, casas de vegetação e experimentos de campo.
Já se arriscou no início da polêmica dos transgênicos no Brasil em dizer que os transgênicos poderiam transmitir AIDS, hepatite B ou que provocavam câncer. Depois veio a estória, a partir de um experimento mal conduzido, de que o pólen milho Bt (resistente a insetos) causava a morte da “borboleta monarca”, o que não se confirmou. Veio também a estória do “super inço”, como se uma planta resistente a um determinado herbicida pudesse se tornar um inço ou mesmo passar o gene de resistência para outras espécies, tornando-as resistentes a todos os herbicidas (sic). Para quem não conhece genética é preciso dizer que um gene codifica para uma só enzima e que portanto, a resistência a um herbicida é exclusiva apenas para esta substância. É preciso acrescentar também que trabalho conjunto de 10 anos de cientistas europeus, publicado na Nature em 2001, demonstrou que as variedades transgênicas não são mais invasivas (competitivas) que as convencionais.
Não contentes com o avanço inexorável da tecnologia, os “tecnófobos” se valem atualmente de experimentos sérios para fazer interpretações fantasiosas. É o que está acontecendo no momento, com relação aos experimentos conduzidos no Reino Unido, com beterraba, canola e milho, resistentes a herbicida. Nesses experimentos observou-se que nas lavouras de beterraba e canola havia menos inços e insetos e provavelmente menos pássaros (estes não foram contados). Em milho os resultados foram inversos. Tão logo foi publicado o trabalho, os detratores da tecnologia (mas não os autores) correram para afirmar que estava aí a prova de que os transgênicos “agridem” ao meio ambiente.
Vamos aos fatos: A Royal Society do Reino Unido, associação independente de pesquisadores que está encarregada do estudo, desautorizou a reportagem publicada pelo jornal “ The Guardian”, classificando-a de “especulativa”. Cientistas que trabalham na área são unânimes em afirmar que o que foi constatado é que há menos ervas daninhas e por conseqüência menos insetos nas lavouras de beterraba e canola. Mas por quê os ativistas anti-tecnologia não se referem ao milho onde aconteceu o contrário?
Na verdade tudo isto é o esperado, como bem pode compreender qualquer produtor rural com um mínimo de experiência. A maior eficiência do herbicida usado na lavoura transgênica determina uma menor ocorrência de inços do que na convencional, onde são usados herbicidas menos eficientes, porém mais tóxicos. Ora, era bem provável então que houvesse menos insetos na lavoura transgênica, pela menor presença de outras ervas. Menos insetos, podem significar menos pássaros na lavoura. Isto não significa que a lavoura transgênica acabou com os insetos e os pássaros, como querem fazer passar. Significa, isto sim, que sem a presença dos inços, os insetos não vieram para a lavoura e também nem os pássaros. E mais: que nada disso ocorreu pela condição de transgenia, mas sim pelas diferenças nas práticas culturais. Ora, se é para especular, se poderia dizer então (e isto é bem provável) que os insetos e pássaros ficam nas matas, em áreas não agricultáveis ou em pousio, lá estando livres dos inseticidas e fungicidas que são aplicados também na lavoura transgênica. Na convencional, ao contrário, a maior presença de insetos e pássaros irá significar uma maior mortalidade de ambos, nos momentos de aplicação de agrotóxicos.
Todas as afirmações aqui emitidas podem ser confirmadas no maior site sobre biotecnologia (www.agbioworld.org), que envia diariamente (gratuito) o seu newsletter e que dispõe de matérias antigas também. Pode-se mesmo solicitar para o endereço eletrônico mairesse@terra.com.br, que prontamente será providenciado o envio dos arquivos referidos.
Como se vê, esta é mais uma investida, exatamente no momento da discussão do projeto de biossegurança, que já está no Congresso. A finalidade é impor restrições, que se concretizadas, engessarão principalmente a pesquisa nacional, favorecendo os grandes grupos internacionais, que dispõem de mais recursos financeiros.
É preciso que os verdadeiros brasileiros se unam contra os entreguistas nacionais e neocolonialistas, que se julgam guardiões do ambiente, mas que nada mais são do que instrumentos dos grandes grupos internacionais, que com o pretexto de combater os transgênicos, tentam sucatear a pesquisa brasileira, retirando-nos o interesse de conhecer, pesquisar e utilizar nossa própria biodiversidade, que é a maior do Planeta. Com isto nos surrupiam a Amazônia e aprofundam a política do apartheid tecnológico.
TRANSGÊNICOS: AS FANTASIAS DA “TECNOFOBIA” (outubro de 2003) Luiz Alberto Silveira Mairesse
Sobre transgênicos, o que se pode dizer com certeza é que mais de 2 bilhões de pessoas consomem regularmente estes ou produtos deles oriundos, sem que nem mesmo sequer uma simples alergia tenha sido cientificamente comprovada. Qualquer outra informação diversa, pelo menos até esta data, é equivocada ou pura especulação.
Já se arriscou no início da polêmica em dizer que os transgênicos poderiam transmitir AIDS ou que provocavam câncer. Depois veio a estória, a partir de um experimento mal conduzido, de que o pólen milho Bt (resistente a insetos) causava a morte da “borboleta monarca”, o que não se confirmou. Veio também a estória do “super inço” como se uma planta resistente a um determinado herbicida pudesse se tornar um inço ou mesmo passar o gene de resistência para outras espécies, tornando-as resistentes a “todos os herbicidas” (!). Para as pessoas menos avisadas é preciso dizer que tal gene de resistência é extremamente específico, como o são todos os genes. É preciso acrescentar também que trabalho conjunto de 10 anos de cientistas europeus, publicado na Nature em 2001, demonstrou que as variedades transgênicas não são mais invasivas (competitivas) que as convencionais.
Não contentes com o avanço inexorável da tecnologia, os “tecnófobos” partem agora de experimentos sérios para fazer interpretações fantasiosas. É o que está acontecendo no momento, com relação aos experimentos conduzidos no Reino Unido, com beterraba, canola e milho, resistentes a herbicida. Nesses experimentos observou-se que nas lavouras de beterraba e canola havia menos inços e insetos e provavelmente menos pássaros (estes não foram contados). Em milho os resultados foram inversos. Tão logo foi publicado o trabalho, os detratores da tecnologia (mas não os autores) correram para afirmar que estava aí a prova de que os transgênicos “agridem” ao meio ambiente.
Vamos aos fatos: A Royal Society do Reino Unido, associação independente de pesquisadores que está encarregada do estudo, desautorizou a reportagem publicada pelo jornal “ The Guardian”, classificando-a de “especulativa”. Cientistas que trabalham na área são unânimes em afirmar que o que foi constatado é que há menos ervas daninhas e por conseqüência menos insetos nas lavouras de beterraba e canola. Mas por quê os ativistas anti-tecnologia não se referem ao milho onde aconteceu o contrário?
Na verdade tudo isto é o esperado, como bem pode compreender qualquer produtor rural com um mínimo de experiência. A maior eficiência do herbicida usado na lavoura transgênica determina uma menor ocorrência de inços do que na convencional, onde são usados herbicidas menos eficientes, porém mais tóxicos. Ora, era bem provável então que houvesse menos insetos na lavoura transgênica, pela menor presença de outras ervas. Menos insetos, podem significar menos pássaros na lavoura. Isto não significa que a lavoura transgênica acabou com os insetos e os pássaros, como querem fazer passar. Significa, isto sim, que sem a presença dos inços, os insetos não vieram para a lavoura e também nem os pássaros. E mais: que nada disso ocorreu pela condição de transgenia, mas sim pelas diferenças nas práticas culturais. Ora, se é para especular, se poderia dizer então (e isto é bem provável) que os insetos e pássaros ficam nas matas, em áreas não agricultáveis ou em pousio, lá estando livres dos inseticidas e fungicidas que são aplicados também na lavoura transgênica. Na convencional, ao contrário, a maior presença de insetos e pássaros irá significar uma maior mortalidade de ambos, nos momentos de aplicação de agrotóxicos.
Todas as afirmações aqui emitidas podem ser confirmadas no maior site sobre biotecnologia (www.agbioworld.org), que envia diariamente (gratuito) o seu newsletter e que dispõe de matérias antigas também. Pode-se mesmo solicitar para o endereço eletrônico mairesse@terra.com.br, que prontamente será providenciado o envio dos arquivos referidos.
Como se vê, esta é mais uma investida, exatamente no momento de elaboração do projeto de biossegurança. A finalidade é impor restrições, que se concretizadas, engessarão principalmente a pesquisa nacional. Como os grandes grupos internacionais dispõem de mais recursos e ficarão ilesos, é de se perguntar se não são esses supostos guardiões do ambiente, os verdadeiros instrumentos dos monopólios internacionais. Mas uma pergunta, por si só, responde tudo: Por quê contra os transgênicos só na agricultura?
TRANSGÊNICOS E O APARTHEID TECNOLÓGICO Setembro de 2002 Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
A campanha em atividade no mundo e principalmente no Brasil, contra a utilização dos transgênicos na agricultura (e somente nesta), que visa atrasar a pesquisa agrícola brasileira, desmantelando nossas instituições públicas e abrindo espaço para a penetração dos grandes grupos internacionais, tem também, como todas as coisas, o seu lado positivo: o de desnudar os verdadeiros motivos que estão por trás do ambientalismo internacional, como componente do apartheid tecnológico, que se constitui num dos suportes ao que se convencionou chamar de Nova Ordem Mundial, instituída em 1991, durante o governo George Bush. Tem como objetivo primordial impedir que os países subdesenvolvidos tenham acesso a tecnologias avançadas, sob os mais variados pretextos. Dentre eles, está o da segurança internacional, baseado em que não temos capacidade de lidar com tais tecnologias.
Tem sido sempre assim. A campanha contra o uso da energia nuclear fez com que países como o nosso ficassem para trás na pesquisa. O Brasil acabou comprando usina nuclear da Alemanha, com tecnologia já ultrapassada. A campanha se dizia contra o uso, mas tinha como meta bloquear a pesquisa, como os resultados indicaram mais tarde. Hoje são contra os transgênicos em agricultura, mas na verdade o alvo é a pesquisa na área de biotecnologia agrícola no Brasil. Como no caso da energia nuclear, vamos acabar consumindo transgênicos, sem fazer pesquisa, caso vença a ideologia entreguista.
Com a informática ocorreu algo semelhante. Como não era possível alegar razões relativas à saúde ou ao risco de degradação ambiental, o argumento era de que os computadores iriam promover o desemprego. A tática tem sido culpar o instrumento para esconder a mão que o maneja, como se desemprego não fosse conseqüência ou responsabilidade de um sistema sócio-político. Com os transgênicos em agricultura a campanha também é contra o instrumento, a biotecnologia, ardilosamente escondendo que o balanço entre vantagens e desvantagens de qualquer tecnologia depende de quem detém os conhecimentos na respectiva área. Quando questionados e pressionados neste item, respondem, como sempre tem acontecido através da história, que “nós não temos capacidade para competir” e como solução, apresentam a proibição da tecnologia. Por incrível que possa parecer, este argumento é utilizado (ou repetido?) pelos próprios brasileiros.
O caráter multinacional da política do apartheid pode ser evidenciado pelas entidades que participam da cúpula da oligarquia internacional, que atualmente comanda todas as atividades das ONGs ambientalistas: Fundação Ford, Fundação Rockefeller, Friends of the Earth, WWF, Greenpeace, Action Aid e outras. Aqui no Brasil, diversas ONGs uniram-se na chamada “Campanha Por um Brasil Livre dos Transgênicos”, cuja estratégia principal de ação foi discutida em conferência realizada em outubro de 2001, na Holanda: obstaculizar, de todas as maneiras possíveis, o desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, voltada para a agricultura.
Para que se tenha uma idéia do poder das ONGs internacionais, um recente relatório sobre transgênicos no RS, elaborado por dois professores da UFSC, considerado como “um escândalo” pelos cientistas que trabalham na área agrícola, foi financiado pela Action Aid, que tem como patrono o príncipe Charles. O referido relatório, tido por toda a comunidade científica brasileira como uma peça sem nenhuma consistência científica, correu o País através das ONGs ambientalistas e foi adotado pelo governo do Estado. As conclusões do relatório são tão absurdas que a simples leitura dele tem provocado risos entre os agricultores que plantam transgênicos clandestinamente... Sem qualquer metodologia científica, o relatório concluiu que a soja transgênica é menos produtiva e que o sistema resistência a herbicida é inviável economicamente para os produtores rurais. Que interesse levou a Action Aid em financiar um trabalho destes, visivelmente tendencioso no Rio Grande do Sul? Por quê a despreocupação com o rigor científico nessas questões? Evidentemente que o relatório tinha como alvo, não o produtor rural, mas a grande maioria leiga urbana e que tem poder de influenciar as decisões das autoridades do País.
Compromisso com a verdade científica? Nada disso importa, pois quando pressionados dizem que “contra os transgênicos qualquer coisa é válida”. Já foi assim contra a informática, a energia nuclear, as vacinas, o avião, a fotografia, a locomotiva-a-vapor e todas as grandes invenções. Sobre as vacinas, diziam que transmitiam as doenças, pois eram feitas a partir das mesmas; a fotografia roubava a alma de quem se deixasse fotografar... Não importa o tamanho do absurdo, pois as campanhas apostam no atraso cultural do nosso povo. Por trás das campanhas anti-tecnologia tem estado sempre a política do apartheid tecnológico, tentando perpetuar nossa dependência em ciência & tecnologia e, por conseguinte, manter o colonialismo num platô sempre atualizado.
O ambientalismo internacional tem como objetivo declarado principal “impedir o plantio e consumo de OGMs no Brasil”, o que demonstra o princípio do “vale-tudo” para as ONGs que o compõem. Qualquer tecnologia tem seus riscos e então a primeira regra é limitar-se aos riscos. Como todos os riscos são relativos e como a tecnologia é nova, pode-se fazer o que quiser com os mesmos e então se maximizam os riscos. E como o objetivo é atingir a população desinformada e inculta em sua maioria, fantasiam-se os riscos, inclusive com fraudes científicas. São então estas três regras básicas: Limitar-se aos riscos, maximizá-los e fantasiá-los. Com isto se mobiliza a população para passeatas e protestos e a partir daí tudo passa a ser válido, porque tais organizações pautam-se pelo princípio de que os fins justificam os meios. A história nos mostra que por estes métodos não chegarão a nenhum fim nobre. A ciência continuará avançando. Novas tecnologias continuarão surgindo e serão adotadas. O mundo continuará dando voltas. E os avanços científicos, como ferramentas, continuarão nas mãos de sempre. Até quando?
A maior prova de que os movimentos anti-transgênicos são manipulados por oligarquias internacionais, que atendem aos interesses das grandes empresas multinacionais e governos do chamado Primeiro Mundo, é a ação das ONGs ambientalistas, exclusivamente contra o uso da tecnologia tão somente na agricultura. Por quê razão não há campanhas contra os transgênicos na área de saúde humana, se a aplicação da tecnologia do DNA recombinante nessa área se prestaria muito mais a fantasias do que em agricultura?
Por quê então não haveria interesse da política do apartheid tecnológico em realizar campanhas contra os transgênicos em medicina? A razão é muito simples: porque nesta área já existe monopólio praticamente total. Quem duvidar que procure descobrir, em qualquer farmácia mais próxima, qual a porcentagem de participação de laboratórios brasileiros na fabricação de medicamentos...
Já na área da pesquisa agrícola, mais especificamente no melhoramento vegetal, ocorre o oposto: quase 100% das cultivares são criações de instituições nacionais, principalmente públicas. Na área da saúde humana não há necessidade da pesquisa no local, pois, por exemplo, um antibiótico aprovado nos EUA, terá efeito idêntico no Brasil. Já uma variedade mexicana de trigo, de alta produtividade, certamente não se adapta às nossas condições. Assim, em agricultura a pesquisa tem que ser realizada no local e se uma multinacional quiser entrar nesta área, terá que se instalar aqui. Como temos uma estrutura muito bem organizada e tradicional, não há outra maneira de se obter sucesso aqui, que não seja desmantelar nossa pesquisa e nossas instituições; e não há opção melhor do que cercear os avanços científicos. Sem se reciclar continuamente, adotando novas tecnologias, em função de novas descobertas científicas, não há instituição ou empresa que resista, em qualquer área que se possa imaginar. Não é por acaso então que esses grandes grupos internacionais buscaram aqui dentro do País seus aliados: algumas ONGs, que arregimentam movimentos sociais legítimos, como o MST, MAB e outros, dando uma aparência insuspeita à conspiração pelo atraso tecnológico do Brasil.
Como na questão da energia nuclear e na informática, a verdadeira meta é mais uma vez fazer com que o Primeiro Mundo nos imponha suas “soluções”.
Não podemos continuar atrelados intelectualmente, dependentes de que os países desenvolvidos “solucionem” nossos problemas e implantem seus processos e produtos. A tecnologia importada responde a outras prioridades e não às nossas, levando à dependência de insumos e instalações e, conseqüentemente, dependência econômica e política. A biotecnologia, devido às suas características de ciência aberta, pode vir a representar uma real oportunidade de desenvolvimento para o País, pois diferentemente da informática, esta ciência pode ser totalmente nacional, pois pouco depende de instalações e componentes importados, bastando apenas vontade política.
A política do apartheid tecnológico, elaborada pelos governos do Primeiro Mundo e colocada em prática pelo movimento ambientalista internacional, através de suas sucursais nacionais, pretende excluir o Brasil do grupo detentor de conhecimentos na área da biotecnologia moderna, sob o pretexto, mais uma vez, de que não somos capazes de lidar com tecnologias de ponta. Mais uma vez, com sempre tem acontecido, vitorioso o plano neocolonialista, estaremos consumindo e plantando transgênicos, como se nada tivesse acontecido. Nossas instituições de pesquisa agrícola, entretanto, estarão desativadas e os grandes grupos internacionais estarão fazendo em nosso meio, aquilo que nos foi negado realizar aqui dentro de nossa Nação.
OS TRANSGÊNICOS E A LEI DE PROTEÇÃO DE CULTIVARES (agosto de 2002) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Muitos brasileiros invejam o avanço dos países desenvolvidos, mas ao mesmo tempo se surpreendem com o empenho com que estes se dedicam ao trabalho ou mesmo com o rigor no cumprimento das leis, que muitas vezes chega a nos chocar, acostumados que somos, como país subdesenvolvido, a ver diariamente as leis serem infringidas, sem que nada aconteça.
O caso do agricultor canadense, processado por uma multinacional e considerado culpado (podendo haver apelação) pela justiça do Canadá, por plantio ilegal de sementes de canola, tem sido usado por algumas ONGs, como exemplo, inclusive para o Brasil, do “perigo” dos transgênicos.
Trata-se, entretanto, de uma grosseira manipulação de fatos e equívocos, prestando um grande desserviço para a sociedade, principalmente entre a grande maioria da população leiga desinformada, mas que pode ser importante nos rumos de nossa pesquisa, pela influência nas decisões das autoridades governamentais.
O primeiro equívoco é imaginar, ingenuamente, que num país, como o Canadá, que tem o mais alto índice de qualidade de vida do Planeta, possa haver uma justiça de Quarto Mundo, capaz de condenar um inocente, de forma tribal, como se faz supor, sem direito a uma defesa livre e ampla.
A segunda impossibilidade sugere que grande parte das variedades criadas pelo agricultor processado se tornaram também resistentes ao herbicida. Sem a atuação direta do agricultor na seleção, décadas não seriam suficientes para que isto acontecesse, como qualquer melhorista de plantas sabe muito bem. Restam então apenas duas possibilidades: que ele tenha selecionado algumas plantas para multiplicação por vários anos ou que tenha adquirido de um agricultor vizinho. A segunda hipótese é evidentemente a mais crível.
Deixando de lado o mérito da questão, que pode servir de exemplo para o Canadá, EUA e outros países do Primeiro Mundo, podemos afirmar que, diferentemente do que tem sido sugerido, o fato não nos afeta, pelo simples motivo de que nossa legislação sobre o assunto é muito diferente. A Lei de Proteção de Cultivares, nº 9.456/97, diz no seu art. 10: “Não fere o direito de propriedade sobre a cultivar protegida aquele que: I reserva e planta sementes para uso próprio, em seu estabelecimento ou em estabelecimento de terceiros cuja posse detenha; II usa ou vende como alimento ou matéria-prima o produto obtido do seu plantio, exceto para fins reprodutivos...” Ou seja: uma vez adquirida a semente, o agricultor pode utilizá-la como própria, por tempo indeterminado. Para derrubar totalmente o argumento do “perigo” das sementes transgênicas, há que se ressaltar que a lei abrange todas as cultivares, independentemente de como tenham sido criadas. Assim, os temores não podem ser diferentes em relação às cultivares convencionais. Acrescente-se ainda que dos 60 milhões de hectares de transgênicos no mundo, o Canadá e os EUA, com legislação rigorosa, respondem por mais da metade e a área continua aumentando. Não são esses produtores que estão quebrados.
Se o receio ainda fosse a “agressividade” dos transgênicos e a contaminação de outras lavouras, recente trabalho de 10 anos, envolvendo cientistas da Suíça, Holanda, França, Dinamarca e Inglaterra, demonstrou que as cultivares transgênicas não diferem das demais, ou seja, não tendem a contaminar outras plantas ou se tornar ervas daninhas invulneráveis a herbicidas (www.nature.com, 08/02/2001). Este é um fato incontestável, publicado numa das mais importantes revistas científicas do mundo.
Finalmente, há um argumento imbatível: a inexorabilidade da adoção de cultivares transgênicas, pelo comprovado esgotamento do potencial do melhoramento genético convencional. Ou seja: há consenso mundial de que não há mais variabilidade útil e viável suficiente, em quase 100% do que se consome, para a transferência de genes dentro da espécie. Assim, se nossas variedades serão um dia todas transgênicas, se faz urgente que nossas instituições públicas de pesquisa invistam imediatamente na área.
As objeções aos transgênicos em agricultura (por quê só em agricultura?), sem fundamentação científica, só têm promovido o sucateamento de nossas instituições e criado mais espaços às multinacionais.
A FALSA POLÊMICA DOS TRANSGÊNICOS (março de 2002) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
A agricultura convencional não tem mais condições de suportar os novos desafios para a humanidade, pois já teve seu potencial esgotado. É consenso entre os cientistas que o próprio melhoramento genético convencional esgotou-se pela falta de variabilidade genética dentro da espécie. Os agrotóxicos, por exemplo, não têm sido mais eficientes para controlar pragas e moléstias, pois a velocidade com que estas adquirem resistência aos produtos químicos é maior do que a velocidade de elaboração de novas fórmulas de defensivos agrícolas por parte da indústria. E o desafio central é o de produzir mais e com melhor qualidade, em áreas de terras cada vez mais reduzidas, pelo avanço da urbanização e necessidade de preservação ambiental. Felizmente, ao invés de um abismo, temos pela frente a Revolução da Biotecnologia, tendo a engenharia genética como principal ferramenta e os organismos geneticamente modificados (OGMs) como a solução básica para esta nova etapa.
Dentre os OGMs, as plantas transgênicas ocupam um lugar importante, pois são elas que estão revolucionando a agricultura. Não há mais barreiras entre espécies e nem propriamente cruzamentos. Qualquer ser vivo pode fornecer um gene (uma determinada característica) para outro. Um gene que interessa pode ser isolado e clonado (multiplicado) em laboratório. Após, pode ser introduzido na variedade de planta que interessa (geralmente uma que está em cultivo). A variedade recebe então o gene, sem os inconvenientes do método convencional, o que torna o melhoramento genético bem mais eficiente e seguro.
Variedades resistentes a pragas e moléstias, dispensando o uso de agrotóxicos; resistentes ao frio, ao calor, à seca, a solos encharcados, a solos ácidos, a solos salinos, adaptadas a solos pobres e outros caracteres, preservando e recuperando o ambiente, certamente proporcionarão mais segurança de colheita e maior previsibilidade. Cultivares com melhor qualidade industrial e com características especiais facilitarão a comercialização da produção, pela procura pela indústria e pelo maior interesse dos consumidores.. Enfim, a agricultura, com o apoio da biotecnologia, encaminhar-se-á definitivamente para ser uma atividade de alta precisão, com o que, os produtores rurais e, conseqüentemente, toda a sociedade serão beneficiados.
Apesar da resistência, os transgênicos vieram para ficar, pois já ocupam no mundo quase 50 milhões de hectares e são consumidos regularmente por mais de 2 bilhões de pessoas, sem que tenha havido sequer uma só vítima comprovada, nem mesmo uma simples alergia.
De acordo com a FAO, esta é uma das poucas tecnologias que podemos desenvolver sem nenhuma dependência do Primeiro Mundo. A última Declaração Universal das Academias de Ciências recomenda a todos os países, principalmente aos do Terceiro Mundo, que invistam em biotecnologia, mais especificamente em plantas transgênicas (fonte: Academia Brasileira de Ciências: www.abc.org -12/07/2000). De grande repercussão foi o recente relatório da União Européia (http://europa.eu.int/comm/research/quality-of-life/gmo/index.html – 09/10/2001) que atestou a segurança dos transgênicos em 15 anos de pesquisas, considerando, inclusive, esta tecnologia tão ou mais segura que as convencionais. Enfim, não há sequer uma só instituição científica séria no mundo que deixe de apoiar esta tecnologia como fundamental para vencer os novos desafios da humanidade no próximo milênio.
Acrescente-se que no Brasil a engenharia genética também tem o apoio explícito de praticamente todas as instituições e associações cientificas direta ou indiretamente ligadas à área de biotecnologia.
Que organizações são então contrárias a esta nova tecnologia?
São geralmente associações fundamentalistas, defendendo dogmas religiosos. São grupos ambientalistas fanáticos, avessos a qualquer tecnologia avançada, que atuam também em associações de consumidores. São facções sectárias de esquerda, que ainda não aprenderam com os erros do Stalinismo na antiga URSS, onde a genética foi oficialmente declarada como a “pseudo-ciência da burguesia”. Enfim, são aquelas mesmas mentes que outrora foram contra a locomotiva-a-vapor, a fotografia, o avião e as vacinas. E é, conseqüentemente, por conta da propaganda enganosa, que grande parcela da população leiga, por desconhecimento, rejeita ainda os transgênicos. Tais organizações, conscientemente ou não, estão prestando no Brasil em imenso desserviço para com as causas sociais, que afirmam defender, constituindo-se, na verdade, em instrumentos dos grandes grupos internacionais, pois criando entraves para a pesquisa em biotecnologia no País, estão na verdade preparando terreno para o monopólio internacional. Criando uma falsa polêmica, confundem a população e os políticos, gerando atraso para o Brasil, o que poderá ser fator negativo decisivo na luta pelo nosso desenvolvimento.
É uma falsa polêmica sim, pois as contraposições aos transgênicos não têm base científica, mas que pode ter conseqüências desastrosas verdadeiras para a Nação.
A CRUZADA DO III MILÊNIO (dezembro de 2001) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
5 de junho de 2001. Começa a semana dedicada à defesa do ambiente em que vivemos. Estamos no primeiro ano do terceiro milênio. Começa mais uma palestra na Universidade Federal de Santa Maria, no imenso, bem aparelhado e confortável salão anexo ao Centro de Ciências Rurais. Pouco antes de iniciar, o ilustre palestrante está rodeado de crianças, estudantes do primeiro grau, que buscam seu autógrafo em livro recentemente lançado. São pequeninos de pouco mais de 6 anos e até adolescentes, que juntamente com estudantes de nível superior e professores universitários estão por assistir uma palestra sobre transgênicos.
Há cinqüenta anos atrás, quando nem este termo era conhecido, olhando pela janela do tempo, como interpretaríamos um cenário como este, com uma platéia tão heterogênea? Algo como: Que fantástico! Nossas crianças tão avançadas que serão capazes de assistir e decerto absorver conhecimentos também destinados a doutores! Que metodologia fantástica é essa que foi desenvolvida, capaz de vencer diferenças tão grandes de idade e escolaridade? Os sonhadores provavelmente diriam: finalmente podemos ter certeza que uma sociedade igualitária e libertária é possível! Os cientistas, por sua vez afirmariam: é a força libertadora do avanço da ciência! Enfim, muito se imaginaria cinqüenta anos antes, diante de uma cena destas no início de terceiro milênio. Mas vamos à realidade dos nossos dias...
Efetivamente começa a palestra com o ilustre professor ambientalista projetando numa grande tela figuras de monstros, múmias, ossadas humanas e outras. São cabeças humanas e animais com orelhas, olhos e nariz de vegetal, expelindo hortaliças, cobras, lagartixas e outros bichos pelos orifícios. Muitas são obras de arte e outras são de achados históricos. Quando é assim, não há o que reclamar... Afinal de contas, as crianças estão acostumadas a ver coisas piores na televisão...
A palestra se estende e por muito tempo o ministrante vai fazendo suas projeções de anomalias, discorrendo sobre elas. Todos absorvem, evidentemente cada um a sua maneira, tão heterogênea é a platéia. Mas o que tudo isto tem a ver com o título da palestra: transgênicos?
Habilmente o palestrante vai construindo uma fictícia ponte envolvendo os avanços da ciência e da tecnologia e que acaba por chegar aos organismos geneticamente modificados: os transgênicos. Apresenta então resultados de alguns experimentos não conclusivos, opiniões de outros de sua organização e fecha a palestra brilhantemente: mais um ferimento nesse monstro chamado transgênico. Contraponto? Nenhum. Nem mesmo outra palestra com alguém com visão diferente. Afinal de contas, o que ali se quis provar é que o que foi dito é a verdade absoluta. Contrapor, para quê?
Entretanto quem foi ferido não foi o “monstro transgênico”. Feridos foram os cérebros das crianças e adolescentes presentes. Como reagirão daqui para diante, quando os termos “transgênico” ou “ciência e tecnologia” surgirem? Reagirão com medo ou agressividade? Que farão quando adultos? Destruirão instituições de pesquisa ou tão somente perderão o interesse pelo estudo? Afinal de contas, avançar no conhecimento científico só fará por libertar os monstros daquela palestra, incrustados no inconsciente...
Este tipo de propaganda, proibido em muitos países, deveria pelo menos ser acompanhado por nossas autoridades responsáveis no Judiciário e profissionais da área de psicologia. Acrescente-se que a metodologia do referido palestrante não é algo isolado. Tem sido muito comum em eventos semelhantes e parece ser orquestrado, tamanha é a coincidência dos conteúdos.
Para todos nós deve ficar uma imensa preocupação: começou a Cruzada do III Milênio? Uma nova e imensa investida contra a Ciência? É importante observar que de tempos em tempos tem surgido esses movimentos contra os avanços científicos, mas parece que este, com uma certa uniformidade em termos mundiais, pode ser extremamente danoso. Com conteúdo reacionário e metodologia nazi-fascista, tem a fachada do ambientalismo, de uma pseudo-esquerda fanática e da religiosidade, que lhes dão credibilidade necessária para avançar. Alie-se a tudo isto o impacto psicológico da virada de milênio numa população majoritariamente pobre, inculta e principalmente sem perspectivas.
Tais organizações, suspeitas pela metodologia que empregam, se dizem precursoras de um novo mundo equilibrado ecologicamente e socialmente justo, com estabelecimento de um limite para o avanço da ciência, com base em que os seres vivos, sendo sistemas altamente complexos, limitam as possibilidades do homem em extrair mais conhecimentos dos mesmos. Ou seja: pouco há que se fazer em termos de avanços tecnológicos, senão utilizar o que já se dispõe. Algumas coisas já são avançadas demais, como a biotecnologia, a física nuclear e outras. Para Mae-Wan Ho, a principal líder mundial do movimento anti-tecnologia, a biologia molecular “tem o potencial de destruir toda a vida na Terra e minar todos os valores sociais e espirituais que nos faz como humanos...” A empresa Genetic ID (prestes a fazer convênio com o Governo do Estado do RS), pertencente a um poderoso grupo internacional que envolve dezenas de empresas, dá a sustentação “científica” a esse movimento. Seus principais donos tem ligações com o fundamentalismo Hindu e com o Partido Nazista norte-americano. E isto não é segredo... O nacionalismo, até então inimigo histórico da esquerda por esta ser internacionalista, passa a ser aliado estratégico. Atente-se para o “caso Bové” e o famoso episódio “somos Bové”. Também não é segredo. Segredo deve ser por quais caminhos andou essa pseudo-esquerda que a levaram a fazer estranhas alianças...
Há que se perguntar: este “filme” não é o mesmo que se tem assistido desde que a humanidade existe? Há mais de quinhentos anos poucos acreditavam que Colombo encontraria um Novo Mundo ou que essa descoberta seria importante. No século 18 já se dizia que tudo que poderia se inventar já tinha sido inventado pela humanidade! Hoje estamos assistindo o mesmo “filme” projetado do passado, que nada mais é do que a relutância natural em aceitar o novo. Qualquer objeto reage à mudança de posição, necessitando ser alavancado. Aos seres vivos, qualquer alteração em seu meio provoca uma reação, que nada mais é do que efeito dos rearranjos de uma nova interação do seu genótipo com o ambiente. Para as sociedades humanas, no debate de sua organização, tais reações são benéficas, pois promovem a dúvida e esta determina a polêmica, que promove o conhecimento e o entendimento. Na bioquímica, reações não espontâneas precisam de uma fase preparatória para elevar o nível energético acima de um limite que desencadeie a reação total. Já disse Francis Bacon: “Só a dúvida conduz à verdade”. Entretanto esta resistência natural pode ganhar contornos doentios quando o genótipo ou o reagente resolve se fixar e estabelecer um vínculo definitivo com uma condição antiga, criando uma situação de fobia para com a nova condição. Como a natureza nos impõe a evolução ou a extinção, é exatamente o medo doentio do novo que se torna o grande perigo para a humanidade.
O que está sendo feito com nossas crianças é algo terrível e monstruoso. Quantos séculos levaremos para entender o que elas farão mais tarde? A lavagem cerebral que estão fazendo com esses meninos e meninas impede que pensem por si mesmo. Impõe-lhes barreiras psicológicas, de forma a raciocinar a partir de dogmas e a agir como se fossem guardiões do Planeta. Serão novos Bové e aiatolás ou mais que isto, Hitler e Mussolini? E mais uma vez as idéias libertárias de uma sociedade justa por ser livre e eficiente terão sido utópicas, a não ser que realmente demonstremos estar preocupados com o futuro de nossas crianças. Temos que ser para elas, como sugere o mestre Gibram, o arco que impulsiona as flechas. Estas, livres, escolherão o caminho a seguir. Mas não fiquemos apenas no discurso, antes que seja tarde...
TRANSGÊNICOS: ASPECTOS ECONÔMICOS (dezembro de 2001) Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Mais de 2,5 bilhões de pessoas no mundo se alimentam ou utilizam regularmente transgênicos ou seus produtos, cultivados em mais de 40 milhões de hectares, sem qualquer problema para a saúde ou ambiente. Para os poucos casos sob suspeita, estudos científicos mais aprofundados têm imediatamente inocentado as técnicas de transgenia . Isto não quer dizer segurança absoluta, pois não existe risco zero. Significa, isto sim, que estamos diante da tecnologia mais limpa que já se propôs, que aliada com os extremos cuidados com que os cientistas fazem seus testes, a humanidade já começa a experimentar uma verdadeira revolução, diante da possibilidade de dispor de alimentos não só livre de venenos, como também direcionados para específicos interesses, como os alimentos mais ricos em proteínas, vitaminas, sais minerais, livre de ácidos graxos não saturados, controladores de problemas diversos de saúde (diabetes, colesterol alto, hipertensão arterial, etc), com vacinas (alimentos-vacina), etc. Acrescente-se ainda as aplicações das técnicas de DNA na indústria, na ecologia, na informática e tantos outras. Isto, por si só, segundo os especialistas, é suficiente para colocar a biotecnologia como a ciência economicamente mais importante do século 21 e não é a toa que os países desenvolvidos têm mantido uma verdadeira guerra econômica, muitas vezes extremamente suja, manipulando pessoas e instituições, que ingenuamente (nem sempre), em nome de causas nobres acabam prestando um desserviço à justiça social, combatendo o instrumento, esquecendo a mão que o maneja.
A biotecnologia, segundo a FAO, é uma das poucas que podemos desenvolver de forma independente e concorrer em pé de igualdade com o Primeiro Mundo; e é ao mesmo tempo a mais importante e estratégica de todas, capaz de alterar o rumo das coisas. Por isto mesmo é praticamente uma imposição: ou abraçamos com intensidade esta perspectiva ou estaremos fadados a ser entreposto dos grandes grupos internacionais.
Não podemos continuar atrelados intelectualmente, dependentes de que os países desenvolvidos “solucionem” nossos problemas e implantem seus processos e produtos. A tecnologia importada responde a outras prioridades e não às nossas, levando à dependência de insumos e instalações e, consequentemente, dependência econômica e política. A clausura não nos serve, tampouco é possível.
Nos EUA, apesar das dezenas de ataques de pseudo-ecologistas, destruindo máquinas e propriedades rurais, experimentos em casas de vegetação e laboratórios de universidades, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou, em seu último relatório um aumento significativo na área de transgênicos, contrariando as expectativas que apontavam para uma queda. Fonte: www.usda.gov
Na China, primeiro país a comercializar e que possui o maior número de cultivares transgênicas no mundo, segundo relatório divulgado pelo Ministério da Agricultura chinês, houve um plantio de mais de um milhão de hectares de algodão transgênico resistente a insetos, em 1999, diminuindo em até 8 vezes a aplicação de agrotóxicos nas plantações. Fonte www.biotecnologia.com.br e CTNBio.
Os cubanos já lançaram mais de 200 organismos transgênicos nas áreas de agricultura, medicina e indústria, tendo já patenteado seus produtos em mais de 70 países. Fonte www.biotecnologia.com.br
Dentre os principais fatores que encorajam países e empresas a investirem nos transgênicos, além da diminuição dos custos de produção e da inegável gama de aplicações em todas as áreas do conhecimento, estão os inúmeros resultados de estudos científicos comprovando a segurança dos mesmos para a saúde. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (www.national-academies.org); o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (www.usda.org); a OECD (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) representando 29 países desenvolvidos, com sede na França ( www.oecd.org ); a Sociedade Internacional de Patologia Vegetal (ISPP) no último encontro em Pequim (China- www.ipssweb.org) e tantas outras, possuem em seus sites informações que corroboram com as afirmações iniciais. Acrescente-se a tudo isto as manifestações unânimes das academias de ciências de todo o mundo, bem como de todas as associações de cientistas que trabalham e conhecem a referida área.
Os europeus, ao mesmo tempo em que tentam conter o avanço das pesquisas, devido a distância em relação aos EUA, correm e aplicam bilhões de dólares em suas instituições de pesquisa. Sugerem e apoiam (mas não para seus países) financeiramente campanhas para a formação de zonas livres de transgênicos em regiões subdesenvolvidas, com promessa de pagarem mais pelos produtos não transgênicos. Assim, surgem Egito, Turquia, etc. Por quê não na França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e outros? Porque estes estão, por exemplo, lançando o arroz transgênico rico em caroteno e brevemente em ferro, para serem cultivados e consumidos nos países desenvolvidos? É preciso ser muito ingênuo para não entender a proposta de “zona livre dos transgênicos”, que pode ser traduzida para “zona livre da ciência”.
A única proposta econômica e socialmente viável é a diversidade tecnológica, beneficiando produtores, consumidores e ambiente. Agricultura convencional, orgânica, ecológica, biodinâmica, ou seja lá o que for, podem e devem conviver. A biotecnologia surge como uma nova ferramenta auxiliar, capaz de estabelecer novos horizontes de produtividade e qualidade na agropecuária. As variedades transgênicas são a única opção ao já constatado esgotamento do melhoramento genético convencional, já que para quase 100 % das variedades cultivadas não há mais variabilidade genética disponível dentro da espécie. A transgenia nos abre possibilidade de buscar livremente caracteres noutras espécies, ficando toda a variabilidade genética do planeta ao nosso dispor. Este argumento irrefutável, por si só, deveria ser suficiente para encerrar as discussões. Será que alguém imagina não ser mais necessário aumentar a produtividade na agricultura?
UMA ZONA LIVRE DA CIÊNCIA! (dezembro de 2001) Prof.Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Os constrangimentos sofridos por um pesquisador em Júlio de Castilhos, tratado como um delinqüente, obrigado a arrancar e incinerar 63 pés de soja (como se fossem de coca) e a forma como foi denunciado, por si só já nos remetem à época da Inquisição, quando a Igreja Católica levou à fogueira muitos milhares de inocentes. Mas a imagem do pesquisador do IRGA, tentando justificar-se diante de um grupo que, carregando cartazes dizendo “Transgênicos: as sementes da morte”, queria arrancar as plantas de arroz, como se estas tivessem algo a ver com o “demônio”, é muito mais forte. Lembra-nos de Galileo, esforçando-se por redimir-se perante uma platéia de incultos por seu “engano” em achar que era a Terra que girava em torno do Sol.
Pode parecer uma contradição, mas somente com uma agricultura cada vez mais tecnificada, ou seja, mais produtiva, será possível preservar e recuperar o ambiente em que vivemos. O avanço na ciência, ou seja, no conhecimento, é a única forma capaz de acompanhar e até de ultrapassar o crescimento geométrico da população do planeta e é a base de sustentação para qualquer sonho de justiça social.
A era dos agrotóxicos está no fim, mas teve um papel importante. Não fossem esses, calculam os especialistas, estaríamos hoje no mundo utilizando uma área de terras três vezes superior e as catástrofes geradas pela fome seriam bem mais trágicas do que aquela que matou mais de um milhão de pessoas no século passado, na Irlanda, devido a “requeima” da batatinha; sem considerar a falta de estatísticas referentes aos milhões de mortos, devido às destruições de extensas regiões causadas pelas quilométricas nuvens de gafanhotos, que dizimavam tudo que fosse verde.
As intoxicações diretas ou indiretas e a poluição por agrotóxicos foi o problema posterior, mas de muito menor intensidade. Na natureza é assim: a ciência (ou melhor, a tecnologia) resolve um problema substituindo-o por outro de menor intensidade, desde que sejamos suficientemente sábios para regulamentar o uso das novas descobertas.
Os organismos transgênicos fazem parte de uma nova etapa na solução dos problemas da humanidade. As desvantagens, bem menores do que as vantagens, devem ser consideradas na regulamentação do uso, para minimizar possíveis problemas.
É uma tremenda utopia e um terrível desserviço para com as causas sociais tentar impedir o avanço da ciência, como se as tecnologias geradas por aquela fossem as causas dos problemas dos desafortunados. A boa intenção e a falta de conhecimento são ingredientes suficientes para se gerar uma Lei, que muito mais do que solução, resulta num problema maior e acaba por atender aos interesses mais vulgares e retrógrados das sociedades humanas, como os de algumas multinacionais produtoras de agrotóxicos... Que relação será que existe, nesta época de globalização, entre as multinacionais que se dizem “compradoras de produtos não transgênicos” e as produtoras de agrotóxicos, que seriam as mais atingidas com a produção de organismos transgênicos resistentes a pragas e moléstias? E as relações com os agentes tupiniquins?
O projeto de lei que está por ser votado na Assembléia Legislativa, que “Veda o cultivo comercial de organismos geneticamente modificados (OGMs) no Estado do Rio Grande do Sul ...”, mais do que transformar o RS em “uma zona livre dos transgênicos”, leva-nos à condição de zona livre da ciência, pois inviabiliza a pesquisa com transgênicos, já que os produtos desta teriam seu uso proibido e em última instância restringe a própria pesquisa em biotecnologia, a ciência do terceiro milênio. Se alguém duvidar desta afirmação é só ler o novo programa de pesquisa (objetivos e metas) da Fepagro, recentemente lançado.
Santa Maria, 26 de Setembro de 1999.
SUSTENTABILIDADE E ENGENHARIA GENÉTICA Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
Pode parecer uma contradição, mas somente com uma agricultura cada vez mais tecnificada, ou seja, mais produtiva, será possível preservar e recuperar o ambiente em que vivemos. O avanço na ciência, ou seja, no conhecimento, é a única forma capaz de acompanhar e até de ultrapassar o crescimento geométrico da população do planeta e é a principal base de sustentação para qualquer sonho de justiça social.
A era dos agroquímicos está no fim, mas teve um papel importante. Entretanto, não fossem esses, calculam os especialistas, estaríamos hoje no mundo utilizando uma área de terras três vezes superior e as catástrofes geradas pela fome seriam bem mais trágicas do que aquela que matou mais de um milhão de pessoas no século 19, na Irlanda, devido a “requeima” da batatinha; sem considerar a falta de estatísticas referentes aos milhões de mortos, devido às destruições de extensas regiões causadas pelas literalmente quilométricas nuvens de gafanhotos, que dizimavam tudo que fosse verde.
A agricultura convencional não tem mais condições de suportar os novos desafios para a humanidade, pois já teve seu potencial esgotado. É consenso entre os cientistas que o próprio melhoramento genético convencional esgotou-se pela falta de variabilidade genética dentro da espécie. Os agrotóxicos, por exemplo, não têm sido mais eficientes para controlar insetos-praga e doenças das plantas, pois a velocidade com que estas adquirem resistência aos produtos químicos é maior do que a velocidade de elaboração de novas fórmulas de defensivos agrícolas por parte da indústria. E o desafio central é o de produzir mais e com melhor qualidade, em áreas de terras cada vez mais reduzidas, pelo avanço da urbanização e necessidade de preservação ambiental. Felizmente, ao invés de um abismo, temos pela frente a Revolução da Biotecnologia, tendo a engenharia genética como principal ferramenta e os organismos geneticamente modificados (OGMs) como a solução básica para esta nova etapa.
Dentre os OGMs, as plantas transgênicas ocupam um lugar importante, pois são elas que estão revolucionando a agricultura. Não há mais barreiras entre espécies e nem propriamente cruzamentos. Qualquer ser vivo pode fornecer um gene (uma determinada característica) para outro. Um gene que interessa pode ser isolado e clonado (multiplicado) em laboratório. Após, pode ser introduzido na variedade de planta que interessa (geralmente uma que está em cultivo). A variedade recebe então o novo caráter, sem os inconvenientes do método convencional, o que torna o melhoramento genético bem mais eficiente e seguro.
Variedades resistentes ou tolerantes a pragas, dispensando o uso de agrotóxicos; adaptadas ao frio, ao calor e à seca; a solos encharcados, a solos ácidos, a solos salinos, a solos pobres e outros caracteres, preservando e recuperando o ambiente, certamente proporcionarão mais segurança de colheita e maior previsibilidade. Cultivares com melhor qualidade industrial e com características especiais facilitarão a comercialização da produção, pela procura pela indústria e pelo maior interesse dos consumidores... Enfim, a agricultura, com o apoio da biotecnologia, encaminhar-se-á definitivamente para ser uma atividade de alta precisão, com o que, os produtores rurais e, conseqüentemente, toda a sociedade serão beneficiados.
Sustentabilidade, portanto, só é vislumbrada com avanços; jamais com recuos. Com raras exceções, não é por acaso que nos países mais avançados tecnologicamente a natureza tem sido tratada com mais cuidado e onde as desigualdades sociais são cada vez menores.
Eng.º Agr.º, Dr. em Agronomia, professor da UERGS (mairesse@terra.com.br)
CÉLULAS-TRONCO: VIVAS SIM, MAS NÃO VIDAS HUMANAS Prof. Dr.Luiz Alberto Silveira Mairesse
A célula-tronco é um tipo de célula capaz de se diferenciar e constituir diferentes tecidos num organismo. Logo após a fecundação já se inicia a divisão celular e o embrião formado, constituído de algumas poucas dezenas de células, e com alguns dias, apresenta um potencial para que sejam desenvolvidos em laboratório mais de 200 tipos de tecidos que formam o corpo humano. Isto abre espaço para a cura de inúmeras doenças, muitas das quais consideradas ainda hoje incuráveis. Pessoas com doenças neuromusculares, renais, cardíacas, hepáticas, pulmonares, diabetes, leucemia, e muitas outras, poderão ser beneficiadas, não somente com a diminuição do sofrimento, mas com a cura. É a esperança concreta para centenas de milhares de deficientes físicos no Brasil e milhões no mundo.
Obteve-se um grande avanço aprovando no Congresso Nacional pesquisas com células-tronco. Entretanto, a vitória ainda não está garantida, pois concepções filosóficas excêntricas e o falso sentimento religioso que nada tem de cristão, cegos para o sofrimento humano, ainda sustentam que as pesquisas com células-tronco deveriam ser proibidas, pois que já “são vidas”, ou que os cientistas estão interferindo na vida, o que não é permitido ao homem. Os cientistas estariam também querendo “imitar Deus”... Mas quem são esses “iluminados” que se julgam conhecedores dos desígnios de Deus?
Ora, vida existe em qualquer célula, seja ela isolada ou não; seja até mesmo numa célula haplóide, como o óvulo ou um dos milhões de espermatozóides de uma simples ejaculação. O embrião a ser utilizado é constituído de algumas poucas dezenas de células. Pelo raciocínio filosófico-religioso não importa nem mesmo que os milhares de embriões congelados, existentes hoje no Brasil, tenham como destino o lixo, ao invés de salvarem vidas humanas ou trazer paraplégicos, cegos e outros deficientes para o convívio social. Células-tronco são vivas, mas não são vidas humanas. Antes de se diferenciarem, são tão somente o potencial para a vida humana.
Esses mesmos grupos “tecnófobos” já foram contra os transplantes de órgãos. Muito antes, as vacinas já foram consideradas pelos “falsos profetas” como tentativa de rebeldia contra Deus, pois significava não aceitar seus desígnios. Tanto que o médico inglês Jenner, inventor da primeira vacina contra a varíola, foi excomungado pela Igreja, acusado de ter “parte com o demônio”.
Há alguns dias atrás uma empresa norte-americana anunciou que conseguiu iniciar uma cultura de células-tronco a partir de uma célula retirada de embrião com apenas dois dias, sem danificá-lo. De acordo com o cientista responsável não haveria mais nenhum “motivo racional” para qualquer oposição a essas pesquisas. Aguardemos para ver que novos argumentos contrários surgirão. Motivos religiosos, éticos, filosóficos e outros muitas vezes encobrem objetivos distintos, utilizando-se da ingenuidade de uns e da esperteza de organizações que sempre têm se sustentado no combate aos avanços científicos, principalmente no Terceiro Mundo.
A Lei de Biossegurança ainda está a perigo: uma ação de inconstitucionalidade direta contra a mesma ainda não foi julgada...
Não estará mais uma vez por trás disso tudo o projeto do Apartheid Tecnológico, visando atrasar nossa pesquisa, impedindo o desenvolvimento da tecnologia? Se novamente nos vencerem, daqui há alguns poucos anos certamente estaremos pagando custos altíssimos para tratamento de doenças, cujas pesquisas para a cura foram desenvolvidas fora do Brasil e novamente aos mais pobres as soluções estarão sendo adiadas...
*Eng.º Agr.º, Dr. em Agronomia, professor da UERGS (mairesse@terra.com.br)
A ÉTICA OBSCURANTISTA Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
A História não é repetitiva, mas recursiva: como um ponto que se desloca em espiral ascendente, cuja projeção vai traçando e redesenhando uma circunferência. Quem enxerga apenas esta projeção, não só pensará que tudo se repete, como agirá desta forma, tentando segurar a roda da História, como outros já o fizeram. Nunca vencerão, mas terão deixado como legado imensos prejuízos à humanidade pelo atraso na aplicação de conhecimentos, que poderiam minimizar nossos sofrimentos há mais tempo. Tudo em nome de uma ética dogmática, que se não repete os tempos da Santa Inquisição, lhe é recursiva, reciclada e adaptada aos novos tempos. Essa mesma “ética” obrigou Sócrates a beber cicuta, colocou Cristo na cruz e ascendeu a fogueira para Bruno.
Quando Jenner inventou a vacina contra a varíola no século 18, os auto-intitulados defensores da ética diziam que o médico tinha parte com o diabo e colaborava com ele na rebeldia contra os desígnios da Providência. A campanha contra a vacina significou décadas de atraso na aplicação da mesma e milhões de mortos, que poderiam ter sido salvos se fossem vacinados.
Um século depois, quando a vacinação já era utilizada de maneira rotineira na Europa, a tentativa de votar no Congresso a sua obrigatoriedade, o que seria uma conquista do povo, era alardeada pelos grupos “éticos” como um atentado às liberdades individuais. A vacinação acabou vencendo, apesar dos imensos prejuízos aos milhares de brasileiros que pagaram com a morte o preço da ignorância e do fanatismo.
Já no alvorecer do século 21, o juiz federal titular da 6a vara seção judiciária do distrito federal, ressuscita o demônio em seu parecer sobre soja transgênica: “... a engenharia genética, nos dias atuais, guiada pela desregulamentação gananciosa da globalização econômica, poderá gestar, nos albores do novo milênio, uma esquisita civilização de "aliens hospedeiros", com fisionomia peçonhenta, a comprometer, definitivamente, em termos reais e não fictícios, a sobrevivência das futuras gerações do nosso planeta”.
Insurgem-se também contra o uso de células-tronco e a seleção de embriões, que abrem caminho para a cura de inúmeras doenças, muitas das quais consideradas ainda incuráveis, com aquele velho argumento: a ética. Dentre os argumentos “éticos”, dizem que a tecnologia beneficiaria apenas as famílias ricas. Por este e outros argumentos, nenhuma das invenções humanas teria aprovação, já que inicialmente sempre são de aplicação e uso restrito, até que sejam integradas definitivamente à sociedade.
Assim, milhões de famílias estarão sofrendo por mais tempo, por conta dos defensores da ética de uma só direção. Certamente pensariam diferente se sofressem na própria carne os infortúnios dessas famílias, já que pensam a ética com imediatismo e em função de seus próprios interesses.
A ética deve ser uma avenida de ida e volta, onde riscos e benefícios sejam analisados, visando o melhor e mais seguro uso das tecnologias. A proibição de uma tecnologia pode trazer um risco bem maior: o da estagnação.
A história não é repetitiva, mas recursiva. Assim como tecnologias esgotadas têm sido recicladas à luz dos novos conhecimentos, a resistência fanática e dogmática aos avanços tecnológicos nada mais é do que efeito da recursividade do obscurantismo, reacionário ao caráter perfectível do Espírito Humano.
AQUECIMENTO GLOBAL E AS PLANTAS TRANSGÊNICAS Prof. Dr.Luiz Alberto Silveira Mairesse
Como já se disse, a evolução das sociedades humanas assemelha-se a um ponto em espiral ascendente, cuja projeção vai redesenhando uma circunferência. Quem observar apenas a projeção do ponto vai pensar que a história se repete. Este tem sido o grande erro de certas organizações sócio-ambientais. A história, decididamente, não é repetitiva, mas realiza um movimento recursivo ou recorrente; e quando um ciclo se fecha há uma total inversão nos sistemas inventados pelo homem, como se a ampulheta que mede o tempo tenha que se inverter para continuar sua função. A recursividade da história se dá quando novas tecnologias são na verdade a reciclagem das antigas invenções à luz dos novos conhecimentos.
O chamado Sistema de Plantio Direto nada mais é do que o primeiro utilizado pelos humanos no começo da agricultura. Só que agora é feito com máquinas apropriadas, que quase não mexem com o solo, proporcionando uma série de vantagens, dentre as quais o controle eficiente da erosão. Aliadas a este e outras técnicas modernas na agricultura, surgem as plantas geneticamente modificadas. E se até recentemente se buscou alterar o ambiente para satisfazer as necessidades das plantas, estas, com extrema eficiência, é que estão sendo alteradas para se adaptarem ao ambiente. Na agricultura convencional se aplica calcário para diminuir a acidez solo; nutrientes para corrigir a fertilidade e manter as colheitas; agrotóxicos para defender as plantas das pragas; faz-se drenagem de banhados; irrigações; e toda uma série de artifícios, sempre modificando o ambiente. A proposta da engenharia genética é a inversão de tudo isto: as plantas é que precisam se adaptar às condições do ambiente. Uma novidade é a busca por plantas transgênicas perenes, que os cientistas consideram como uma volta às nossas raízes. E se o aumento da produtividade se deu a partir da seleção de plantas anuais, um novo patamar no aumento da produtividade se dará a partir da transformação das plantas anuais em perenes (que produzem por vários anos), com sistemas de cultivo semelhantes a ecossistemas naturais e com uma economia de energia enorme. Os pequenos produtores são os mais beneficiados pelas inversões ou “volta às raízes”: a tecnologia passa dos laboratórios para as sementes, não havendo mais necessidade de equipamentos sofisticados e caros nas lavouras, nem da aplicação de produtos químicos, com o fim da era da química. Os genes das plantas, com suas enzimas, é que trabalham.
Enfim, não sendo mais possível mexer no ambiente, a ciência recorre a uma tecnologia em desuso (ou à filosofia desta), à luz dos novos conhecimentos. Tudo aquilo que se aplicava ao ambiente e até mesmo as alterações que se fazia no mesmo, passam a ser substituídos pelos produtos dos genes, ou seja, por substâncias orgânicas, como respostas das plantas às suas próprias necessidades no ambiente em que se desenvolve.
Com relação ao aquecimento global, qualquer criança compreende que se uma planta é resistente a pragas, não precisará de agrotóxicos e que além de não poluir e não afetar a saúde, não haverá emissão de CO2 das fábricas de agrotóxicos e das máquinas usadas na aplicação dos produtos químicos. É fácil entender também que se uma planta transgênica é adaptada às condições ambientais, se economizará energia sem mexer no ambiente: solos encharcados não precisam ser drenados; plantas resistentes à seca podem dispensar irrigação; plantas que produzem seus próprios nutrientes e adaptadas a solos pobres podem dispensar adubos, que são produzidos nas fábricas emitindo CO2; plantas transgênicas que produzem medicamentos, além de mais seguros, dispensam gastos imensos de energia. Enfim, são inúmeros os exemplos que se poderia ainda acrescentar para demonstrar facilmente que no seu conjunto os transgênicos correspondem à contribuição da agricultura biotecnológica na diminuição do aquecimento global. Não necessitando de insumos produzidos em fábricas que emanam gás carbônico e dispensando máquinas que queimam combustíveis, as plantas transgênicas tão somente estarão seqüestrando CO2 para formação de seus compostos e liberando oxigênio. Indo muito além da agricultura, as tecnologias do DNA, combinadas com a informática, a nanotecnologia e a energia de fusão nuclear, estarão fechando mais um ciclo de evolução das sociedades humanas. O Homem cada vez mais integrado à natureza. Bem ao contrário do que pensam os defensores ou promotores do caos.
São tão óbvias tais constatações, que temos observado compreensão plena em crianças na mais tenra idade. Entretanto, por que isto não ocorre com adultos, inclusive muitos bem letrados, de certas organizações? Isto deveria ser assunto para psicólogos, sociólogos e outros profissionais sérios. E também, quem sabe, para a Polícia Federal e Justiça, para tentar decifrar o que existe por trás de certos movimentos no Brasil, que tentam atrasar nossa pesquisa. A CPI das ONGs tem sido sempre boicotada. Por quê? Por quem?
*Engº Agrº, Dr. em agronomia, Prof. Adj. da UERGS (mairesse@terra.com.br)
A PELE DE CORDEIRO DO APARTHEID TECNÓLOGICO. Prof. Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse
O advento da biotecnologia moderna levará, inexoravelmente, ao fim do uso dos agrotóxicos convencionais, não só pela incorporação de resistência genética em plantas cultivadas, independentemente das espécies doadoras ou receptoras, como também pela possibilidade de obtenção e extração dessas substâncias naturais de defesa, a partir de qualquer organismo geneticamente modificado para este fim. Vislumbra-se ainda, num futuro próximo, a criação de plantas alelopáticas que desbancarão também os herbicidas.
No contexto atual os herbicidas ganham importância, quando se generaliza o uso da tolerância de plantas a estes. Se isto pode determinar uma ampliação do uso destes, por outro lado significa a substituição de herbicidas altamente impactantes por produtos menos tóxicos e menos agressivos ao ambiente. Os herbicidas do grupo do glifosato (glicinas) atuam inibindo a enzima 5-enolpiruvato-chiquimato-3-fosfato sintase (EPSPS), impedindo a síntese de fenilalanina, tirosina e triptofano. Por apresentarem mais de um mecanismo de ação, limitado ao metabolismo e praticamente nenhum efeito residual, são considerados produtos com baixa probabilidade de selecionar inços resistentes. São favoráveis sob o ponto de vista ambiental porque se ligam fortemente às partículas do solo, degradando-se rapidamente em compostos que ocorrem naturalmente no solo. A intensificação de pesquisas nesta área acena para avanços imensos. Genes de resistência a herbicidas são comuns na natureza, fazendo desta opção uma das mais importantes na preservação ambiental, apesar da resistência por parte de certos grupos de ambientalistas.
Na lavoura convencional de soja, além do glifosato, outros herbicidas bem mais tóxicos e com muito maior poder residual são comumente utilizados. Tem sido muito comum observar-se prejuízos, nos mais diversos graus, a culturas subseqüentes, como o milho e principalmente o trigo, devidos aos resíduos desses herbicidas. Com o advento da soja tolerante ao glifosato, tem sido voz corrente no RS que são muito evidentes os benefícios às culturas de inverno, pelo exuberante crescimento e desenvolvimento inicial das plantas, comparativamente com lavouras em sucessão com soja convencional. Os indícios são muitos claros e tais resultados já eram esperados. Possivelmente haverá comprovação científica brevemente.
Outra observação que tem sido relatada é a maior ocorrência de minhocas no solo de lavouras de soja transgênica. Além das características bem conhecidas do glifosato de menor toxicidade, existe a possibilidade de ocorrência do fenômeno da hormese, característico deste herbicida: doses baixas da substância podem estimular o crescimento e desenvolvimento de componentes da fauna e da flora do solo.
Com o aumento da área de plantio de cultivares resistentes a herbicidas, o surgimento de ervas daninhas tolerantes é uma possibilidade concreta, pela possível seleção de plantas pré-existentes nas populações. Esta é uma situação que a pesquisa tem enfrentado, em condições mais complexas, desde que o primeiro herbicida foi inventado. Por isto não deverá ser difícil a solução por parte da engenharia genética, pois novos herbicidas, mais eficientes, menos tóxicos e menos agressivos ainda ao ambiente, já estão sendo pesquisados, visando estabelecer novos sistemas. De qualquer forma, é preciso lembrar que o glifosato, dos herbicidas utilizados em todo o mundo, é um dos produtos com menor possibilidade de selecionar espécies resistentes.
As restrições que se tentam impor à soja tolerante a herbicida e ao próprio glifosato, pretensamente protetoras, chegam a ter caráter surrealista. Com relação ao gene de resistência, é óbvia a impossibilidade de fluxo gênico e, conseqüentemente, de qualquer impacto ambiental, já que no Brasil não há nenhuma espécie vegetal que possa se cruzar com a soja. Ora, como suposta proteção a essas áreas, o que se consegue na prática é evitar a utilização de herbicida menos tóxico e menos agressivo ao ambiente, para continuar permitindo a aplicação de produtos que, comprovadamente, são muito mais poluidores.
Medidas restritivas, contaminadas com ideologia, conseguem tão somente desproteger ainda mais o ambiente e causar prejuízos econômicos aos agricultores, às regiões alvos desses equívocos e ao próprio País. Deveria estar vivo na memória dos pretensos guardiões da natureza o maior “mico histórico” mundial, pago pela extinta União Soviética, quando, em 1947, supostamente baseado na ciência, porém infectado de ideologia, o stalinismo decretou a genética como a “pseudociência da burguesia”. Segundo os cientistas isto significou, no mínimo 80 anos de atraso àquela região, defasagem esta, ainda por ser superada. Pensemos nós, brasileiros, se devemos deixar-nos influenciar por esses grupos avessos aos avanços científicos, cobertos com a pele de cordeiro do ambientalismo e que podem muito bem estar a serviço da política do Apartheid Tecnológico, que procura impedir o Terceiro Mundo de desenvolver tecnologias estratégicas.